Guimarães Jazz, 3 de Outubro de 2016

Guimarães Jazz

Ir é preciso

texto Gonçalo Falcão

No ano em que comemora o seu 25º aniversário, o festival da cidade-berço oferece uma programação aliciante que começa com uma “big band” e termina com outra, e não menos do que a nossa LUME e a de todos Liberation Music Orchestra (foto acima). Pelo meio, vem o saxofonista que gravou com David Bowie o disco de despedida do cantor, Donny McCaslin, bem como os muito grandes Rudresh Mahanthappa e Ambrose Akinmusire.

É bom saber que algumas coisas boas permanecem e por isso foi com alegria que recebemos a notícia da edição deste ano do Guimarães Jazz. Em Novembro sobem ao palco do Centro Cultural Vila Flor, pela 25ª vez, alguns dos músicos mais interessantes do momento. Surge a necessidade de programar fins-de-semana especiais, numa das cidades mais acolhedoras do País. Neste sentido, a jazz.pt assume as suas responsabilidades e faz uma antevisão do que poderão ouvir. O que garantimos, através de experiência feita, é que estes dias vimaranenses fazem mais pela alma que muito livro sagrado.

A edição deste ano diz ter «um programa com os olhos no futuro e empenhado sobretudo no desvendar de horizontes profícuos para o jazz contemporâneo». Ficamos com a ideia de um jazz com grande potencial para bons resultados nos dias de amanhã: ao completar um quarto de século, o Guimarães Jazz parece ter procurado programar uma série de nomes emergentes que farão o futuro do jazz, ou de um certo jazz. O que não lhe podemos negar é o facto de serem hoje uma referência incontornável do jazz em Portugal, conquistando com a solidez do trabalho já realizado o respeito e a confiança nas suas afirmações. Olhando para o programa vemos que não se dedica à autocelebração, relembrando feitos e nomes, preferindo olhar para diante.

Vanguardista-tradicionalista

LUME por Carlos Lima 

Rudresh Mahanthappa

Jamie Baum

A inauguração é feita com uma “big band”, formato que tradicionalmente fecha o festival. Toca o LUME (Lisbon Undergroun Music Ensemble), liderado por Marco Barroso e que é um dos grupos mais interessantes da actualidade. O novo disco acabado de lançar pela Clean Feed, “Xabregas 10”, é excelente e estamos todos curiosos por saber que novidades o LUME trará a Guimarães. Até porque aos seus 15 elementos se juntarão a Banda da Sociedade Musical de Pevidém e o Coro BJazz  da Escola de Jazz do Convívio. “Xabregas 10” foi gravado em 2014 no encerramento do Jazz em Agosto, um festival que tem sido mal classificado como vanguardista. O grupo abre agora o Guimarães Jazz, um festival que tem sido mal classificado como tradicionalista. Temos assim a prova de que é altura de acabar de vez com estas ideias feitas. Um concerto único, a 5 de Novembro, que prefacia a história que se escreverá nas duas semanas seguintes.

Uma semana depois da celebração inaugural, a 10 de Novembro, quinta-feira, o festival recomeça com o octeto SFJAZZ Collective de São Francisco. O colectivo americano agrupa músicos reconhecidos como solistas, a exemplo dos saxofonistas Miguel Zenón e David Sánchez e do trombonista Robin Eubanks. O repertório do grupo é composto em partes iguais por material próprio e por temas de grandes nomes do jazz. Renova-se anualmente com oito temas novos e oito de históricos. No passado foram tocados Ornette Coleman, John Coltrane, Herbie Hancock, Thelonious Monk, Wayne Shorter, McCoy Tyner, Horace Silver, Stevie Wonder e Chick Corea. Este ano o homenageado é Miles Davis e é a sua música que vai ser tocada em Guimarães.

Sexta-feira ouviremos o Matt Wilson Quartet, um grupo do baterista que toca desde 1996 e de quem conhecemos os excelentes discos na Palmetto. Será uma hipótese para ouvir este projecto que não é frequente passar pela Europa. O quarteto é formado por ChrisLightcap, um contrabaixista com uma discografia sólida na portuguesa Clean Feed, Jeff Lederer no sax e KirkKnuffke no trompete. Wilson é um baterista original que usa o humor e uma certa leveza musical para passar música de elevado nível técnico, com composições acessíveis e fáceis de gostar.

No sábado dia 12 teremos dose dupla. À tarde, uma actuação que faz lembrar os primeiros tempos do Guimarães Jazz, altura em que surgiam alguns concertos inusitados. Os Quatro a Zero são um grupo brasileiro - um quarteto - que pega no choro (a elegante música carioca do século XIX) e a rearranja. Revivido em guitarra e baixo eléctricos, piano e bateria, a música mantém a elegância e o deslizar do choro original, mas abre espaço para a improvisação. Sabemos que a junção do jazz com as músicas populares é um terreno escorregadio e muito propício a asneiras, mas a audição que fizemos dos Quatro a Zero revela uma enorme gentileza musical e um som suave.

