Festa do Jazz do S. Luiz, 20 de Fevereiro de 2016

Festa do Jazz do S. Luiz

Cartaz de luxo

texto Rui Eduardo Paes

O festival do jazz português (e não só) chega em Março com um programa altamente aliciante. LUME, TGB, João Barradas Directions, João Paulo Esteves da Silva, Motion Trio com Rodrigo Pinheiro, Susana Santos Silva e Slow is Possible, entre outros, representarão o melhor que se faz em Portugal. De fora vêm os grandes Greg Osby e Trygve Seim.

O mais importante evento anual do jazz português – mas nesta 14ª edição com a particularidade de ter mais presenças estrangeiras do que é habitual – está de volta ao Teatro Municipal S. Luiz. Como habitualmente com a direcção artística de Carlos Martins e a produção da associação Sons da Lusofonia, o cartaz da Festa do Jazz de 2016 é um luxo.

São várias as propostas imperdíveis nos seus três dias de duração: o grupo Directions do acordeonista João Barradas com Greg Osby como convidado especial; um projecto que conta com a participação de Trygve Seim, Kuara; a estreia de novos materiais por parte do Lisbon Underground Music Ensemble - LUME e dos TGB de Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão; a actuação do Rodrigo Amado Motion Trio com Rodrigo Pinheiro acrescentado ao piano; as apresentações de “Dream Keeper” e de “Impermanence” por parte de, respectivamente, André Fernandes e Susana Santos Silva ; João Paulo Esteves da Silva em registo de improvisação; não menos importante, a segunda apresentação em Lisboa (apenas umas semanas depois da da Culturgest) de um septeto da Beira Interior que está a dar muito que falar, Slow is Possible. Tudo isto nos diferentes espaços do teatro situado no Chiado, designadamente Sala Principal, Sala Mário Viegas e Jardim de Inverno.

Refeições completas

Sebastien Studnitzky 

Mário Delgado e Carlos Martins

Trygve Seim por Gemma Kessels

LUME por Carlos Lima

Antes de o festival ter início propriamente, a 18 de Março, já ele estará em curso com a sua Pré-Festa – ou pré-festas, porque são duas. No dia 16, tendo o Conservatório Nacional de Música como cenário, tocam os Memento de Sebastien Studnitzky com um quarteto de cordas a acrescentar-se ao trio, logo seguidos por outro grupo alemão, os Komfortrauschen. No primeiro caso o jazz é esticado até às margens com a música clássica e a pop e no segundo o “groove” convida a dançar. No dia seguinte, e já no S. Luiz, tem lugar mais uma iniciativa de comemoração dos 50 anos do programa radiofónico 5 Minutos de Jazz, de José Duarte, com o Carlos Martins Quarteto a tocar temas do seu recém-editado álbum, o Mário Laginha Novo Trio e o duo da cantora Rita Maria e do pianista Filipe Raposo.

Depois destes aperitivos que prometem já ser refeições completas, a abertura na noite de sexta-feira 18 é entregue a uma formação de músicos finlandeses e noruegueses, Kuara, com o seu jazz enraizado na folk escandinava e do Leste europeu. O projecto teve edição pela prestigiada ECM e adicionou entretanto um elemento que mais o fez crescer, o saxofonista Trygve Seim. Sobe ao palco, logo a seguir, o Egli-Santana Group, associando a Gileno Santana, trompetista brasileiro radicado no Porto, instrumentistas da Suíça e da Alemanha, designadamente Florian Egli, Dave Gisler, Raffaele Bossard e Jonas Burgwinkel.

