Angrajazz, 20 de Junho de 2017

Angrajazz

Bons argumentos

texto Nuno Catarino

A velha e a nova guardas do jazz vão encontrar-se nos Açores em Outubro próximo. De Charles Tolliver (foto acima) a Jon Irabagon, com Matt Wilson e o portuense Ensemble Super Moderne pelo meio, o festival de Angra do Heroísmo tem bons argumentos para a sua 19ª edição.

Neste ano de 2017, o Angrajazz, festival internacional de jazz de Angra de Heroísmo, chega à sua 19ª edição. O evento vai realizar-se entre os dias 4 e 7 de Outubro e apresenta um total de sete concertos. Como habitualmente, terá lugar no Centro Cultural e de Congressos e apresenta um programa que alterna entre grandes nomes internacionais com projectos portugueses de mérito reconhecido.

O festival arranca no dia 4 de Outubro, quarta-feira, com a já habitual participação da Orquestra Angrajazz (21h30). Este projecto formativo com direcção de Pedro Moreira e Claus Nymark surgiu em 2002 e vem mostrando a sua qualidade de ano para ano. Actualmente, já não se trata de uma simples “big band” eficiente que interpreta “standards” sem mácula; a orquestra vem trabalhando uma música cada vez focada e, na edição do ano passado, apresentou uma sólida interpretação da peça “Far East Suite” de Duke Ellington. A OA conta todos os anos com a participação de convidados especiais e, desde a sua génese, já actuou com nomes consagrados da cena jazz portuguesa, como Paula Oliveira, Mário Laginha, Zé Eduardo e, mais recentemente, Ricardo Toscano. O primeiro dia de festival fecha com o duo Baptiste Trotignon & Minimo Garay (23h30). O pianista francês Trotignon e o argentino Garay (percussão) prometem um jazz de travo sul-americano, conforme revela o aplaudido disco “Chimichurri” (edição Okeh, 2016).

Ao segundo dia de concertos, 5, toca o Charles Tolliver Tentet. O grupo do trompetista americano vai apresentar ao vivo uma celebração da música de Thelonious Monk – o lendário pianista que a 10 de Outubro de 2017 celebraria o seu centésimo aniversário. Como figura de destaque no grupo, além do líder trompetista, está o histórico pianista Stanley Cowell, velho colaborador de Tolliver (desde o seu segundo disco como líder, “The Ringer”, de 1969!). O ensemble, rico em saxofones e com um forte naipe de metais, completa-se com Stephen Gladeney (sax tenor), Todd Bashore (sax alto), Patience Higgins (sax barítono), Josh Evans (trompete), Stafford Hunter (trombone), Aaron Johnson (tuba), Devin Starks (contrabaixo) e Darrell Green (bateria).

Tolliver tocou e gravou com lendas como Andrew Hill, Jackie McLean, Oliver Nelson ou Max Roach e, desde o seu disco de estreia (o excelente “Paper Man”, de 1968), que se vem afirmando como trompetista de excepção, sempre atento à modernidade. Nesta fase tardia da carreira regressa ao passado para homenagear Monk e dar vida nova à sua música, ao leme de um grupo versátil. Não se trata de um aproveitamento: a verdade é que Tolliver sempre revelou empatia com a música de Monk – o disco “Live in Tokyo”, de 1974, inclui uma belíssima revisão de “’Round Midnight” (arranque lento e terno, desenvolvimento vertiginoso).

Matt Wilson

Yilian Cañizares

Jon Irabagon

Na sexta-feira, dia 6, o festival segue com a actuação do Ensemble Super Moderne (21h30). Se a Associação Porta-Jazz tem sido responsável pela revelação de alguns dos projectos mais originais e criativos do jazz português dos últimos anos (Coreto, João Guimarães “Zero”, Susana Santos Silva “Impermanence”, etc.), este é um dos grupos mais emblemáticos da cena nortenha. O Ensemble vai levar ao palco do Centro Cultural e de Congressos os músicos José Pedro Coelho (saxofones tenor e soprano), José Soares (sax alto), Rui Teixeira (sax barítono e clarinete baixo), Paulo Perfeito (trombone), Luís Eurico Costa, (guitarra), Carlos Azevedo (piano), Miguel Ângelo (contrabaixo) e Mário Costa (bateria). Do cruzamento entre as sólidas formas da composição e as ideias frescas da improvisação resulta uma música originalíssima, que nunca se deixa prever.

Este penúltimo dia de festival termina com a actuação do Matt Wilson Quartet (23h30). O baterista Matt Wilson apresenta em Angra do Heroísmo um combo que inclui Jeff Lederer (saxofone tenor e clarinete), Kirk Knuffke (corneta) e Chris Lightcap (contrabaixo). Reunindo quatro nomes grandes do jazz contemporâneo, o grupo promete apresentar uma música viva e dinâmica. Com um percurso de 16 anos, o quarteto gravou em 2013 o disco “Gathering Call” com o convidado John Medeski.

O fecho do Angrajazz arranca com a prestação do Yilian Cañizares Quintet (21h30). O grupo reúne Cañizares (violino e voz), Daniel Stawinski (piano), David Brito (contrabaixo), Cyril Regamey (bateria e percussão) e Inor Sotolongo (percussão). Violinista e cantora cubano-suíça, Yilian Cañizares apresenta uma música original que combina matrizes do jazz, da clássica e da música cubana. Em Junho passado, participou no festival Soy Loco por Ti, America, em Lisboa.

Segue-se o Jon Irabagon Quartet, às 23h30. Saxofonista do quarteto Mostly Other People Do The Killing, Irabagon gravou “Absolut Zero” com os portugueses Gabriel Ferrandini (bateria) e Hernâni Faustino (contrabaixo). Será tocada ao vivo a música registada em “Behind the Sky” – disco que conta com o convidado Tom Harrell, ausente neste concerto, mas que já passou pelo Angrajazz no ano de 2008. O quarteto integra Luis Perdomo (piano), Yasushi Nakamura (contrabaixo) e Rudy Royston (bateria), fomentando um jazz incendiário e absolutamente vivo.

Fora do programa oficial, o Angrajazz promove ainda nove concertos de entrada livre. Participam no “Jazz na Rua” dois grupos locais (Wave Jazz Ensemble e Sara Miguel Quarteto) e o projecto Mano a Mano (duo dos irmãos guitarristas Bruno Santos e André Santos). Os concertos realizam-se entre os dias 29 de Setembro e 7 de Outubro e terão lugar em diferentes espaços de Angra do Heroísmo: Verde Maçã, Hotel do Caracol, Cais de Angra, Biblioteca Luís Silveira Ribeiro e Casa do Sal.