Portalegre JazzFest, 18 de Fevereiro de 2015

Portalegre JazzFest

É de ir

texto Gonçalo Falcão

O evento com que se inicia a temporada anual dos festivais de jazz em Portugal realiza-se em dois fins-de-semana de Março, com concertos nos dias 19, 20, 21, 27 e 28. Michael Formanek, Tim Berne, Chris Speed e Tony Malaby são os nomes mais sonantes de um cartaz que inclui De Beren Gieren (em cima), Ricardo Toscano, Kaja Draksler, Susana Santos Silva, Deux Maisons e André Matos…

Com 12 edições, o Portalegre JazzFest é já uma presença notável, com uma dimensão que se adapta bem à pequena cidade alentejana e que convida a uma escapadela contemplativa. É quase a meio do País que abre o ano jazzístico nacional com dois fins-de-semana muito convidativos: Portalegre mantém-se magnificamente luminosa e o seu centro cultural tem excelentes condições e um bar superior para “after-hours” até perder de vista. Resta saber se temos música que faça jus ao contexto, interessante e original, fora dos pacotes festivaleiros pré-fabricados. Vamos ao laboratório para análises… 

Novos caminhos

Chris Speed 

O primeiro bloco do festival começa no dia 19 de Março, quinta-feira, com as CAEP Voices (CAEP é o acrónimo de Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre) a interpretar “clássicos” do jazz.As vozes são as de um grupo coral alentejano com 50 amadores da cidade que partilham o prazer de cantar e de estar juntos. A inclusão do grupo no programa do festival, que ensaiará um repertório jazzístico propositadamente para esta apresentação, pretende estreitar laços entre os portalegrenses e o jazz, esperando que as afinidades pessoais ajudem a uma aproximação a uma música ainda grandemente desconhecida.

 A abertura do festival tende a ser um momento de música aveludada e pouco questionante, por isso não sabemos ao que vamos, mas vamos. Logo no dia seguinte, sexta-feira 20, ataca o Michael Formanek's Cheating Heart Quintet: o contrabaixista trará dois saxofones, Tim Berne e Brian Settles, e o que o primeiro tem de reconhecimento com os seus Caos Totale ou com os Snakeoil (actuaram recentemente na Gulbenkian) tem o segundo de interesse, pois é um músico em ascensão que é preciso verificar ao vivo. O Michael Formanek Quartet é o grupo mais conhecido do líder (recém-editado pela ECM), também com Berne no sax. Espera-se um jazz tão sereno quanto o desse projecto, mas com uma expressão menos paisagista e mais abstracta, capaz de uma dimensão orquestral maior e de cruzar discursos solísticos. É um grupo novo, o que acresce o prazer da descoberta.

O primeiro fim-de-semana fecha no sábado 21 com o Chris Speed Trio. O saxofonista virá com Dave King (baterista que conhecemos dos Bad Plus) e Chris Tordini. Antecipamos o fraseado doce de Speed, cruzado com a bateria silenciosa mas hiper-activa de King e o baixo muito sólido de Tordini. Ouviremos um trio guiado pelo saxofone à procura de novos caminhos no jazz actual. O disco “Really Ok” desta formação não mostra um saxofonista forte e interventivo e sim uma procura de novas perspectivas subtis num som tradicionalista. Com um “swing” tenso e anguloso, o disco ouve-se com prazer e promete uma noite agradável.

Como habitualmente, as noites de sexta e sábado prolongar-se-ão no piso de cima do CAEP, onde ouviremos o Ricardo Toscano Quartet. O saxofonista, sendo ainda muito jovem, é já francamente conhecido e bem credenciado. Música garantidamente bem tocada. 

Na fronteira

Théo Ceccaldi 

O segundo fim-de-semana começa na sexta 27 de Março com um quarteto que junta ao trio de André Matos o saxofonista Tony Malaby. O guitarrista português que tem estado a construir uma carreira em Nova Iorque retoma a ligação com o contrabaixista argentino Demian Cabaud (Orquestra Jazz de Matosinhos) e ao baterista André Sousa Machado (LUME). A presença de um instrumento melódico nesta banda obrigará a reformular o papel da guitarra de Matos e a junção de um grande saxofonista traz uma curiosidade natural à estreia deste projecto.

O último dia, 28, traz uma proposta mais disruptiva, desde logo na forma: um concerto que são três. Inicia-se com um solo da pianista eslovena Kaja Draksler que, apesar da sua idade, tem uma maturidade invulgar. Ainda sem uma voz firmada, tem a seu favor uma grande vontade de explorar caminhos desconhecidos e de tocar com inteligência e sentido musical. Findo o solo, tocará com Susana Santos Silva, instrumentista, compositora e improvisadora excepcional. De seguida entra o trio De Beren Gieren (piano, contrabaixo e bateria), a que se juntará depois o trompete de Silva para uma actuação final em quarteto.

O disco recém-editado que junta o grupo belga à trompetista portuguesa foi uma das melhores audições do ano que passou e merece toda a atenção de quem gosta de jazz. O trio usa formas reconhecíveis, mas enquadra-as em processos totalmente novos e a adição do trompete dá-lhes uma limpeza clássica num cenário vadio. Será provavelmente um dos dois concertos que mais testarão as fronteiras classificativas de alguns ouvintes e que apresentarão formas mais desafiantes. O outro está marcado para o bar quando os ponteiros do relógio se aproximarem da meia-noite de sexta e sábado, com os Deux Maisons de Luís Vicente, Théo Ceccaldi, Valentin Ceccaldi e Marco Franco. O também debutante projecto luso-francês junta trompete, violino, violoncelo e bateria e é provável que entre pelos domínios da música livremente improvisada.

E se o pretexto era fácil de montar – o início da época jazzística e o ar magnífico de Portalegre –, feita a prometida análise vemos que as propostas musicais revelam argumentos sólidos e verdadeiros para ir parar à fronteira durante uns dias. Naquele Alentejo estranho, verdejante e serrano ainda conseguimos encher as noites com boa música irrepetível, bons copos, boa conversa e um óptimo ambiente. De notar ainda que cada bilhete dá direito a um CD Clean Feed gratuito, o que borlifica os concertos. Some-se a mostra de vinhos e produtos regionais integrada no festival e está montado um cenário de inevitabilidade: é de ir.