Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, 30 de Outubro de 2016

Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra

Boas práticas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Jazz ao Centro Clube

Com o programa dividido entre a base no Salão Brazil e o novo Convento de S. Francisco, a 14ª edição do festival conimbricense foi um sucesso, com salas à cunha e público satisfeito. Nem tudo foi musicalmente magnífico, mas o que foi chegou a níveis bem altos.

A recente abertura ao público do Convento de S. Francisco, com o seu auditório de 1200 lugares e uma programação ambiciosa que abarca o jazz, colocava um desafio ao festival organizado em Coimbra pelo Jazz ao Centro Clube: ou era eclipsado pelo novo equipamento autárquico ou incluía-o no seu roteiro de concertos. Na 14ª edição do evento, realizada entre os passados dias 19 e 22 de Outubro, foram três as actuações aí agendados, duas na igreja de inícios do século XVII, até porque as características sonoras dos respectivos grupos a tal convidavam (o do trio de Agustí Fernández, Hugo Antunes e Roger Turner, malogrado que foi o quarteto com o saxofonista John Butcher, por motivos de doença, e o introspectivo Mette Henriette Trio), e uma no próprio auditório, dada a previsão de que os convidados do Quinteto Sandro Norton, Gary Burton e Maria João, seriam chamariz suficiente para encher aquele espaço (e foram, com a enorme sala quase a esgotar).

Todos os demais tiveram lugar na plataforma de base do festival, o Salão Brazil, sempre com o velho bar da Baixa conimbricense no limite dos seus 200 lugares. Ou seja, em termos estratégicos e de público, o Jazz ao Centro foi um sucesso. Em termos musicais também, se bem que, como é de regra em todas em situações festivaleiras, com momentos de menor interesse.

A melhor escrita

A abertura dos Encontros, no Salão precisamente, com o primeiro vencedor do Prémio de Composição Bernardo Sassetti foi, neste contexto, não só um acto de coragem como de coerência, dado o propósito prioritário do JACC de promover o jazz nacional. O muito jovem Vasco Miranda apresentou na ocasião a obra premiada pelo projecto Portugal em Jazz, uma iniciativa da Associação Sons da Lusofonia que homenageia o saudoso Bernardo Sassetti da melhor maneira, isto é, incentivando a criatividade de uma nova geração de músicos de jazz. As partituras de Miranda foram tocadas pelo Ensemble Portugal em Jazz, com o saxofonista João Mortágua como convidado especial, e a circunstância serviu também para apresentar o disco com os mesmos temas editado pela JACC Records.

O concerto começou com algum cinzentismo  e em registo mole, não parecendo suficientes as boas ideias colocadas no papel pelo compositor – com Roger Turner, que assistiu à sessão, a comentar que por vezes a música interpretada pelo octeto lembrava o carácter flutuante das prestações do Cedar Walton Quartet, o que só podia ser um elogio – e o excelente trabalho desenvolvido pelo pianista João Nuno Bernardo para elevar a um patamar superior aquilo que se ia ouvindo. O certo é que a música cresceu com o decorrer do tempo, e muito por responsabilidade de Mortágua, que assinou os mais fogosos solos da noite e teve a capacidade de despertar o ânimo dos ainda verdes André Murraças (saxofone tenor), Jéssica Pina (trompete), André Pimenta (trombone), Mauro Ribeiro (guitarra), Hugo Correia (baixo) e Alex Rodriguez (bateria). O curioso é que, se até determinada altura o que pesou mais foi a pauta, a partir de então vingou sobretudo a performance. O que não aconteceu, note-se, em detrimento da composição – no jazz, a melhor escrita é aquela que suscita a melhor improvisação. O público saiu satisfeito, talvez porque tivesse ido sem expectativas definidas e, em consequência, sem exigências de maior.

“Bricolage” sonora

 

Se o arranque do festival se fez dentro das premissas do “mainstream” jazzístico, algo de muito diferente se ouviu na Igreja de S. Francisco no final da tarde do dia seguinte. Dada a ausência de John Butcher, a música que se proporcionou assumiu por inteiro, igualmente, a ausência de um saxofone, mas sem adoptar as coordenadas do trio de piano. Agustí Fernández utilizou mais o interior do seu instrumento do que o teclado, Turner teve uma abordagem de percussionista, que não de baterista, e até Hugo Antunes preparou o seu contrabaixo com objectos diversos. Foi um trabalho de “bricolage” sonora que desenvolveram, cheia de espaços e dinâmicas, aproveitando a cada instante a reverberação da igreja e a forma como a arquitectura desta esculpia os timbres. A opção pelo abstraccionismo musical extremo nem por isso deixou de transmitir uma impressão clássica de beleza, para enlevo de todos os presentes. Pelos comentários ouvidos no final, mesmo quem não aprecia especialmente o radicalismo da improvisação livre ficou agradado com o desempenho.

