Portalegre JazzFest, 6 de Janeiro de 2016

Portalegre JazzFest

Combinações improváveis

texto Rui Eduardo Paes

Vem aí mais uma edição do festival internacional de jazz de Portalegre. Este ano, o cartaz propõe algumas misturas inusitadas de materiais e elementos dentro dos contornos do jazz, e algumas prometem surpreender (foto acima: Eric Revis). 

Com agenda reservada para o Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre nos fins-de-semana de 11 e 12 de Março e de 18 e 19 do mesmo mês, o programa da 13ª edição do Portalegre JazzFest tem como característica distintiva a conjunção de improbabilidades. Junta projectos de características únicas, sintetizando num contexto jazz abordagens de vários quadrantes musicais e fazendo-o com grandes doses de irreverência e imaginação. 

Primeiro fim-de-semana

Urheim-Brunvoll 

Carlos Martins

É o caso, logo a abrir (dia 11, 21h30), da dupla norueguesa constituída por Mari Kvien Brunvoll e Stein Urheim. Os instrumentos em palco serão os menos previsíveis: bouzouki, tamboura, saltério, kalimba, kazoo, flautas, alguma electrónica “lo-fi”, pequenas percussões, caixa de ritmos e mais, para além das vozes do casal. A música, essa, soa um pouco como se a Penguin Café Orchestra tivesse aderido à filosofia “space is the place” de Sun Ra. O repertório deverá ser o do mais recente disco do duo, editado o ano passado pela Jazzland, “For Individuals Facing  the Terror of Cosmic Loneliness”. O título vem de um poema do filósofo Bertrand Russell.*

A 12, à mesma hora, será a vez do Carlos Martins Quarteto, numa antecipação dos temas que constituirão o álbum que pretende continuar o muito aplaudido “Absence”. Nessa sentida homenagem a Bernardo Sassetti, músico com quem todos os membros do grupo (para além do saxofonista, os grandes Mário Delgado, Carlos Barretto e Alexandre Frazão) tocaram, a fórmula seguida era «guardar o maior silêncio possível dentro de um som produzido». Agora, o registo será outro, mais alegre e quente. Ainda assim, muito longe estaremos do que é natural esperar de instrumentistas tão poderosos.

As “after-hours” (23h30) de ambos os dias 11 e 12 estarão a cargo do trio constituído por Pedro Sousa, Miguel Mira e Afonso Simões. Quem já os ouviu ficou com a sensação de que lhes tiraram o tapete debaixo dos pés – por exemplo, é capaz de tocar uma balada da forma mais intempestiva que se possa imaginar. Simões é o baterista do grupo de rock Gala Drop, conhecido pelos mais inesperados cruzamentos com géneros e estilos fora desse âmbito. Mira é o violoncelista do Motion Trio de Rodrigo Amado, ritmista vigoroso e preciso que não receia a vulgaridade de um “walking bass” se é isso que a música pede. Pelo seu lado, Pedro Sousa tem marcado o seu nome em domínios como a livre-improvisação e o noise , definindo-se ora pelo excesso expressivo e de decibéis, ora pela desconstrução obsessiva de uma pequena estrutura. 

Segundo fim-de-semana

Chrome Hill

Slow is Possible

No dia 18 de Março, pelas 21h30, apresenta-se o americano Eric Revis Trio, formação que congrega três gerações de músicos e três visões distintas do que é o jazz. De um lado está a jovem pianista Kris Davis, uma das grandes figuras que estão a desenhar o futuro da cena de Nova Iorque. Do outro, encontramos o baterista veterano que acompanhou Steve Lacy nos últimos anos da sua vida, John Betsch. No meio, Revis – antigo parceiro tanto de Lionel Hampton como de Peter Brotzmann – gere os balanços da música, utilizando composições próprias ou temas de, por exemplo, Thelonious Monk e Keith Jarrett.

Bem mais desconcertante será o quarteto que abre a noite de 19: Chrome Hill. Porquê? Bom, porque se trata de um grupo de jazz do Norte da Europa (Noruega) que toca… folk americana. Mas não é assim tão simples: Asbjorn Lerheim, Atie Nymo, Roger Arntzen e Thorstein Lofthus fazem-no com os preceitos do psicadelismo rock e encharcam este com blues, armados de saxofone, guitarra, contrabaixo e bateria. Vão apresentar o CD “Country of Lost Borders”, um manifesto sobre a volatilidade das fronteiras quando se trata de música. Estão neste projecto (que já teve Damp como nome) alguns dos mais importantes nomes do jazz (e não só) escandinavo, integrando bandas de renome como Elephant9, In the Country ou Shining.

A proximidade da meia-noite nestes dois dias finais do Portalegre JazzFest faz-se com os não menos surpreendentes – mas portugueses – Slow is Possible. A maneira como o septeto da Beira Interior trabalha a melodia e o ritmo remete-nos para o rock progressivo, enquanto a riqueza harmónica das composições denuncia a formação clássica, e a actividade paralela nessa área, dos músicos envolvidos. Mas existem mais camadas: há um jazz cinematográfico, muito anos 1950, que lembra os filmes policiais de série B, há uma atitude “off” que os coloca nos domínios do free jazz e da música livremente improvisada, há Morricone e Mr. Bungle, há Zorn e Mingus. Nos concertos não deixarão, com certeza, de interpretar peças que escreveram para os filmes de Maya Deren ou de explorar o seu gosto pelos romances de Charles Bukowski. Façam o que fizerem, Bruno Figueira, Patrick Ferreira, André Pontífice, João Clemente, Nuno Santos Dias, Ricardo Sousa e Duarte Fonseca vão intrigar e baralhar ideias feitas.

* Devido a motivo de doença de um familiar, o duo será substituído por um concerto do português Red Trio.