Jazz em Agosto , 17 de Julho de 2015

Jazz em Agosto

Roadmap de um festival

texto Gonçalo Falcão

O Jazz em Agosto volta ao jardim da Gulbenkian, como habitualmente. E também como é costume apresenta propostas suficientes para delapidar parte do subsídio de férias de qualquer pessoa de bem. Ora aqui fica um mapa para localizar o que aí vem, já a partir de 31 de Julho…

Num tempo em que muita gente carrega o peso de um cabo extensível cuja única função é tirar fotografias a si próprio, o festival da Fundação Gulbenkian continua a querer retratar aquilo que de mais interessante se faz no jazz por todo o mundo e mantém-se fiel ao figurino a que se abotoou desde que Rui Neves o programa: concertos de músicos novos, “quentes” no circuito internacional, equilibrados com nomes históricos que marcaram a última das grandes viragens do jazz nos anos 1970. A presença de várias orquestras na edição deste ano é o elemento mais evidente.

Assim sendo, pareceu-nos útil mapear este território cheio de ofertas imperdíveis e que tendem a esgotar (pelo menos a julgar pelos últimos anos): os fins-de-semana da Praça de Espanha são mais concorridos do que os das discotecas da moda no Algarve, e por isso não é má ideia planear e reservar bilhetes. 

Experiência adquirida

Fire! Orchestra 

Michael Mantler

O festival começa no dia 31 de Julho, sexta-feira, e perder este concerto é retroceder três casas no jogo da vida. Abre com 19 músicos em palco, a Fire! Orchestra, “big band” do sueco Mats Gustafsson que expande a música dos Fire! (trio que já actuou no festival) para um grupo alargado. A música retém uma intensidade e um espírito quase roqueiros (na acepção stoner), desenvolvendo-se em crescendos, mas está obviamente muito mais organizada. O grupo tem músicos de excelente qualidade e que conhecemos como líderes de outras formações, como Jonas Kullhammar e Lotte Anker. Predominam os sopros, aos quais se juntam duas vozes femininas, duas baterias, duas guitarras eléctricas e dois baixos eléctricos.

No sábado, primeiro dia de Agosto e segundo do festival, podemos ouvir o rearranjo da música que Michael Mantler escreveu em1968 (e em1965, com Carla Bley?). Trata-se de uma revisitação dos primeiros tempos do colectivo que se estabeleceu em 1966 como Jazz Composers Orchestra Association Inc. (JCOA) e que durou até 1975. Apesar do disco mais referenciado de Mantler com esta formação ser de 1968, logo na sua primeira aparição – “Communication”, editado pela Fontana em 1965 – a JCO tocou música sua e de Carla Bley.

No segundo disco Mantler esteve sozinho na composição e na produção, reunindo um conjunto de m Gato ainda mais impressionante: a composiçmmy Lyons, Roswell Rudd, Archie Shepp, John Tchicai, Robin Kenyatta, Kent Carter, Steúsicos ainda mais impressionante para tocar a peça. Oupdate” da sua escrita parece saudável: quantos de nós não gostaríamos de poder fazer “undo” às falhas de produções passadas e reescrevê-las à luz da experiência adquirida? Mas isso levanta outra questão: é que, para além das pautas, a Jazz Composers Orchestra do segundo disco era um colectivo com Cecil Taylor, Gato Barbieri, Don Cherry, Roswell Rudd, Pharoah Sanders, Ron Carter, Larry Coryell, Andrew Cyrille, Steve Lacy, Jimmy Lyons, Steve Swallow, Alan Silva, Randy Brecker, Kent Carter, Charlie Haden, Reggie Workman, entre outros. E, ao Jazz em Agosto, Mantler vem com a Orquestra Jazz de Matosinhos.

Sem qualquer desrespeito para com a orquestra nortenha, que reconheço como muito boa, a questão que se levanta é: até que ponto faz sentido actualizar só as pautas? Assisti há uns anos a um concerto em que Jimmy Cobb tocava o ”Kind of Blue” com músicos novos e não deixei de sentir que estava entre o karaoke e o “remake”. É que as pautas são uma pequeníssima parte; o resto eram Miles Davis, Cannonball Adderley, John Coltrane, Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb, o que não é coisa de somenos importância.

Energia e intensidade

Swedish Azz 

Rodrigo Pinheiro e John Butcher

Alexander von Schlippenbach e Aki Takase

No domingo 2 de Agostoavançamos com um quarteto sueco, o Swedish Azz, que traz Gustafsson de regresso ao palco do JeA, com outra das suas formações: um quinteto sem contrabaixo, que usa sax, tuba, vibrafone, bateria, electrónica e gira-discos. A música parte de uma estrutura escrita bem definida, com algum humor e o regresso a uma ideia turva de bop, que rapidamente assume um discurso contemporâneo, pondo os solistas em destaque. É uma forma mais agreste e desconexa de tratar aquilo que muitas vezes se designa por jazz clássico, usando-o como matéria-prima para novas formas e não apenas para novas interpretações.

Quase sem dar tempo para respirar o festival regressa quarta-feira, dia 4 de Agosto, com o português Red Trio e o convidado inglês John Butcher. A adição de um solista ao Red Trio (piano, bateria e contrabaixo) tem sido uma opção recorrente do grupo (Lebik + Damasiewicz, Mattias Ståhl, Pedro Sousa, Nate Wooley) para acrescer alguma instabilidade num triângulo que funciona demasiado bem. O trio tem uma força própria que parece unir os três músicos numa música compacta, cheia de energia e intensidade. É uma espécie de superpiano preparado que soma àquilo que toca densas nuvens providenciadas pela bateria e pelo contrabaixo. Como os movimentos de um bando de andorinhas, frondoso e abstracto, a música do Red Trio é uma unidade coesa e uma das propostas mais interessantes da improvisação actual.

