Portalegre JazzFest, 23 de Março de 2016

Portalegre JazzFest

Fizeram mal, portalegrenses

texto Gonçalo Falcão fotografia João Belém

Sala pela metade para a segunda parte do festival de jazz de Portalegre, apesar de ali se ter apresentado no fim-de-semana de 18 e 19 de Março um grupo com os pergaminhos do Eric Revis Trio. Foi um grande concerto, assim como os que se lhe seguiram, com Slow is Possible e Chrome Hill. A gente da cidade não gosta de música?

Fizeram mal, portalegrenses, fizeram muito mal. Num distrito com cerca de 111 mil habitantes, perto de Espanha e de outras cidades do Alto Alentejo, com universidade, com uma oferta cultural limitada, parece inacreditável que o Centro de Artes do Espectáculo não encha para ouvir um grupo americano de jazz do mais alto nível, em apresentação na derradeira noite do Portalegre JazzFest. As férias da Páscoa e a chuva não podem ser desculpas para perceber as ausências, pois no resto do País também chove, e há muito trânsito, e a vida é complicada...

E se podemos alegar que Lisboa tem muita gente, também é preciso referir que a oferta na capital é incomparavelmente superior e que no mesmo dia há vários concertos e acontecimentos interessantes: com a mesma formação, o Eric Revis Trio, a Culturgest esgotou e a plateia da SMUP estava cheia numa quarta-feira à noite, mas em Portalegre o excelente auditório estava indecorosamente vazio. O bilhete custa 8 euros e dá direito ao concerto, a um disco da Clean Feed e a vinhos e petiscos no final. Mesmo assim, só meia plateia trocou o nada pela hipótese de ouvir um trio de excelência do jazz americano. 

Quase como num filme

 

Não o sabíamos ainda, nem os portalegrenses poderiam adivinhar, mas o grupo iria fazer um excelente concerto. Descobri o contrabaixista Eric Revis e a pianista Kris Davis através da editora portuguesa. A mais recente gravação do trio de Revis assinalou o seu 15º aniversário. Revis tem uma identidade musical particular: as suas composições, longas, têm várias músicas dentro que se vão sucedendo e construindo uma experiência auditiva de grande interesse. Música com uma estrutura e um modo de funcionamento complexos que se vai pormenorizando com imensa simplicidade. E quando dizemos músicas não nos referimos apenas a temas, a frases musicais, mas também a diversos estilos. Quase como num filme em que diferentes histórias se fossem interligando com surpresa, usando diferentes linguagens cinematográficas: europeia, americana, cor, preto-e-branco, etc.

A música foi tocada com uma elegância extrema que evoca a fineza do Modern Jazz Quartet e a melancolia de Bill Evans. Invertendo expectativas. Não raras vezes foram o piano e o contrabaixo a tocar unidades repetitivas e a bateria a flutuar por cima, ultraleve, com enorme bom gosto. Quem é este John Betsch (que veio substituir Andrew Cyrille e Gerard Cleaver, os anteriores bateristas do trio), que só tem um disco como líder nos anos 1970, e toca tão bem? Bom, foi o baterista de um dos maiorais do jazz, Steve Lacy, durante 17 anos. Um grande concerto que merecia uma sala cheia. Fizeram mal, portalegrenses, fizeram muito mal.

Lembrámo-nos da década de 1990 no Guimarães Jazz, com salas igualmente arejadas e concertos de enorme qualidade. Hoje esgota com muita regularidade um grande auditório, pelo que nos fica a esperança de que o festival de Portalegre possa fazer um percurso semelhante, atraindo públicos circundantes e longínquos, e que daqui a uns anos nos reencontremos com as lotações esgotadas e a cidade eivada pelo jazz. 

O jazz que lhes apetece

 

Subimos depois para a segunda parte com os portugueses Slow Is Possible. O grupo vem da Beira Interior e surgiu no Verão de 2014, com a formação actual a consolidar-se em 2015. O septeto de guitarra eléctrica, violoncelo, bateria, contrabaixo, piano, clarinete e saxofone é uma novidade muito interessante no jazz nacional. Surge da escola de música da Covilhã, livre dos pré-conceitos das escolas jazzísticas mais fundamentalistas que, com tudo o que têm de positivo, trouxeram também algum lastro espartilhante. Os Slow Is Possible ouvem o jazz que lhes apetece e tocam como gostam.

