Guimarães Jazz, 15 de Novembro de 2016

Guimarães Jazz

Quarenta avos de milénio em celebração

texto Gonçalo Falcão fotografia Paulo Pacheco

A jazz.pt assistiu às duas primeiras semanas da 25ª edição do festival de jazz de Guimarães. Aqui ficam as impressões suscitadas por esta comemoração de um quarto de século de música, em continuação esta semana com mais um punhado de concertos.

José Menezes, do LUME, integrou a banda do Hot Clube que abriu o Guimarães Jazz há 25 anos. Esteve agora no palco do Centro Cultural Vila Flor, a tocar também com a banda da Sociedade Musical de Pevidém e o coro do BJazz. Luís Villas-Boas introduziu este primeiro concerto da primeira edição do Guimarães Jazz, no Paço dos Duques de Bragança. Os fundadores do festival, vimarenenses amantes de jazz que reuniam no bar Convívio, estariam longe de imaginar que, 25 Novembros depois, se iriam sentar num auditório moderno para ouvir outra orquestra de Lisboa, o LUME (Lisbon Underground Music Ensemble). Foi um concerto único, montado especificamente para a comemoração do 25º aniversário do festival. Este permaneceu e está cada vez mais interessante. Fomos ouvir duas das suas três semanas e aqui vos damos o relato, para que agendem já o mês Novembro de 2017. Vale muito a pena.

A agulha do carril

 

Ao contrário do que é habitual, o festival de jazz de Guimarães deste ano decorreu em três semanas e a primeira teve esta excelente surpresa. Marco Barroso, director musical do LUME, conseguiu harmonizar musicalmente três universos distintos. Unir é o que a música mais tem feito e se dúvidas houvesse a prova esteve, uma vez mais, em Guimarães. Barroso respeitou a identidade musical de cada um dos grupos (a sua orquestra, a banda de Pevidém e o coro) e integrou-os num discurso comum, em que não houve líderes mas sim um desengonçado muito belo.

O primeiro tema foi logo disso exemplo, com músicas da Sociedade Musical intercaladas com temas do LUME, num “zapping” musical muito vivo. Imagine-se que dispomos de três máquinas distintas, com diferentes funções; de cada uma retiramos peças para a construção de uma quarta que, sendo diferente das progenitoras e tendo outra função, complementa o funcionamento de cada uma das iniciais. Estas, as primeiras, não se estragam e continuam em actividade, enquanto a nova as complementa. Isto que descrevi, impossível no mundo da mecânica, é o que Marco Barroso engenhosamente fez com o coro do BJazz e com a formação de Pevidém. E se a nova máquina esquisita tocou lindamente – sendo fundamental reconhecer também o trabalho que cada um dos maestros fez –, terá porventura tocado mais fundo nas almas musicais das dezenas de jovens que integram cada um dos grupos, pois mostrou-lhes, fazendo, que a música é infinita e unificadora. Assim, também do ponto de vista humano, esta terá sido uma experiência muito enriquecedora para todos, onde não houve líderes, nem chefes, nem valores que se sobrepõem. A melhor maneira de combater os Trumps deste mundo é esta: não é preciso vir com discursos religiosos nem abraços (já perceberão): é dar o exemplo e fazer funcionar.

Como a perspectiva de quem ouve sentado no auditório – completamente cheio – é outra e a nobreza dos meios não obriga à dos fins, é preciso não deixar de dizer que a música se ouviu lindamente: ideias muito boas, um ritmo infernal, músicos excelentes, bons solos, uns “tutti” impressionantes, com os mais de cem intervenientes a explodir na sala, e música desafiante sem deixar de ser simpática de ouvir. A banda de Pevidém, constituída por instrumentistas muito novos, esteve tensa no início, mas depois conseguiu manter o rigor, deixando a alegria e o prazer de tocar tomar conta dos jovens (alguns mesmo muito jovens) músicos. Notável o trabalho do maestro Vasco Faria em manter esta unidade. Também o coro do BJazz, sob a direcção do maestro Tiago Simães, esteve impecável e soube ser irónico e avançado musicalmente. Um grupo a ter em atenção, com uma solista que canta lindamente sem aqueles tiques irritantes que infectam o cantar actual.

Não é possível deixar de referir a produção e os técnicos que puseram esta enorme unidade musical a soar tão excepcionalmente para quem os ouvia, permitindo a audição clara de pormenores e da potência do conjunto. Uma excelente ideia do Guimarães Jazz e um exemplo que acabou com um aplauso copioso do público.

Porque não se deve deixar um americano à solta

 

A segunda semana do festival começou na quinta-feira, para ouvir o SFJazz Collective a tocar Miles Davis & etc. Não pudemos estar presentes e avançámos directamente para a casa da partida, a fim de ouvir o quarteto de Matt Wilson. Foi um espectáculo populista, fácil, muito “show-bizz”, muito profissional, cheio de lugares-comuns e revisionista. Uma coisa tipo Donald Trump.