A música que se criou foi, de qualquer modo, mais intensa, ou mais tensa, do que a tocada umas horas antes, durante a gravação de um álbum que será lançado futuramente pela JACC Records. O silêncio fora para esse efeito mais resolutamente incorporado no tecido musical e a interacção dos instrumentistas fez-se mais pausadamente, a um nível de volume baixo, ganhando-se com o procedimento uma dimensão onírica muito especial, sem que o conjunto soasse menos orgânico. Antunes, o mentor da formação e o responsável do convite a Fernández e a Turner, estava visivelmente contente com o resultado.

Pretensiosismo “jazzy”

Na outra entrada do Convento, já entrado o serão de dia 20, o guitarrista Sandro Norton protagonizou um concerto quase de música ligeira, numa visão do jazz que esteve nos antípodas daquilo a que antes se assistira. Se a proposta era algo soporífera no seu enquadramento, apostou-se tudo no virtuosismo instrumental, o do próprio líder logo para começar, o do suporte rítmico fornecido pelos veteranos Carlos Barretto (contrabaixo) e Mário Barreiros (bateria) e o de Gary Burton, ainda que o vibrafonista que tivemos diante de nós pouco se parecesse com o de uma obra-prima como “A Genuine Tong Funeral”. Em equilíbrio com uma frente de palco constituída por instrumentos harmónicos, à guitarra e ao vibrafone acrescentando-se o piano de João Salcedo numa por vezes intricada armação de teia, a exposição melódica esteve sobretudo a cargo de Luís Trigo e dos seus violino, acordeão e harmónica, fontes de onde provinham os refrões “cantabile” excessivamente doces e muito simples que se iam sucedendo. Ou seja, a música era simultaneamente “fácil” nos seus contornos e tocada com suprema competência, uma combinação que não é propriamente vulgar.

Alguns equívocos se foram repetindo na longa, demasiado longa, actuação, com Norton a entender o seu tecnicismo, só por si, como um factor de musicalidade. Isso ficou particularmente evidente no seu solo, com a banda recolhida nos camarins, numa mimetização de Stanley Jordan que o músico do Porto fez passar por uma invenção própria. Com esse exercício de exibicionismo conseguiu, no entanto, que a assistência, desconhecedora dos feitos de Jordan, manifestasse ruidosamente o seu pasmo e se rendesse aos seus argumentos. Com um Burton amarrado às lógicas nortonianas, só a entrada de Maria João fez com que se vivesse o formato canção como canção e não como pretensiosismo “jazzy”.

Música urbana clássica

 

Já a bater a meia-noite, coube ao duo da pianista francesa Eve Risser e do guitarrista português Marcelo dos Reis fechar o dia. O lugar escolhido para a apresentação poderia ter resultado num erro de “casting”, pois o Salão Brazil não era o mais indicado para uma “improv” sustentada na preparação profunda dos instrumentos e num estatismo textural todo ele feito de pormenores e subtilezas. Para mais quando esses sons extensivos tinham de competir com o tilintar dos copos e as conversas de fundo (ou não tão de fundo quanto isso, sabendo que há sempre pessoas que acham que estar numa sala de concertos é o mesmo que estar em casa, diante do televisor, não baixando o tom de voz), em se tratando de mais um registo áudio para edição discográfica. Se Risser não contemporizou, focando-se numa intervenção detalhística, já dos Reis salvou o “gig” de um provável desastre pelo encadeamento de padrões rítmicos e harmónicos que conseguiram prender as atenções.

Mais paisagística e ambiental do que no seu CD “Des Pas sur la Neige”, e muitas vezes preferindo o desenvolvimento de “drones” sonhadores ao seu habitual pontilhismo, a contribuição de Risser fez-se regra geral no limiar do silêncio, obrigando a uma escuta concentrada num meio em que tal era difícil. O que dela saía era especialmente interessante, mas perdia-se no contexto e continuaria a perder-se se Marcelo dos Reis reforçasse as suas pequenas malhas. O músico de Coimbra escolheu outra via (ao contrário do que sucedera à tarde, durante as gravações do disco), e se essa opção era esteticamente pouco óbvia, foi a mais conveniente para manter o público “ligado”. Face às volúveis e frágeis formas urdidas pela sua parceira, teceu estruturas, repetiu-as e transformou-as, sem temer – antes procurando – que tomassem as características de um plano rítmico, com frequentes alusões ao rock. Essa contradição de parâmetros até se tornou musicalmente superlativa, associando uma pulsação de música urbana a algo que dir-se-ia provir, como um eco, da música clássica.

Garbarek desacelerado

 

A 21 de Outubro, a nova descoberta da ECM, Mette Henriette, foi à Igreja de S. Francisco enquanto o sol, lá fora, se punha, consigo levando os seus companheiros no CD 1 do seu primeiro e muito aplaudido duplo álbum de estreia, o pianista Johan Lindvall e a violoncelista Katrine Schiott. Tal como se previa, a acústica ressoante deste espaço favoreceu a qualidade intimista das peças compostas pela saxofonista lapónia. Os três músicos jogaram constantemente com a mesma, demorando-se ainda mais numa exposição que já por si é caracteristicamente lenta, como se fora um “sampling” de Jan Garbarek em desaceleração. Henriette mostrou-nos a sua interpretação quase caricatural do jazz nórdico, sublinhando os aspectos que este tem do folclore e da música antiga dos fiordes numa filtragem que, sendo acústica, interioriza certas tipologias da música electrónica.