Não faço ideia nem interessa se os músicos conhecem muitos ou poucos temas, mas sei que com o que têm conseguem fazer muito. Desta liberdade – uma característica positiva que tão bons resultados tem dado no Norte da Europa – surge uma música que, não sendo autodidacta, também não nasce cansada de tanto repetir frases batidas e couraçada em legislação sobre o que é jazz, meio-jazz ou um quarto de jazz. Tecnicamente muito bem apetrechados e a tocar excelentemente estiveram a guitarra de João Clemente, o piano de Nuno Santos Dias e o violoncelo de André Pontífice. Em igual bom plano seguiu o sax alto de Bruno Figueira, que tem muito Zorn como referência mas que não se limita a entrar acriticamente pelas portas abertas pelo saxofonista nova-iorquino. O contrabaixo de Ricardo Sousa é seguríssimo e inteligente, o clarinete de Patrick Ferreira, somando-se ao sax, faz uma linha de sopros frontal com uma sonoridade invulgar, e a bateria divertida de Duarte Fonseca estabelece uma ligação forte com quem está a assistir.

Este factor – a ligação e a alegria de tocar que passam a quem assiste – é um elemento muito pouco trabalhado no jazz português. Esse elemento, tal como no ano passado aconteceu com Ricardo Toscano Quarteto – é bem tratado pelos Slow Is Possible. O grupo acabou de editar o seu primeiro disco e é daqueles que vai valer a pena seguir, esperando-se que os imponderáveis da vida não os separem. È mais uma prova do grande ouvido e da atenção de Pedro Costa, que o ano passado revelou o quarteto de Toscano (um ano depois este viria a ser nacionalmente reconhecido como uma das grandes revelações do jazz nacional). Um programador que não vai em pacotes pré-fabricados e nos surpreende anualmente com escolhas inusitadas e de grande qualidade. 

Texas, México e “surf guitar”

 

O fecho do festival deu-se com os Chrome Hill, um quarteto norueguês que mais uma vez foi uma revelação total. Esta é a nova encarnação da banda que começou por se chamar Damp e juntava quatro músicos da Norwegian Academy of Music de Oslo: Asbjørn Lerheim na guitarra, Torstein Lofthus na bateria, Jørgen Munkeby no saxofone e Roger Arntzen no contrabaixo. Os Damp deram lugar aos Chrome Hill e a Munkeby, dedicado aos seus Shining, sucedeu Atl Nymo como o novo responsável pelo sax.

O som é profundamente marcado pela guitarra barítono de Asbjorn Lerheim, que usa o som do que ficou conhecido como “surf guitar” (The Surfaris, Dick Dale, The Mermen, Eddie & The Showmen, The Ventures), com guitarras Fender, muito “reverb” e muito tremolo. O Sol da Califórnia tratado pelo frio nórdico acaba por atenuar a luminosidade original e incorporar alguma aridez e pó típico do rock texano-mexicano e a música do grupo faz esse cruzamento entre o Ry Cooder de “Paris/Texas” e o Dick Dale de Misrlou. A secção rítmica é poderosíssima, com Lofthus, dos Elephant 9, e Arntzen a construírem uma base densa, grave e poeirenta que já conseguimos identificar como a assinatura de algum jazz norueguês. Nymo tocou maravilhosamente e, depois de ouvirmos o primeiro disco, ainda com Munkeby, ficámos convencidos com a vantagem da troca de saxofonistas, pois o som negro e rockeiro dá lugar a uma sonoridade igualmente forte e intensa, mas muito mais luminosa e melódica.

O concerto começou muito bem e encantou pela originalidade do combo e o excelente som de palco, bem alto e nítido. Este prazer inicial desvaneceu-se pelo meio, pois a fortíssima personalidade da banda dificultava a percepção das diferenças entre cada tema. Esta questão de alinhamento foi bem resolvida na parte final da actuação, já com estruturas muito distintas. Foi uma óptima maneira de fechar este festival que tem uma oferta musical de enorme interesse e um ambiente particular, necessitando apenas de saber atrair mais público. Na primeira semana do evento tocaram o Red Trio em substituição da dupla Mari Kvien Brunvoll / Stein Urheim, o Carlos Martins Quarteto e o trio de Pedro Sousa, Miguel Mira e Afonso Simões.