No dia 19, sábado, a Festa do Jazz converte-se numa autêntica maratona, com concertos a acontecerem em desfilada a partir da tarde. O contrabaixista Carlos Barretto apresenta-se com um grupo formado pelos estudantes de jazz que foram premiados na edição de 2015 do concurso de escolas promovido pelo festival. São eles Gastão Silva, João Dias, Edgar Alexandre, Diogo Alexandre e Manuela Oliveira. Depois, o César Cardoso Quarteto apresenta o seu mais recente disco, “Bottom Shelf”, contando como trunfos com as intervenções de Bruno Santos, Demian Cabaud e André Sousa Machado. Vez, mais adiante, para o Motion Trio do saxofonista Rodrigo Amado, em versão quarteto com um elemento do Red Trio, Rodrigo Pinheiro.

Por esta altura já os ouvidos estarão quentes e mais do que preparados para o que resta. Uma actuação do LUME de Marco Barroso, com uma música inclusivista que vai do boogie-woogie ao experimentalismo, sem nunca descurar a tradição da “big band” de jazz. Outra dos TGB, trio com algum sabor a rock que traz novas composições e arranjos de temas de Thelonious Monk, Bud Powell e Eric Dolphy. Fecha o serão o quinteto de André Fernandes com duas ilustres figuras do jazz espanhol, Perico Sambeat e Iago Fernández. “Dream Keeper”, o disco a converter em concerto, tem sabor a hard bop e contornos de câmara. Para os mais resistentes, já depois da meia-noite, está anunciado o Combo do Conservatório de Música de Coimbra. 

Múltiplas proveniências

Massimo Cavalli

João Paulo Esteves da Silva

Susana Santos Silva 

Greg Osby

A mega-sessão de domingo 20 começa com o jazz cinematográfico dos Slow is Possible, incorporando léxicos de múltiplas proveniências: música erudita, rock, improvisação livre e mais, combinando melodias sugestivas e texturas abstractas. A dimensão imagética da música continua com Cinema & Dintorni, juntando ao italiano Massimo Cavalli os portugueses Ricardo Pinheiro, Jorge Moniz, Pedro Santos e Laurent Filipe. O JPES Trio, ou seja, o pianista João Paulo Esteves da Silva com Mário Franco e o suíço Samuel Rohrer, chega então com a sua fórmula alicerçada fundamentalmente sobre o improviso. Cabe à Big Band do Município da Nazaré o momento seguinte, tendo consigo alguns convidados: Sérgio Carolino, Ruben da Luz, Daniel Bernardes, Mariana Norton e Lúcia Moniz.

À noite, a cena pertence primeiro a Susana Santos Silva, com a particularidade de esta conversão ao vivo de “Impermanence” ser acompanhada pela projecção de um vídeo da norte-americana, mas residente em Lisboa, Maile Colbert, figura com actividade nos meios da música electrónica, do instalacionismo e da performance. João Pedro Brandão, Hugo Raro, Marcos Cavaleiro e o sueco Torbjorn Zetterberg contribuem para o mais importante projecto composicional de sempre da trompetista portuense, com características que lembram por vezes o Peter Evans Octet. Após uma pausa, altura de ouvir o acordeonista João Barradas na melhor das companhias, designadamente as do americano Greg Osby e de um combo constituído por André Fernandes, João Paulo Esteves da Silva, André Rosinha e Bruno Pedroso. Directions tem foco nas especiais capacidades instrumentais de Barradas, em contexto pós-bop. A despedida faz-se com o Sexteto da ESMAE, já de madrugada.

A Festa do Jazz não se faz só com concertos. A dupla Markku Ounaskari / Samuli Mikkonen (Kuara) e Greg Osby farão um par de “masterclasses”, a 19 e 20, e estão agendados dois debates nos mesmos dias, um sobre Ensino do Jazz, com Haftor Medboe, Ricardo Pinheiro e Pedro Cravinho, e o outro tendo como tema Identidade, Promoção e Trabalho em Rede, com Tony Whyton, José Dias, Carlos Martins e Luís Figueiredo. Pela primeira vez, entrega-se o Prémio de Composição Bernardo Sassetti. E como não podia deixar de ser, novo concurso de escolas acontece durante o fim-de-semana.

Para saber mais

http://www.teatrosaoluiz.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=607&tabs=sobre#sep