Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, 5 de Outubro de 2016

Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra

Entre o Convento e o Salão

texto Rui Eduardo Paes

Gary Burton (foto acima) e Marc Ribot vão passar este mês por Coimbra, para mais uma edição, a 14ª, do festival de jazz desta cidade. O programa está recheado de nomes grandes, a actuarem entre um antigo convento e um antigo salão de bilhares. A música que acontecer conduzir-nos-á entre o pecado e a absolvição, tal como convém.

Costumava acontecer entre finais de Maio e inícios de Junho, mas uma avaliação da melhor altura do ano para o realizar e uma reformulação da sua linha programática levaram a que os Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra passassem para o presente mês de Outubro. O festival que também é conhecido como Jazz ao Centro decorrerá de 19 a 22 entre o Convento de S. Francisco e o Salão Brazil, tendo como cabeças-de-cartaz Gary Burton e Marc Ribot, mas também figuras de topo como John Butcher, Agustí Fernández, RogerTurner, Maria João, Eve Risser e Mette Henriette. A interacção entre os dois espaços não podia ser mais feliz, sabendo-se da influência cruzada que a religião e os clubes nocturnos tiveram no nascimento e na evolução do jazz.

A abertura, na quarta-feira dia 19, faz-se com o vencedor do Prémio de Composição Bernardo Sassetti, uma iniciativa da Associação Sons da Lusofonia e do projecto Portugal em Jazz. O jovem pianista e compositor Vasco Miranda estará à frente do Ensemble Portugal em Jazz, um septeto constituído por André Murraças (saxofone tenor), Jéssica Pina (trompete), André Pimenta (trombone), João Nuno Bernardo (piano), Mauro Ribeiro (guitarra eléctrica), Hugo Correia (contrabaixo e baixo eléctrico) e Alex Rodriguez (bateria), com o saxofonista João Mortágua como solista. Neste concerto marcado para as 22h00 no Salão Brazil será assinalado o lançamento do disco com a obra premiada, um feliz exemplo do novo jazz de qualidade que hoje se faz em Portugal, fiel à tradição mas com ideias frescas.

No dia seguinte, são três as actuações agendadas. A da tarde (19h00), na igreja do Convento de S. Francisco, resulta de uma “carta-branca” dada a Hugo Antunes. O contrabaixista do Barreiro que viveu alguns anos em Bruxelas, daí iniciando colaborações com figuras como Paul Lovens, Nate Wooley e Chris Corsano, convidou outros três nomes grandes da livre-improvisação para tocarem consigo, designadamente os britânicos John Butcher (saxofones tenor e soprano) e Roger Turner (bateria, um histórico da cena de Londres) e o espanhol Agustí Fernández (piano). O quarteto estará em residência artística em Coimbra, durante a qual será gravado um disco para futura edição pela JACC Records.

Ainda no Convento, mas no auditório, segue-se às 22h00 uma apresentação do Quinteto Sandro Norton com duas figuras de primeiro plano, o vibrafonista norte-americano Gary Burton e a cantora Maria João. O grupo do guitarrista português é uma cuidada selecção dos melhores músicos em actividade, com os veteranos Carlos Barretto (contrabaixo) e Mário Barreiros (bateria) mais o violino, a harmónica e o acordeão de Luís Trigo e o piano de João Salcedo. O alinhamento incluirá temas de “Flying High… At the Heart of It” e composições de Burton.

Às 23h30 deste mesmo dia 20 o festival muda-se para o Salão Brazil, com um duo em estreia absoluta de improvisadores que têm por hábito preparar os seus respectivos instrumentos, designadamente a pianista francesa Eve Risser e o guitarrista conimbricense Marcelo dos Reis. Ela é a líder da White Desert Orchestra, que esteve este ano no Jazz em Agosto, sendo igualmente conhecida pelo seu inovador trabalho a solo e pelo trio En Corps. Ele está envolvido em formações como Fail Better!, Open Field String Trio (que tem um álbum gravado com um pioneiro do avant-jazz, Burton Greene), Chamber 4 (com o violinista Théo Ceccaldi), Pedra Contida, The Nap e duo com a harpista Angélica V. Salvi. O que deste encontro resultar terá também edição pela JACC Records.

Contrastes

Hugo Antunes por Hélio Gomes

Aguastí Fernández por Ricardo Cugat

Eve Risser

Marcelo dos Reis por Rossana dos Reis

Orquestra Nomade por Pedro ladeira

Marc Ribot

A 21 de Outubro volta-se ao final da tarde à igreja de S. Francisco, para ouvir o Mette Henriette Trio. Actual aposta forte da editora ECM, a saxofonista tenor de etnia Sami (Lapónia) representa um novo passo do jazz norueguês, com uma música contemplativa e intimista que tem tanto de belo quanto de misterioso. Vem no formato-base do seu CD de apresentação, um trio com Johan Lindvall ao piano e Katrine Schiott no violoncelo. À noite (22h30), a geografia cultural de referência é totalmente outra, com a “big band” brasileira Orquestra Nomade a prometer animar quem for ao Salão Brazil, numa mistura dançável de jazz, funk e soul moldada nas discografias dos anos 1970 da Strata East e da Impulse. Integram este colectivo os saxofonistas / flautistas Beto Malfatti, André Caslixto e Bio Bonato, o trompetista Marco Stoppa, o trombonista Victo Fão, o teclista Marcos Mauricio, o guitarrista Luiz Eduardo Galvão, o baixista Ruy Rascassi, o baterista Guilherme Nakata e o percussionista Fabio Prior. Acompanha-os um VJ, Danilo Oliveira.

O fecho faz-se no sábado 22 novamente no Salão Brazil, pela noite, com os Ceramic Dog de Marc Ribot, o colaborador de John Zorn que já o foi de Tom Waits. Trata-se de um grupo assumidamente de rock com muito espaço para a improvisação, tocado por músicos com larga experiência nos territórios do jazz – tanto assim que, pelo meio do “gig”, poderá até surgir algum tema de Thelonious Monk. O trio é integrado pelo baixista (também manipulador de sintetizadores, segundo guitarrista e percussionista) Shahzad Ismaily, nome que os admiradores de Ben Frost ou Josephine Foster poderão reconhecer, e pelo baterista (também dobrando nas electrónicas) Ches Smith, membro de duas bandas de topo da cena “indie”, Xiu Xiu e Secret Chiefs 3, e de uma grande quantidade de combos do jazz nova-iorquino. Será aconselhável o uso de “earplugs”, pois estes rapazes tocam com decibéis de punk e metal.

Mais acontecerá nestes Encontros de Coimbra. Nos sábados 8 e 15 de Outubro algumas arruadas terão lugar pelas freguesias da cidade, assim como uma acção marcada para o Centro Cultural D. Dinis no dia 19, pelas 19h00. O Convento de S. Francisco albergará a oficina / espectáculo educativo O Jazz é Fixe durante os dias 18 e 19. Neste último dia terão lugar ainda no auditório do convento um “workshop” conduzido por Sandro Norton e uma “masterclass” sobre improvisação de Gary Burton. O evento é uma co-produção do Jazz ao Centro Clube com a Câmara Municipal de Coimbra.