Jazz em Agosto, 13 de Julho de 2014

Jazz em Agosto

Investir na vida

texto Gonçalo Falcão

Pois. Há alturas em que não se deve contar o dinheiro, mesmo quando é pouco. Uma delas será o festival da Gulbenkian, que este ano tem um cartaz impossível de ignorar. Aqui ficam quatro orçamentos para viver a vida sem privações musicais…

Há muito tempo que o programa do Jazz em Agosto não causava tanta expectativa. Mais do que nunca, justifica-se o investimento numa assinatura para todos os concertos, pois este é, em minha opinião, um dos melhores programas dos últimos anos: coerente e cheio de propostas potencialmente interessantes à volta da guitarra. O difícil é fazer alguns destaques. Tentemos…

Dado que vivemos num período de asfixia cultural, em que ir a um concerto é um luxo acima das nossas possibilidades, decidi estruturar este “preview” precisamente pelo argumento que nunca deveria frustrar quem gosta de ouvir música: o dinheiro.

Rui Neves, o programador do JeA, move-se num território já familiar, viajando por três gerações: nomes históricos dos anos 1970 que abriram novas perspectivas ora na “grande música negra” (exemplo: James Blood Ulmer), ora na improvisação livre europeia (Evan Parker, Joëlle Léandre), ora na cena contaminada pelo rock (Massacre, Fred Frith, Marc Ribot). A isto junta um par de propostas portuguesas: Luís Lopes e o Lisbon Underground Music Ensemble, “big band” nacional dirigida pelo brilhante Marco Barroso, que encerra o festival.

Serviços mínimos (com imposto de selo e emolumentos): 55 euros

Fred Frith 

Marco Barroso por Carlos Santos

James Blood Ulmer Memphis Blood Blues Band: 1 de Agosto; Massacre: 9 de Agosto; L.U.M.E.: 10 de Agosto

 

James Blood Ulmer (foto no topo) é o guitarrista estrutural do free jazz, pois conseguiu encontrar uma forma da responder à ideia harmolódica de Ornette Coleman, mantendo-se profundamente “bluesy”. Nem sempre bom e nem sempre especial, tem mesmo assim conseguido editar nos últimos tempos discos de blues absolutamente imperdíveis (caso de “Birthright”). Ao trazer de volta a experiência do free para as raízes revolucionou também a música tradicional americana.

Esta sua banda de blues incorpora vários elementos da tradição musical negra (blues, funk) e por isso dará certamente um concerto “uplifting” e divertido. Os três títulos editados da Memphis Blood fazem antever muito blues para o Anfiteatro ao Ar Livre. A única coisa que poderá falhar – ou surpreender agradavelmente - é a eventual, mas desnecessária, tentativa do grupo para se adaptar à natureza jazzística do festival.

Ouvir os Massacre ao vivo será certamente uma experiência inesquecível. Esta banda revolucionou a ligação entre o jazz e o rock em “Killing Time”e é bem capaz tanto de impressionar o público jazzístico da Gulbenkian como de dar um murro no estômago a uma audiência púbere devota do punk.

Só a presença do baixo subterrâneo de Laswell justificaria a nossa, para ver e ouvir uma figura lendária que tentou aproximar o jazz da música pop com os Material (grupo em que Whitney Houston gravou pela primeira vez). Frith monta estruturas rockeiras na guitarra, mas sem binarismos básicos, e a bateria supersónica de Charles Hayward faz deste concerto um dos núcleos fundamentais deste Jazz em Agosto. Esperemos que as fragilidades da saúde de Laswell não o impeçam de vir.

O L.U.M.E. é uma orquestra portuguesa mantida viva pela coragem e pela criatividade de Marco Barroso. Os 15 músicos que a constituem tocam um “zapping” musical que incorpora leituras barrosianas do boogie-woogie ao rock. O primeiro disco foi uma excelente surpresa, com diversas formas musicais a entrarem na banda e a serem destiladas numa linguagem tipicamente jazzística. Uma óptima maneira de fechar o festival com músicos nacionais (finalmente) em destaque. 