Comecemos do início: se perguntássemos a um músico do século X para que é que serve a música, ele responderia que serve para passar a palavra de Deus. Se perguntarmos ao baterista de Knoxville, Illinois, este dirá que é para tocar hard-bop e improvisar. É tudo o que Matt Wilson pede ao jazz, o que não é grande coisa, convenhamos, em pleno século XXI. Wilson toca lindamente, com imensa delicadeza e uma técnica notável; a sua bateria é rítmica e tímbrica em doses iguais e, é admirável ouvi-lo a solar num original de Gene Ammons / Sonny Stitt: o tema vai sendo cantado pela bateria melódica e ritmicamente, renovando-se em cada ciclo, apresentando-se sob diferentes perspectivas. Mas, depois dos três temas iniciais, que foram muito bem tocados e solados, o espectáculo começou a tender para o religioso, com abraços ao colega do lado, cancro da mulher, bate palmas, discursos anti-Trump, elogios ao Obama, etc. O regresso do “entertainer” em versão inversa, cara branca a sapatear negramente emoções primárias.

Não há qualquer problema em produzir um espectáculo de entretenimento alegre: o jazz é festivo. Não há crise em particular por se tocarem músicas em que o ritmo é tão primário que pode ser acompanhado com palmas pelo público: o jazz é colectivo. Mas não é fácil ser-se festivo e colectivo sem se ser evidente, previsível, básico, conservador e rústico: Wilson foi-o. O baterista é um excelente “sideman”, um óptimo executante, não um líder. O destaque vai para os solos de Jeff Lederer, que soube usar extraordinariamente o material que tinha para sair um pouco daquele colete-de-forças. Chris Lightcap parecia não querer estar ali e limitou-se a desempenhar o seu papel; Kirk Knuffke também parecia pouco à vontade no “blackface minstrel show”, mas cumpriu com distinção. Dir-me-ão que estou a ser cruel, que o sr. Wilson é uma alma bondosa, um tipo porreiro. Muito provavelmente é. Mas a autocomplacência é o rastilho do carreirismo, como nos avisou Agustina Bessa Luís.

Sobre este concerto, poderia escolher uma das seguintes frases: «As palmas e as ovações foram muitas» ou o público vimarenese «rendeu-se ao músico», mas não o vou fazer, porque são as frases usadas pela TVGuia desta semana para falar dos programas televisivos de cantores de karaoke. É indecente.

Chorar não chorei

 

A tarde de sábado foi um aquecimento para a estrela da noite, um quarteto brasileiro, o Quatro a Zero, que toca choro. Não tem mal os festivais de jazz programarem outras músicas (e vice-na-verdade-versa), muito pelo contrário, e a ideia de mostrar o choro, uma forma musical brasileira riquíssima que, tal como o frevo, tem pouca divulgação fora do Brasil, é boa, em particular à tarde. O samba e a bossa-nova ocuparam toda a exportação musical brasileira e há muito mais de onde aqueles vêm. O quarteto é composto por quatro músicos com uma técnica musical notável que tocam choro de câmara com rigor, por vezes demasiado científicos, mas sempre delicados e com um grande conhecimento da tradição, em baixo eléctrico, bateria, piano e guitarra. Bom de ouvir, apesar de o concerto se ter estendido em demasia.

Demasiado bom

 

O concerto mais aguardado da segunda semana foi o do grupo de Rudresh Mahanthappa. Aqui o bebop não é o princípio e o fim da história e o jazz não é só uma habilidade: é um pensamento, uma ideia. O concerto apresentou os temas de “Bird Calls”, o disco de 2015 em que o músico usa pedaços de canções ou improvisos de Charlie Parker - segundos de música - e transforma-os em temas seus. “On the DL”, por exemplo, que abriu o concerto, usa pequenas partes de “Donna Lee”, “Thinking In Tallin” extrai ideias de “Parker’s Mood” e “Maybe Later” faz o mesmo a partir de “Now’s The Time”.

Rudresh começou por instalar uma progressão modal e, não o sabíamos ainda, o início do fortíssimo ataque musical que se seguiria: foi um pouco como se entrássemos numa montanha russa e começássemos a subir. Parece que vai ser fácil e que a coisa não será grave. Mas é: subitamente ataca-nos uma força e uma energia extraordinárias e começa uma viagem de hora e meia de enorme intensidade. A música foi espantosa e os solos maravilhosos, numa torrente musical intensa que nos deixou colados ao fundo da cadeira como se viajássemos a velocidades altamente perigosas. Os primeiros solos de bateria e piano foram monstruosos e deram o mote para a muito inspirada noite. É esta a música que nos eleva, que nos dá esperança na humanidade, que argumenta com ideias novas e que o faz com uma técnica e uma velocidade que cansam quem ouve.

Foi claramente um dos melhores concertos do ano em Portugal e um dos melhores que ouvi de sempre no Guimarães jazz. O assunto foi sério e a montanha russa muito emocionante. O discurso solístico do saxofone de Rudresh é muito complexo: rápido a pensar como Parker, usa poucas sequências, preferindo a angulosidade melódica que é aplainada pela rapidez do discurso. O baterista Rudy Royston é incrível tecnicamente e dispõe de um superior bom gosto. Joshua White, no piano, foi uma enorme surpresa. A música foi tocada sem falhas, com uma naturalidade só possível em muito poucos grupos actuais. Saímos cansados, a viagem foi intensa, a rapidez enorme, mas a vontade era a de voltar logo a seguir para mais uma volta. Espantoso!

