Outono em Jazz, 30 de Setembro de 2015

Outono em Jazz

Jogo de contrastes

texto Rui Eduardo Paes

A Casa da Música vai apresentar em Outubro um ciclo dedicado à pluralidade de tendências do jazz actual. Regra geral articulando orientações estéticas opostas, mas reservando uma noite para o soul-jazz e dando especial atenção a projectos que entram pelo domínio das chamadas “músicas do mundo”. Carla Bley (foto acima) é a cabeça-de-cartaz.

O formato do Outono em Jazz não é muito diferente do de outro ciclo organizado pela Casa da Música, o Spring On. A não ser pelo facto de incluir nomes de referência em vez de ir buscar valores em ascensão na área do jazz. O princípio de cobrir as mais viradas tendências deste idioma musical é o mesmo, inclusive nas combinatórias propostas para cada sessão, com a música de um grupo nos antípodas daquele que se segue.

É assim que vamos ouvir, a 4 de Outubro, um trio de piano jazz modelado pela sonoridade da ECM, o de Kari Ikonen, antes do free do Rodrigo Amado Motion Trio. Ou que o triângulo Carla Bley-Andy Shepard-Steve Swallow destoe, no dia 18, do world jazz dos Black String. Na edição deste ano do evento só há uma excepção a essa regra: a 11 o soul-funk-jazz faz o pleno do programa, com Myles Sanko e o colectivo Incognito. Apesar deste enfoque na criação de contrastes, há um especial relevo das hibridizações com as músicas do mundo, casos do encontro de Mário Laginha com Tcheka ou do Javier Paxariño Trio. 

“Groove” e melodia

Kari Ikonen Trio por Tanja Ahola 

Mas vamos por partes. O cartaz abre dia 4 o finlandês Kari Ikonen Trio, reunindo ao pianista que compõe habitualmente para a prestigiada UMO Jazz Orchestra o contrabaixista Ara Yaralyan e o baterista Markku Ounaskari. Ampliado por elementos dos folclores escandinavos e arménio, a música concilia um lirismo devedor a Bill Evans com um “groove” que é indubitavelmente norte-americano. E tanto assim que não surpreenderá se, no alinhamento do concerto, surgir uma versão do emblemático “Giant Steps” de John Coltrane, como de resto aconteceu no álbum “Bright”.

A abordagem poética, mas convencional, do projecto será muito diferente da do grupo de Rodrigo Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini. Nesta circunstância sem o envolvimento de um convidado especial, regressando aos fundamentos do projecto, o Motion Trio tocará uma música integralmente improvisada, mas com a característica narratividade melódica do bop e do hard bop. Muito evidente será, com certeza, que as raízes desta formação conotada com a “fire music” estão mais atrás na história do jazz e em outras das suas esquinas contemporâneas. 

Sabor “vintage”

Incognito 

Myles Sanko pode ser um “newcomer” (o seu primeiro disco data de 2013), mas já ganhou notoriedade nos meios que cruzam a soul com o jazz. Pela voz do cantor britânico passam as referências da Motown e de figuras iconográficas como James Brown e Otis Redding, se bem que com um embrulho acid que lhe dá actualidade. Não se trata propriamente de uma nova soul, mas da tradição desse género com roupagens de hoje. E se as capacidades vocais de Sanko constituem uma boa surpresa, o seu carisma de palco é contagiante, como se comprovará no dia 11.

É também das ilhas de Sua Majestade que vêm os Incognito do guitarrista Jean-Paul “Bluey” Maunick, datando a sua formação do final da década de 1970. A soul, o funk e o jazz que esta trupe toca são de festa e têm o claro propósito de apelar à dança. Apesar disso, os conteúdos das letras revelam uma aguda consciência social e política, não surpreendendo que o seu tema “Need to Know” abra o programa de rádio e de televisão mais interventivo do Reino Unido, Democracy Now. Esse activismo fez, por exemplo, com que participassem nos discos de beneficência da série “Red Hot”. 