À noite, o ponto alto desta primeira semana: Rudresh Mahanthappa Bird Calls. Também aqui se trata de uma revisitação do passado, neste caso da música de Charlie Parker: “The Bird”. A junção parece óbvia, pois Mahanthappa toca alto como Parker e é fluente nas subidas e descidas hiperactivas. Sentimos a presença do ADN do bop de Parker, mas ouvimos uma música actual e original, igualmente rápida e igualmente intensa. Em “Bird Calls” a mistura indiana não toca temas de Charlie Parker: usa as suas ideias harmónicas, melódicas e rítmicas para construir música original e nova. O saxofonista vem em quinteto com Adam O'Farrill no trompete, Matt Mitchell no piano, François Moutin no contrabaixo e Rudy Royston na bateria.

No domingo, uma espécie de mecenato cultural a duas instituições do jazz nacional. O primeiro, à tarde, é mais uma “big band”, desta feita a da ESMAE, aditivada com o Ensemble de Cordas da mesma escola. A ligação da ESMAE ao Guimarães Jazz é longa e tem sido frutuosa. Estes concertos resultam habitualmente de residências de músicos que vêm tocar ao festival – no caso será Jamie Baum – e constituem uma boa ideia, pois para além da música tocada deixam uma marca na ambição de muitos músicos jovens que estudam na ESMAE. O segundo, à noite, é o projecto Guimarães Jazz / Porta-Jazz, este ano protagonizado por João Mortágua. A Porta-Jazz é uma associação de músicos do Porto que recusam ficar parados à espera que os chamem para tocar, organizando-se em festivais, concertos e edições e ajudando-se mutuamente.

Élan Bowie

Donny McCaslin 

Ambrose Akinmusire

Adam Baldych

A segunda semana começa na quarta-feira 16, com o The Jamie Baum American-Polish Septet. A flautista americana Jamie Baum tem uma carreira com algum significado. Será ela a responsável pelas “jam sessions” deste ano. Todos os concertos precedem uma noite de descontracção e conversa com música ao vivo tocada por jovens músicos da ESMAE e pelo grupo residente, que este ano é um septeto com jovens músicos americanos e polacos.

Na quinta dia 17 toca o Ambrose Akinmusire Quartet, outro dos grandes nomes da edição deste ano. A editora Blue Note é uma máquina poderosa no fabrico de estrelas e Ambrose é um Blue Note Artist. O seu trompete introspectivo desenrola lenta e ponderadamente os temas e tem uma forma de tocar intensa, mas ao mesmo tempo contida. Criar uma voz distinta no trompete no jazz não é fácil, mas Akinmusire consegue-o e a sua forma de tocar tem elementos particulares que justificam a sua notoriedade. Esta vinda a Guimarães dá-nos a possibilidade de o ouvir ao vivo e de perceber melhor a sua música e o motivo por que é apontado como uma futura referência.

Sexta dia 18 toca Donny McCaslin, aproveitando o élan de este ter participado no último disco de David Bowie com alguns dos músicos que integram o seu grupo. O seu mais recente disco, “Beyond Now”, é uma aposta pop, estruturada sobre sintetizadores e voz “adavidbowiezada”. O defunto ecoa por toda a sua mais recente música «inspirada e dedicada a David Bowie». O concerto de Guimarães será uma boa oportunidade para fazer uma prova dos nove ao saxofonista, que chega em quarteto, num formato apropriado para ouvirmos a sua música sem rede.

No sábado dia 19, o violinista Adam Bałdych junta-se a um trio da ACT formado por Helge Lien (piano), Frode Berg (contrabaixo) e Per Oddvar Johansen (percussão). É uma boa oportunidade para ouvir o violino no jazz, um instrumento que já foi muito recorrente, mas que actualmente aparece pouco. O polaco Baldych tem uma técnica excepcional e uma linguagem distinta das referências mais habituais (Grappelli, Ponty, Feldman ou Stuff Smith). A sua música inclui alguma fragância da música tradicional polaca, a das mazurkas e polonaises, mas contrariada pela sofisticação dos ambientes jazzísticos noruegueses do trio de Helge Lien. Tal como no projecto brasileiro da primeira semana, o interesse desta fusão fica por verificar ao vivo. Em disco soa bem

A 25ª edição do Guimarães Jazz termina, como habitualmente, com uma “big band”. E se as orquestras de Duke e de Basie são formações incontornáveis, a Charlie Haden’s Liberation Music Orchestra é parte deste contínuo. Haden morreu em 2014 e a direcção da Liberation foi herdada por Carla Bley. A música enquanto revolução foi sempre uma preocupação de Haden (em 1971, quando integrava o quarteto de Ornette Coleman, Haden tocou “Song For Che” no Cascais Jazz e dedicou a música aos movimentos de libertação das colónias, tendo sido preso e interrogado pela PIDE e liberto depois de Ornette ter pressionado a embaixada americana), tendo a Liberation nascido dentro deste espírito. A orquestra formou-se em 1969 com Carla nos arranjos, explorando a execução de canções revolucionárias do mundo inteiro (incluindo “Grândola Vila Morena”, que saiu no segundo LP, “Ballad Of The Fallen”) em formato free jazz. Alguns dos membros actuais da Liberation Music Orchestra (Miguel Zénon, Matt Wilson) virão a Guimarães com as suas bandas, e por isso esta reunião final é um fecho lógico do evento.

Somados, são 12 concertos em duas semanas (mais a inauguração) de grande música. É também a cidade que, a par de Évora, é uma das mais interessantes e acolhedoras de Portugal. Ir é preciso.