Imaxinasons, 6 de Junho de 2016

Imaxinasons

O Caminho de Vigo

texto Rui Eduardo Paes

Com início mais tarde do que é habitual, a 1 de Julho, e com uma nova curadoria, a da baterista e compositora Lucía Martínez, o festival de jazz galego mais próximo de Portugal acaba de anunciar o seu programa. A Orquestra Jazz de Matosinhos e o Pedro Neves Trio estão incluídos, na linha de inclusão de formações portuguesas que caracteriza o evento. O Caminho de Santiago do jazz faz-se durante nove dias em Vigo.

O mais português (porque tem lugar em Vigo, bem perto da fronteira Norte de Portugal, e porque habitualmente inclui grupos do lado de cá) dos festivais espanhóis tem já anunciado o cartaz da sua 12ª edição. Com nova direcção artística da baterista e percussionista Lucía Martínez, viguense actualmente a residir em Berlim e que durante uns anos – os dos seus estudos na ESMAE - habitou no Porto, a edição de 2016 do Imaxinasons vai decorrer entre 1 e 9 de Julho e tem como focos de especial interesse as actuações de Hermeto Pascoal (foto acima), Orquestra Jazz de Matosinhos, Frank Gratkowski e Aki Takase.

É precisamente o grupo do multi-instrumentista brasileiro que abre o evento, dia  1, sendo este o primeiro concerto de uma digressão pela Europa de Pascoal, no ano em que comemora 80 de vida. Apesar da idade, o músico está em forma e continua a deslumbrar as audiências com o seu “som da aura”, ou seja, «a vibração sonora das almas» de quem toca, canta ou simplesmente fala, ligando mente e corpo. O concerto terá lugar no Auditório Municipal e está a gerar grandes expectativas.

A 2, no mesmo local, vez para a pianista e compositora alemã Julia Hulsmann, na esteira do sucesso obtido pelo seu mais recente disco na ECM em quarteto, “A Clear Midnight”, baseado em temas de Kurt Weill escritos no período em que este esteve exilado nos Estados Unidos e com o cantor Theo Bleckmann como principal solista.

No dia 3, também no edifício da autarquia de Vigo, será a vez dos Masaa com Rabih Lahoud na voz. O grupo da Alemanha formado pelo trompetista Marcus Rust com Clemens Potzsch ao piano e Demian Kappenstein na bateria tem como particularidade fazer a ponte entre um jazz de abordagem camerística com as músicas tradicionais do Médio Oriente. Dada a ascendência árabe de Lahoud, a relevância dessas expressões musicais na mistura ainda é mais sublinhada pela intervenção do co-líder, com Markus Stockhausen, da banda Eternal Voyage, conhecido por improvisar a própria poesia que canta.

Imaginativo, contemporâneo, irreverente

Julia Hulsmann 

Masaa

Frank Gratkowski

Front Ton

No dia 4, já no Marco, apresenta-se a solo Roberto Oliveira, percussionista galego, de Vigo, activo nas áreas da música erudita contemporânea e da nova música, especializado na interpretação de obras abertas com processamento electrónico. No mesmo palco, o dia 5 pertence ao alemão Frank Gratkowski, também a sós com os seus saxofone alto, clarinete baixo e um sistema multicanal de “live electronics”, num projecto intitulado “Artikulationen”. Trata-se de um dos mais importantes palhetistas da actualidade na Europa, com uma longa discografia que engloba uma recente edição pela portuguesa Creative Sources, “Sieben Entruckte Lieder”.

A 6, ainda no Marco, teremos o trio cubano-polaco-espanhol Front Ton, reunindo os gira-discos de Pelayo F. Arrizabalaga, os saxofones e clarinetes de Yosvany Quintero e a percussão de Dominik Dolega num jazz imaginativo, contemporâneo e irreverente. Chegam com o mote “Alternating Flows” e a indicação de que tudo será integralmente improvisado.

No dia 7 volta-se para o Auditório Municipal com o Cinematojazzia de Nani García, o programador do Imaxinasons até 2015. Leva o seu trio de piano, contrabaixo e bateria com Simon García e Miguel Cabana, acompanhado por um quarteto de cordas com membros do Quinteto Cimarron. Pioneiro do jazz galego com o grupo Clunia, cujos concertos nos anos 1980 chegaram a ter a nossa Maria João como convidada, Nani García é igualmente um renomado compositor de bandas sonoras para cinema, animação incluída, e são precisamente peças do pianista destinadas ao grande e ao pequeno ecrãs que se ouvirão com invólucro jazz.

O portuense Pedro Neves Trio toca também a 7, mas na Rúa Londres (a rua de esplanadas ao lado e por detrás do Marco, com palco para concertos ao ar livre). Com um disco lançado pela Carimbo Porta-Jazz, “Ausente”, na bagagem, Neves far-se-á acompanhar, como habitualmente, pelo contrabaixista Miguel Ângelo e pelo baterista Leandro Leonet. O jazz que propõe é acentuadamente lírico, introspectivo e com uma sonoridade europeia dentro das coordenadas do trio de piano jazz.

Ellington e mais…

Nani García Trio 

Aki Takase

Girls in Airports

Orquestra Jazz de Matosinhos

A 8, e mais uma vez no Auditório, chega a japonesa, radicada na Alemanha, Aki Takase. “My Ellington” parte, tal como o nome sugere, das composições de Duke Ellington, mas segundo a particular visão da pianista. O que quer dizer que determinados factores da escrita desse nome maior da história do jazz são desmontados e apresentados a uma nova luz. O resultado continua a ser Ellington, mas é sobretudo Takase.

Na Rúa Londres, outro concerto no mesmo dia, o da banda Girls in Airports, se bem que entre estes dinamarqueses não há raparigas. Os dois saxofonistas, um deles dobrando em clarinetes (Martin Stander, Lars Greve), o teclista (Matthias Holm), o baterista (Mads Forby) e o percussionista (Victor Dibbroe) forjaram um jazz que é simultaneamente paisagístico, com grande relevo para a electrónica, e tribal (a dupla percussiva tem um papel fundamental neste plano), soando como se os pigmeus do Centro de África fossem, afinal, escandinavos. A música tem algo de etéreo e sonhador, mas o permanente “groove” é de festa.

O fecho do festival no dia 9 faz-se com mais uma “double bill”. A primeira é no Auditório Municipal, com a Orquestra Jazz de Matosinhos. “Big band” de múltiplos projectos e colaborações com figuras de topo do jazz internacional, o repertório que a OJM levará a terras galegas será, com certeza, uma selecção do que mais recentemente tem desenvolvido. Talvez algo da sua recente parceria com Sérgio Godinho, nome da música popular portuguesa muito apreciado, juntamente com José Afonso, pelos viguenses?

A segunda prestação da noite, e última do certame, será a do Kin García Trio na Rúa Londres, com “Xingra coma a Area”, CD prestes a ser lançado. O contrabaixista líder faz-se acompanhar por Jacobo de Miguel no piano (toca habitualmente com Carlos Barretto) e Noli Torres na bateria. O que se espera é um jazz “mainstream” altamente competente, na linha pós-Bill Evans Trio.

O Imaxinasons tem mais ofertas para além dos concertos, designadamente os “workshops” da Academia de Sons, as actuações de rua e em bares das séries Jazz Fóra de Lugar e Jazz na Noite, e ainda a exposição “Transbordo Espacial: Partituras Gráficas”, esta na Casa das Artes, patente entre os dias 7 de Julho e 4 de Setembro. A jazz.pt acompanhará o festival, como habitualmente…