Jazz do mundo

Javier Paxariño 

Carlos Martins é uma das figuras de proa do jazz nacional, bem como todos os elementos do seu quarteto, designadamente Mário Delgado, Carlos Barretto e Alexandre Frazão. A música estará fortemente alicerçada no legado jazzístico do saxofone tenor, o instrumento do músico lisboeta, se bem que as composições possam denotar o seu especial gosto pelos “sons da lusofonia”, os de Portugal continental como de outras paragens geográficas onde marcámos presença. O repertório será, essencialmente, o de “Absence”, disco de homenagem a Bernardo Sassetti. Ouviremos um jazz contemplativo, e quando a 17 de Outubro houver um silêncio é para termos consciência de que o desaparecido pianista não está presente.

Se a portugalidade do Carlos Martins Quarteto soa subtilmente, já as pontes do jazz com o património sefardita estarão muito evidentes na actuação que se segue após intervalo: a do Javier Paxariño Trio, proposta espanhola de qualidade que urgia conhecer. Paxariño é um flautista, saxofonista e clarinetista natural de Granada, o último reduto da cultura muçulmana no país vizinho. Com Josete Ordoñez em guitarra, mandola e alaúde (electrificado) e Manu de Lucena em bateria e percussão combina a identidade da Extremadura com o típico balancear do Magreb e o jazz, num híbrido particularmente atraente. 

De trás para a frente

Andy Sheppard 

Instrumentos tradicionais da Coreia como o geomungo (um cordofone de seis cordas), o daegum (flauta de bambu) e o yanggeum (equivalente ao saltério) serão ouvidos logo no dia seguinte, 18, em associação com uma guitarra eléctrica. Os Black String procuram colar a música ancestral do seu país e o jazz pela metodologia que têm em comum, a improvisação. À frente do projecto está Yoon-jeong Heo, uma virtuosa do geomungo que tem procurado ir para além dos usos habituais da sua ferramenta de trabalho. Com ela estarão Aram Lee e Jean Oh, igualmente votados em criar música inovadora a partir de património muito antigo.

Um abundante e sólido património é o que tem reunido Carla Bley desde o seu surgimento em cena no final da década de 1960. Algum dele interpretado pelo trio a que tem dado prioridade quando não está à frente de uma orquestra, aquele que partilha com o saxofonista Andy Sheppard e o baixista Steve Swallow. Coisa que vem fazendo há 20 anos, com largas dezenas de partituras entretanto escritas. Os três gigantes do jazz actual trazem com eles o alinhamento de “Trios”, CD em que, precisamente, fizeram uma recapitulação do que ficou para trás, a fim de se projectarem para diante. 

Um novo som

Francesco Tristano 

O fecho do Outono em Jazz acontece a 21 de Outubro com mais um duplo concerto. Primeiro subirão ao palco Francesco Tristano (piano), Pascal Schumacher (vibrafone) e Bachar Khalifé (percussão), luxemburgueses os dois primeiros, libanês o último. O jazz que vão mostrar inclui elementos clássicos (o jovem, mas sobredotado, Tristano tem actividade na música contemporânea e grava habitualmente para a Deutsche Grammophon) e arábicos (por via, sobretudo, de Khalifé), não raro buscando na experimentação os factores que permitam assumir as suas propostas como uma «fusão do século XXI».

Depois, teremos o pianista Mário Laginha com uma curiosa companhia, a do cantor e guitarrista cabo-verdiano Tcheka. Este encontro será o corolário de uma gradual aproximação entre os dois músicos, que contam já com algumas colaborações esporáficas. Dele resultará algo de mais sério, apostado em dar modernidade ao velhinho batuku da ilha de Santiago e a acrescentar cores africanas a uma visão do jazz que se impôs pela sua elegância metropolitana. Conhecendo as personalidades de ambos, não é previsível que algum dos factores em equação domine, pelo que poderá estar para nascer um novo som…