Trocado por miúdos

 

A noite de domingo começou à tarde, com o resultado dos “workshops” com alunos da ESMAE. A vertente pedagógica é uma das mais interessantes propostas deste festival, que aproveita a presença de músicos internacionais para proporcionar a jovens músicos um contacto com outras ideias e outros processos. O palco do grande auditório ficou quase cheio com os muitos esmaenses que constituem a Big Band e o Ensemble de Cordas desta escola. Jovens músicos mas já músicos, como fez questão de referir o pianista Luis Perdomo, que apresentou as composições e a melhor direcção. Em teoria, o cargo era da flautista Jamie Baum, mas ela dividiu o esforço com os seus colegas de grupo e ainda bem, pois as suas composições foram as menos entusiasmantes e a sua direcção teve o “swing” de um aluno de colégio militar.

O concerto ouviu-se com imenso prazer, o grupo tocou bem, mostrando estar à altura do desafio, e alguns dos seus solistas entusiasmaram. Não é demais elogiar esta iniciativa anual do Guimarães Jazz pelo que ela traz de formativo e pela diferença que pode fazer na vida destes músicos que, com experiências deste tipo, crescem, medrando também o festival que assim cultiva o futuro.

Guimarães a puxar pelo Porto

 

Há anos que assisto ao esforço do Guimarães Jazz em apoiar as iniciativas jazzísticas e editoriais que de alguma maneira envolvem o Porto. Se a etiqueta Tone of a Pitch era de Lisboa, envolvia muitos projectos do Norte, e quando chegou ao fim foi naturalmente que deu lugar à Porta-Jazz, uma iniciativa estimável de músicos que se recusaram a ficar parados à espera que os chamassem para tocar. Este ano, o convidado Porta-Jazz foi o saxofonista João Mortágua, que formou em quinteto com três músicos galegos e um contrabaixista alemão. Sensíveis a este alargamento à Galiza, que nos quer tão bem, fomos ouvir. O concerto contou com a colaboração de um artista visual e o escolhido foi Hernâni Reis Baptista.

João Mortágua vem da escola do Hot e da ESMAE e é um nome português em ascensão. Não pudemos ouvir o concerto até ao fim e, assim sendo, esta opinião tem essa parcialidade. O grupo tem uma secção rítmica com guitarra que radica em sonoridades próximas do rock actual, numa linhagem sonora típica de alguns registos das editoras do Norte da Europa, como a Hubro ou a Rune Grammofon. Um som muito bom, com um grande guitarrista e um baixista a apoiarem as linhas repetitivas e um bom baterista, sólido e criativo. Sobre estas bases o trompete e o saxofone entregaram as linhas melódicas, que foram depois desenvolvidas por todos. Um som contemporâneo, forte, com boas ideias musicais.

Apesar de serem músicos novos em idade, têm uma maturidade surpreendente e um fazer próprio - não é demais referir esta questão, pois nem sempre os músicos querem o risco de sair dos formatos confortáveis da propedêutica. João Mortágua gosta do lado eléctrico do jazz e da pop e anda a tentar percebê-los, sem medo de juntar ingredientes sem “pedigree” jazzístico. Por enquanto, muito bem.

And now for something completely different

Os festivais de jazz são normalmente aproveitados para pôr a escrita em dia em termos de compras de discos. Não me cabe a mim perceber as escolhas do Guimarães Jazz, que eventualmente podem até nem ser só da organização e terem razões comerciais que desconheço na íntegra. Mas não consigo evitar um comentário quando vejo os discos de Rudresh Mahanthappa ou de Chris Lightcap, músicos que editam na portuguesa Clean Feed, a 25,90€, quando no “site” desta “label” estão a 8,90. Temos em Portugal uma das melhores editoras do mundo de jazz – recordo que a Clean Feed fica sempre nos lugares cimeiros de todas as “pools” das revistas de referência mundiais, como por exemplo o da revista Downbeat. Esta editora, que edita e representa alguns dos melhores músicos mundiais, tem muitos deles presentes no Guimarães Jazz. Vejo-a noutros festivais a vender os seus discos e os de outras editoras onde os músicos presentes actuam. Vejo o respeito que os músicos têm pela editora portuguesa. Vejo os seus preços. É mesmo preciso contratar uma multinacional francesa que aplica uma margem de lucro de 190%?

Esta semana, o Guimarães Jazz conclui com concertos do Jamie Baum American-Polish Septet, de Ambrose Akinmusire, do Donny McCaslin Quartet (com música de David Bowie), do Adam Baldych & Helge Lien Trio e da Charlie Haden’s Liberation Music Orchestra, dirigida por Carla Bley. Como escrevemos no Preview do festival, é de ir, é de ir…