Guimarâes Jazz, 12 de Setembro de 2014

Guimarâes Jazz

Guimarães is the place

texto Gonçalo Falcão

De 6 a 15 de Novembro, todos os caminhos vão dar à cidade onde nasceu Portugal. O programa é bem recheado, com David Murray, James Carter, Joshua Redman (foto acima) e Lee Konitz a encabeçarem o cartaz, mas também propostas como Théo Bleckmann, Uri Caine, Reut Regev e tudo o resto.

Berlim? Londres? Barcelona? Não, Guimarães. Para quem quiser fazer um excelente fim-de-semana prolongado numa cidade europeia, aproveitando o Verão de São Martinho em Novembro, Guimarães is the place. O Guimarães Jazz é muito mais do que uma sequência de grandes concertos; é uma oportunidade para pastar o descanso numa cidade magnífica, com uma escala perfeita, uma dimensão histórica rara, boa vida, boas noites e alguns segredos (do churrasquinho da cervejaria Martins à Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento).

Muito mais do que música, são dias únicos e especiais. E isto prova-se facilmente olhando para as vendas de bilhetes, pois grande parte dos sentados no auditório do Centro Cultural Vila Flor são visitantes que já descobriram que o festival é um spa para crânios fatigados. O modelo está criado e a sua 23ª edição segue o vínculo estabelecido: jazz conservatorial, que não procura a ruptura, instalando-se confortavelmente na tradição e oferecendo concertos com nomes famosos e estrelas em ascensão.
Este ano teremos Lee Konitz e Uri Caine, o quarteto de David Murray e Joshua Redman como convidado da orquestra de Trondheim. Não menos importantes os trios de James Carter e Arían Oropeza, o quarteto de Reut Regev com Taylor Ho Bynum e Adam Lane e o projecto Porta-Jazz, que substitui a anterior parceria com a TOAP. Como sempre, ouviremos ainda a banda da ESMAE (sempre com bons executantes e solistas) ensaiada por Bynum e Regev.

A vida não pára com os concertos e os “after-hours” no Centro Cultural e na cidade oferecem mais alternativas. Como o festival se divide em duas semanas, vamos à música para ajudar aqueles que não puderem calendarizar tudo… 

Directamente ao assunto

David Murray 

James Carter por David Sinclair

Théo Bleckmann por Gerhard Richter

A noite inaugural, a 6 de Novembro, propõe um nome estabelecido e um projecto forte. O Infinity Quartet, por nós já ouvido ao vivo, debita uma soul fácil e orelhuda em que o centro da atenção é o saxofone de Murray.  O programa não especifica a restante formação (Nasheet Waits na bateria, Marc Cary no piano e Jaribu Shahid no contrabaixo?), mas a música que já conhecemos evita enrodilhanços métricos ou melódicos e vai directamente ao assunto, com bons temas.

No dia seguinte, sexta-feira 7, virá o James Carter Organ Trio. O líder tem um grande som no sax tenor e esta formação é o seu projecto mais consistente, a tocar desde 2005. O órgão é um instrumento perigoso que derrapa facilmente para o azeite, mas Gerard Gibbs esforça-se por o manter longe desse pantanal, inventando soluções novas dentro de uma linguagem fixa.

Leonard King Jr., baterista competente, assegura um trio coeso e com bom “groove”. Um trio com órgão leva-nos directamente para os blues e para o gospel e é neste território que o projecto funciona, ficando a expectativa de não ouvirmos o som característico “da vida a andar para trás”.

O sábado 8 apresenta dois concertos. À tarde o do trio do baterista mexicano Adrián Oropeza pode ser uma enorme surpresa. O grupo com piano e contrabaixo procura uma mistura entre o jazz tradicional, os ritmos mexicanos e a música erudita contemporânea. Um “blend” muito difícil de antecipar, mas que à partida promete originalidade.
À noite está programado um concerto que junta dois elementos explosivos: jazz vocal e Kate Bush. Já sabemos que o jazz sempre se apropriou de canções populares para lhes dar novas perspectivas e que neste campo é capaz de vestir confortavelmente uma camisola que pica: “Human Nature” de Michael Jackson ou “Time After Time” de Cindy Lauper ficaram extraordinárias no trompete de Miles Davis.

A audição do disco mais recente do alemão (ui, tudo ajuda…) Théo Bleckmann dá-nos um som de grupo com muita electrónica (um pouco como os E.S.T.), que procura levar as músicas de Kate Bush muito para fora do borrão meloso das originais. As composições de Bush estão longe dos modelos ominosos da pop inglesa e, por isso, ficamos curiosos quanto à capacidade de Bleckmann de as retirar do ambiente miado original e de lhes dar um novo sopro de vida. Para todos os que, como eu, acham que o que actualmente se designa por jazz vocal muitas vezes não é mais do que uma charopada pop mal disfarçada, está aqui uma proposta que exige uma audição diferente.

No dia 9, também dose dupla. À tarde, como é de regra na programação de Guimarães, a “big band”, o ensemble de cordas e o coro da ESMAE apresentarão o resultado de uma semana de trabalho com Reut Regev e o cornetista Taylor Ho Bynun. À noite, e em substituição da antiga parceria do festival com a TOAP, um projecto do colectivo portuense Porta-Jazz promete jazz nacional de qualidade. 

Recomeço em grande

Reut Regev 

Uri Caine

Lee Konitz

A semana seguinte começa na quarta-feira, 12 de Novembro. Se só puder assistir a uma das semanas do festival, esta segunda seria a minha escolha. Logo para começar, um quarteto que promete com a trombonista Reut Regev, que conhecemos dos projectos de Anthony Braxton com Taylor Ho Bynum (também regular nos grupos de Braxton), o baterista Igal Foni (que é parceiro de vida e de música de Revev) e o contrabaixo fortíssimo de Adam Lane. Um recomeço em grande.

No dia 13 sobe ao palco do Vila Flor o trio do pianista Uri Caine. É um dos trios de topo do jazz actual e uma oportunidade para nos actualizarmos na música deste grupo, cuja última gravação é de 2011. Caine é um dos pianistas maiores dos nossos dias. Começou por se associar às linguagens mais melódicas de John Zorn, mas evoluiu para projectos distintos e gravou discos verdadeiramente notáveis (ex: “Wagner & Venezia”).

O penúltimo dia do festival, sexta-feira 14, traz um concerto imperdível: Lee Konitz, com 86 anos, conhece bem Portugal e tem tido inúmeras colaborações com músicos nacionais (Carlos “Zíngaro”, Carlos Barretto, André Fernandes, toda a Orquestra Jazz de Masosinhos). Ainda sem informações sobre os nomes que assentarão no seu Quartet (Florian Weber, Jeff Denson e Ziv Ravitz?), sabemos com segurança que esta será uma hipótese de ouvir Konitz num bom contexto e continuando a soprar forte e bem.

A edição de 2014 fechará na noite de sábado, como habitualmente, com uma “big band”. Neste caso, repete-se a fórmula das últimas edições e o convite foi feito a uma orquestra do Norte da Europa, desta feita norueguesa, guiada por Eirik Hegdal, que convida Joshua Redman como solista. O saxofonista é um dos mais vultuosos sopros da actualidade e – mesmo espartilhado pela necessidade de tocar com uma orquestra (que não é propriamente uma unidade flexível) - valerá a pena ouvi-lo.