Barraca Fest, 8 de Novembro de 2016

Barraca Fest

Mudanças de fundo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Mudado do Teatro A Barraca para a SMUP, e de Lisboa para a Parede, o festival de uma só noite acabou por ter a sua melhor edição de sempre e com igual afluência de público. Todos os quatro portugueses, dois alemães, um belga e um holandês estiveram muito bem, mas a grande revelação foi o pianista Seppe Gebruers (foto acima).

Assim designado porque as suas três primeiras edições tiveram lugar no Teatro A Barraca, em Lisboa, ao seu quarto ano o Barraca Fest mudou-se para a Parede, sem alterar o nome. Foi uma aposta de risco, dado que já havia um público fidelizado, mas o palco da SMUP acabou por encher para se assistir às actuações de Luís Lopes a solo, do quarteto formado por Marcelo dos Reis com Julius Gabriel, Constantin Herzog e Tiago Vaz e do trio de Luís Vicente com Seppe Gebruers e Onno Govaert. Pela primeira vez, o festival de uma só noite teve o mesmo número de participantes estrangeiros (dois alemães, um belga e um holandês) do que portugueses, denotando a vontade de possibilitar cada vez mais a colaboração de músicos nacionais com figuras do circuito internacional.

Em termos musicais, a bitola de qualidade que o evento tinha antes colocado ao alto conseguiu ser ultrapassada. Muito diferentes entre si, os três concertos foram particularmente bons. O guitarrista Luís Lopes apresentou o seu projecto “Love Song”, o oposto das suas intervenções solísticas pelo território do noise. No início da actuação deixou que cada nota vivesse toda a sua vida, só tocando a próxima depois de a anterior se ter desvanecido no ar. À medida que o tempo passava as malhas iam-se apertando, mas sempre incorporando silêncios e sempre numa toada contemplativa e intimista, toda ela feita de fragilidades e subtilezas.

Não havia melodias sequenciais, apenas construção harmónica. Umas quantas vezes houve também uma exploração de suaves “overtones” eléctricos, ainda que num registo de beleza que era quase pastoral. Se outros guitarristas têm por cá feito algo de semelhante seguindo as pisadas de John Fahey e dos muitos discípulos deste, Lopes anda à procura de terreno não pisado, o que é deveras interessante.

Luís Lopes

Constantin Herzog e Marcelo dos Reis

Julius Gabriel

Onno Govaert e Luís Vicente

O grupo que se seguiu trocou a calmaria pela tempestade, com semelhantes efeitos de mesmerização da escuta. Se o serão começara por uma folk abstracta, à falta de melhor designação, Marcelo dos Reis, Julius Gabriel, Constantin Herzog e Tiago Vaz ancoraram muito objectivamente a música na tradição do free jazz ayleriano, mas para lhe acrescentarem algo mais. Muito intensa e marcada a fogo, a prestação teve no guitarrista (dos Reis) e no saxofonista tenor (Gabriel) a sua guarda avançada, com o contrabaixo de Herzog e a bateria de Vaz a sustentarem toda a ebulição, mas também a não fazerem mais do que isso. Exuberante e cheio de recursos, Gabriel impressionou, mas foi dos Reis que nos deixou mais intrigados: se até determinada altura cumprira aquilo que Sonny Sharrock definiu para este contexto, o seu fulgurante solo entrou pelo country rock dentro e mudou tudo. Pena que o tornado tenha sido demasiado curto.

A fechar o Barraca Fest, já passada a meia-noite, o trompetista Luís Vicente, o pianista Seppe Gebruers e o baterista Onno Govaert entraram mais pelos modos da música livremente improvisada. Se o primeiro, como é seu hábito, foi espalhando conotações jazzísticas pela intriga em formulação, Gebruers alimentou esta com motivos de clara proveniência clássica. Aliás, foi este a grande surpresa do festival, pois nada dele conhecíamos e revelou ser um músico superlativo. Com um ataque devedor a Cecil Taylor, de mão pesada, motivo pelo qual depressa se percebeu porque não existia na banda um contrabaixo, transformava-se por completo quando a música pedia filigrana e nuance.

Ou mesmo quando não pedia, atirando com elementos que lembravam Messiaen e os impressionistas contra as dinâmicas extremadas de Govaert (por exemplo com um violento “bang” na tarola a contradizer um finíssimo trabalho de pratos) e contra os fraseados tão assertivos quanto líricos de Vicente. Foi com contrastes, pois, que o trio trabalhou, criando surpresa atrás de surpresa. Venham mais Barracas destas, por favor…