Na quinta-feira 6 de Agosto temoscinema e música numa proposta única: os Lok 03 juntam dois pianistas excepcionais a electrónica. Aki Takase e Alexander Von Schlippenbach têm linguagens pianísticas autónomas e muito distintas e são duas referências incontornáveis no jazz actual. Takase construiu um admirável ciclo de duos com vozes femininas (que inclui a cantora portuguesa Maria João) e Schlippenbach é uma referência do jazz europeu, nos últimos anos tendo relido com muita originalidade as músicas de Thelonious Monk e de Eric Dolphy.

Por entre os pianos tocará o gira-discos do DJ Illvibe, cuja presença no trio não é menor nem sequer subsidiária – texturas para fundo - como tanta vez ouvimos, pois contribui de forma significativa com sons e ambientes que equilibram a centralidade do instrumento piano. Os três irão improvisar a banda sonora de dois filmes dos anos 1920: «Berlin, Die Sinfonie der Großstadt» de Walter Ruttman (1927) e «Symphonie Diagonale» de Viking Eggeling (1924). O piano era o instrumento de eleição para sonorizar o cinema mudo e, no caso da primeira película, irá reduzir e reinterpretar livremente a pauta original escrita por Edmund Meisel para orquestra sinfónica. Este documentário sem fio narrativo sequencial retrata diversos aspectos de Berlim neste período. Ruttman integrou pela primeira vez no cinema europeu o tipo de montagem desenvolvido pelos realizadores soviéticos (Eisenstein, Kuleshov). Por sua vez, o sueco Eggeling, que integrou o movimento Dada suíço e alemão, fez provavelmente o primeiro filme experimental, a partir da animação de formas geométricas, numa exploração brilhante do tempo. Antecipam-se imagens e sons de enorme importância para a vida interior de qualquer pessoa minimamente sensível. 

Por si e enquanto parte

The Young Mothers 

Henry Threadgill

Orchestre National de Jazz

Na sexta-feira 7 de Agosto a música volta a marcar falta a quem não for ao Anfiteatro da Gulbenkian. É impossível fazer uma história da música do século XX sem falar no rock e muitos dos músicos de jazz integram-no mais ou menos explicitamente no seu trabalho. The Young Motherssão um grupo americano liderado pelo contrabaixista norueguês Ingebrigt Håker Flaten que, além da secção rítmica de baixo e bateria, tem uma frente de dois metais, guitarra eléctrica e vibrafone. O sexteto tem uma música forte e energética e será um prazer ver um grupo de músicos jovens com imensa qualidade, alegria e vontade de estar em palco.

Chegados ao sábado 8, penúltimo dia do festival, o ambiente muda radicalmente para ouvir em estreia europeia as “Great Lakes Suites” do trompetista Wadada Leo Smith. De igual importância a presença no quarteto do saxofonista e flautista Henry Threadgill. A secção rítmica é constituída por John Lindberg e Marcus Gilmore (em substituição de Jack DeJohnette, que fez a gravação para o disco). Uma música serena e contemplativa, que tem o passo lento da sabedoria em que cada nota quer valer por si e como parte de um todo.

Gilmore é, de facto, o elemento menos óbvio neste grupo, o que certamente imporá diferenças em relação à obra gravada no ano passado. Neto de Roy Haynes, é um baterista regular nos grupos de Vijay Iyer, Chick Corea, Branford Marsalis e Ravi Coltrane, entre outros. Wadada é um dos grandes trompetistas da actualidade, usando a calma e a contenção de Miles, e Threadgill é outro nome histórico com um papel importante não só enquanto músico, mas também como compositor. Wadada e Threadgill são ambos membros fundadores da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), criada em 1965 em Chicago e que foi um pólo importante não só para o jazz como também para a condição e o papel social do músico.

No domingo 9 de Agostoregressamos ao formato orquestra. Olhando de fora temos a sensação de que o jazz francês vive entre extremos: por um lado tem excelentes copistas que fazem em Francês aquilo que os originais de outros países criaram, para consumo interno de um povo que muitas vezes desvaloriza tudo o que não seja “nous les Français”, e por outro temos ouvido ideias extraordinariamente interessantes e de altíssima qualidade, como o quarteto Propagations, que o Jazz em Agosto apresentou há uns anos, ou o disco de Eve Risser (pianista da Orchestre até 2013) recentemente editado pela Clean Feed.

A Orchestre National de Jazz foi totalmente repensada enquanto projecto artístico desde que se entregou a direcção artística ao guitarrista Olivier Benoît. Fundada em 1986, a “big band” muda de regência em cada dois ou três anos, procurando assim ter sempre sangue novo e novas ideias. Benoît iniciou um ciclo de composições com a ideia de representar a vida das grandes capitais. Começou naturalmente por Paris, e trará à Gulbenkian as suas pautas mais recentes sobre Berlim, em estreia mundial ao vivo. A música gravada mostra os 11 instrumentistas a tocar uma música que luta por ser actual e por explorar as possibilidades de um ensemble alargado.