Angles 8 + Maranha / Mota / Garcia / Ferrandini + Trojnik, 24 de Outubro de 2016

Angles 8 + Maranha / Mota / Garcia / Ferrandini + Trojnik

Tutti frutti

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo e Rui Baião

Com apenas alguns dias de intervalo, três concertos realizados, este mês de Outubro, na já incontornável SMUP confirmaram uma vez mais que há tantas práticas de jazz e da chamada música improvisada quanto as que se podem imaginar. Para todos os gostos (foto acima: Cene Resnik por Rui Baião)…

Quem, entre a audiência habitual da SMUP, não estava familiarizado com as diferentes características que o jazz criativo e a música improvisada podem adoptar, já se terá questionado sobre se práticas tão distintas podem realmente pertencer à mesma família musical. É uma pergunta pertinente, tendo em conta o que dizem os próprios especialistas: que, se a tendência do futuro parece ir no sentido de os estilos se miscigenarem cada vez mais, tal acontecerá com uma enorme distinção de abordagens. Há mesmo quem sustente que as músicas improvisadas que aí vêm variarão entre si a um nível quase individual…

Com poucos dias de intervalo, o espaço da linha de Cascais que se tornou uma referência nacional nesta área da música programou em Outubro três importantes concertos que, além das respectivas relevâncias, representaram no seu conjunto e cada um, muito distintamente, essa diversidade. Começo pelo último, ocorrido no passado dia 18, o dos Angles 8 de Martin Kuchen. Comentava alguém do público: «Não imaginava que hoje ia ouvir música de baile.» Não houve quem o fizesse, pois o palco estava à cunha, com a assistência a um passo dos oito músicos, e tal seria fisicamente impossível. O certo é que as melodias tocadas em uníssono ou contraponto pelos sopros do grupo escandinavo, com todas as suas referências africanas, convidavam a tal. Kuchen conseguiu fazer com que um projecto de jazz “vanguardista”, alicerçado sobre a estética free, tivesse um alcance popular. Pedro Costa, o programador da série Combat Jazz e responsável pela vinda do grupo à Parede, referiu no evento de Facebook da sessão, com humor, que devolveria o dinheiro do bilhete se alguém não gostasse. Ninguém se queixou e ninguém pediu o prometido retorno.

No mesmo plano

Eirik Hegdal e Martin Kuchen 

Mattias Stahl

Torbjorn Zetterberg

Magnus Broo e Mats Aleklint

Foi uma actuação intensa e vibrante, com solos fogosos de todos os intervenientes, fossem os da linha da frente, com o trompetista Magnus Broo e o trombonista Mats Aleklint a deixarem alguns queixos caídos, mas também com o líder, Kuchen, sobretudo no sax tenor, e o barítono Eirik Hegdal a conquistarem os ouvidos presentes, ou os da secção rítmica e harmónica, destacando-se o vibrafonista Mattias Stahl e o contrabaixista Torbjorn Zetterberg. A pequena orquestra sintetizava tudo o que o formato tem de bom: algumas maiores ou menores reminiscências das “brass bands” de New Orleans e das filarmónicas de rua europeias entrelaçavam-se com assumidas influências de Charles Mingus e Sun Ra (ainda que, neste caso, sem o teatro) e com um “folclore imaginário” que colocava no mesmo plano geomusical os hemisférios Norte e Sul do planeta, as florestas cobertas de neve da Suécia natal destes músicos e as da África Ocidental que até nos são familiares, por via de Angola.

Algo a uma distância enorme do que faz Martin Kuchen quando explora a solo os limites dos seus instrumentos, utilizando técnicas extensivas em peças abstractas construídas com texturas de ruído, ou da improvisação camerística que já ouvimos Stahl tocar com Sten Sandell ou Zetterberg desenvolver com Susana Santos Silva em outras apresentações que tiveram lugar no nosso país. Foram poucos, portanto, os paralelismos com o que nos propôs um muito especial quarteto português, e especial porque a sessão na SMUP que juntou a David Maranha, figura da música experimental que por vezes encontramos nestes territórios, os improvisadores Manuel Mota (actualmente a viver fora de Portugal, sendo raras as suas aparições públicas), Margarida Garcia (que aparece em concerto ainda menos) e Gabriel Ferrandini foi a segunda este ano de uma existência fortuita. O que, de resto, se notou com a afluência de público, ciente de que alguma coisa de invulgar ia acontecer no dia 15 de Outubro.  

Pois assim foi. A prestação centrada no trabalho das guitarras (Garcia interveio com a segunda, em vez do contrabaixo eléctrico que utilizava em colaboração com o britânico Eddie Prévost) e da percussão (Maranha tocou o seu órgão Hammond apenas durante uns minutos, detendo-se sobretudo num vistoso “set” de bombos e gongos) esteve entre as coordenadas do minimalismo, do psicadelismo e do ambientalismo, com pouquíssimos materiais a serem repetidos ou levemente contrariados, com máximo efeito hipnótico, ao longo de quase uma hora. Continuava a haver improvisação, continuava a sentir-se alguma presença jazzística, mas o carácter introspectivo e meditativo da música não podia ser mais contraditório com o que fizeram os Angles 8.

Um coiote na pradaria

David Maranha 

Margarida Garcia

Tomaz Grom

Vid Drasler

Curiosamente, se as “estrelas” maiores em presença eram Maranha e Mota, foi das mãos de Garcia e Ferrandini que partiu o melhor que se ouviu nesta noite, com ela a soltar gemidos da guitarra por meio de um “ebow”, mais parecendo os distantes uivos de um coiote numa pradaria, e com ele a estabelecer um jogo de dinâmicas a baixo volume, igual a si mesmo na abordagem irrequieta, mas com o implacável sentido de foco de que recentemente vem dando mostras. Nenhumas equivalências os quatro trouxeram relativamente à prestação, a 13, do trio esloveno Trojnik, ainda que fossem de esperar pelo facto de o saxofonista deste, Cene Resnik, aplicar técnicas da meditação transcendental budista ao seu “playing”. A base podia ser mais uma vez free, mas a florescência fez-se igualmente segundo posições imprevisíveis – e imprevisíveis para nós, inclusive, pelo facto de pouco conhecermos da cena de Ljubljana. De resto, Resnik tem um som de tenor muito pessoal e impossível de comparar com quem quer que seja do lado ocidental do mundo. Numa altura em que todo o jovem soprador procura soar como Peter Brotzmann ou como Mats Gustafsson, é bom ouvir alguém com um ataque assim tão forte que não suscita essas conotações.

A electrónica ocasionalmente introduzida pelo contrabaixista Tomaz Grom dava uma dimensão paisagística ao jazz do século XXI deste grupo completado pelo baterista Vid Drasler, personagem que, ironicamente, parecia vir do rock progressivo da década de 1970, e tanto pelo seu corte de cabelo como, às vezes, pela forma de tocar. Jazz e paisagismo sonoro não costumam andar aos pares, pelo que a perspectiva foi refrescante. Mas claro que a atenção às atmosferas se fez, tal como com a trupe reunida por David Maranha, com intuitos imersivos. Não propriamente trazendo o fundo, a paisagem, para o primeiro plano, ou recuando este, o jazz, para a distância, mas entendendo o todo sonoro como um panorama, com o ouvinte a abarcar por igual todo o horizonte em volta. Nesse aspecto, os Trojnik terão até conseguido chegar mais a esse nível do que os portugueses, se bem que estes lhes ganhassem pelo lado da beleza das situações. Nisso podemos compará-los, no resto não, e é óptimo que assim seja…