Quando sentíamos que o modelo escandinavo do jazz começava a alimentar-se de si mesmo, entrando em “loop”, o tenor de Henriette levava-nos para outro lado, surpreendia-nos, fosse com uma inesperada exploração de harmónicos, únicas alturas em que os decibéis subiam, ou com uma redução à elementaridade do sopro e da respiração, com o piano atrás a encadear minimalista e incessantemente iguais motivos e o violoncelo a lançar ramagens em volta da árvore. Muitos olhos se fecharam durante este concerto, com os ouvintes a deixarem-se levar pela viagem empreendida. Sem ter sido fantástico (aquele fantástico que seria se Mette Henriette tivesse trazido todo o seu grande “ensemble”), o concerto foi bastante agradável e fica na memória.

Admiradores de Rão Kyao

À noite, algo de muito distinto (como o quente em relação ao frio) nos esperava no Salão Brazil, com a brasileira Nomade Orchestra a ultrapassar tudo o que se podia esperar dela. Com um invólucro de funk-jazz, quase tudo tem lugar nos conteúdos musicais deste tenteto de S. Paulo, desde alusões às origens da musicalidade brasileira em Portugal, na Galiza (inclusive com “samples” de gaitas-de-foles) ou em Itália, a passagens pelo “prog”, pelo afrobeat, pelo reggae e pelo latin jazz, com uma secção de sopros (Beto Malfatti, André Calixto, Bio Bonato, Marco Stoppa, Victor Fão) ultrapossante, fazendo-nos lembrar Frank Zappa, uma secção rítmica (Luiz Galvão, Ruy Rascassi, Guilherme Nakata, Fabio Prior) em “groove” permanente, muito devedora ao rock, o kraut e o psych incluídos, e um teclista (Marcos Maurício) dimensionado na amplitude da world music.

Todas as composições do grupo nos tiravam o tapete de debaixo dos pés, mudando de direcção quando menos esperávamos e mantendo-nos de bicos de pés, à espera da próxima surpresa, fosse uma explosão de som ou uma pequena extravagância, para bom entendedor detectar. Depressa se instalou uma atmosfera de festa, com todos os corpos à vista a mexerem-se conforme o ritmo ia pedindo. Só que não se tratava apenas de música para dançar, mas de música complexa de executar, tocada por músicos extraordinários sobre quem, em Portugal, nada sabemos. Ou sabíamos, porque agora quem ali esteve vai querer descobrir quem são eles e o que têm feito. Estranhamente, eles conhecem-nos melhor do que nós a eles: antes, ao jantar, conversavam sobre a admiração que têm sobre os primeiros discos de Rão Kyao, os de jazz publicados em vinil.

Take 5

 

O fecho de ouro do Jazz ao Centro veio no dia 22 com uma intervenção no Salão Brazil que não era, nem pretendia ser, de jazz: a dos Ceramic Dog de Marc Ribot. Aliás, quando a questão jazz veio à baila foi com ironia e até sarcasmo, com o guitarrista a perguntar, «Hei, wait a minute. Isn’t this a jazz festival?», para logo tocar o “Take 5” que Paul Desmond compôs para o Dave Brubeck Quartet… mas em versão rock. O parceiro de lides de John Zorn e seus associados, Shahzad Ismaily (baixo, guitarra, sintetizador, bateria, voz) e Ches Smith (bateria, sintetizador, voz), apresentaram um concerto de rock, e não se tratava de “fake rock” ou de uma teatralização desse género de música, tendo em conta os respectivos pergaminhos no jazz e na música improvisada, mas rock do mais autêntico e de qualidade que ainda existe. O certo é que vimos lá, aos pulos, alguns dos intervenientes nos Encontros, como João Mortágua e Marcelo dos Reis, e outras figuras da cena jazz nacional, a exemplo da quase totalidade dos elementos dos Slow is Possible.

Antes do “soundcheck”, e acabado de chegar de um voo de 10 horas a partir de Nova Iorque, Ribot estivera a falar diante de uma dúzia de pessoas com o jornalista Rui Miguel Abreu sobre as pesadas questões do “copyright”, com transmissão em directo pela Rádio Universidade de Coimbra. Aos 62 anos de idade, ainda lhe sobrou energia para dirigir uma das mais galopantes investidas de rock a que assistimos, quase sempre com os “riffs” – e o entusiasmo da audiência – no vermelho. Foi uma boa escolha de programação: o jazz devia olhar mais em volta para ganhar maior consciência de si, e a verdade é que o rock, apesar de mais novo, até tem umas lições de “boas práticas” a transmitir.