Taxa de agravamento (TAEG incluída): 105 euros

Joelle Léandre por Walter Deixler 

Keiji Haino

Os mesmos de cima, mais: MMM Quartet: 8 de Agosto; Franz Hautzinger Big Rain: 6 de Agosto; Marc Ribot Ceramic Dog: 3 de Agosto

 

O MMM Quartet junta músicos extraordinários, com linguagens autónomas e originais. A presença de Alvin Curran no piano e na electrónica faz disparar o “rating”, pois a junção do contrabaixo de Joëlle Léandre com a guitarra eléctrica de Fred Frith é mais previsível e documentada. Para tornar as coisas ainda mais interessantes, o acrescento do saxofone de Urs Leimgruber monta um quarteto sem bateria e com três instrumentos tipicamente solistas. O resultado da união destas figuras cimeiras da improvisação prevê-se especial: música dura, agreste, sem pontos de ancoragem rítmicos ou melódicos, mas decerto com um mágico sentido de afirmação/resposta, jogo que se desenrolará num universo sábio e sofisticado.

O quarteto de Hautzinger traz vários pontos de interesse: como é que o diálogo entre o trompete do líder e a guitarra pesada e escura de Keiji Haino se ligará com o mundo oposto, luminoso, rítmico, do baixo de Jamaaladeen Tacuma e da bateria de Hamid Drake. Parecem dois universos irreconciliáveis, mas a junção ensaiada no festival de Saalfelden do ano passado deu boas indicações a Rui Neves. Haino é neste grupo o “joker”, a curiosidade, o elemento que não encaixa e isso pode obrigar a articulações imprevistas e fora dos terrenos confortáveis e habituais.

Marc Ribot visitou-nos pela primeira vez no início dos anos 1990, numa série de concertos no São Luiz que trouxeram até Lisboa a cena “avant-garde” nova-iorquina centrada na Knitting Factory. Na altura, o guitarrista cantava temas ácidos, dando corpo àquilo que parecia ser o seu universo mais querido, o das canções. Ribot toca com inúmeros grupos, desde os Black Keys a Tom Waits (passando por Marisa Monte, Dead Combo, Elvis Costello, etc.) e este papel de “sideman” agrada-lhe tanto que o seu grupo é apenas uma extensão deste mundo: toca canções rock abstractas, impulsionadas por uma batida forte e um baixo riffado, colocando os Ceramic Dog na descendência directa dos Massacre de Frith. 

Os bancos roubam, os governos também e eu vingo-me na música: 159 euros

Luís Lopes 

Marc Ducret

Todos os anteriores, mais: Luís Lopes Lisbon Berlin Trio: 5 de Agosto; Evan Parker & Matthew Shipp: 2 de Agosto; Marc Ducret Real Thing #3: 4 de Agosto; Fred Frith / Joelle Léandre / Hamid Drake: 7 de Agosto

 

Luís Lopes tem nova escala na viagem com o seu trio alemão. O baterista Christian Lillinger tem uma carreira notável enquanto líder, com uma linguagem rapidíssima, detalhada, capaz de ouvir e responder ou de assumir a liderança das ideias. O contrabaixista Robert Landfermann toca nos Grünen, um dos grupos de Lillinger. O grupo faz uma música forte e intensa, com a guitarra a assumir o papel solístico e a funcionar muito perto do rock.

O duo de Parker com Shipp será, com certeza, um dos momentos mais altos do festival e só não entrou para os bilhetes de primeira necessidade porque o JeA tem-nos permitido ouvir frequentemente estes dois músicos excepcionais. Parker revolucionou o papel do saxofone no jazz depois de Ornette e Shipp encontrou uma solução para desenvolver o gestualismo abstracto de Cecil Taylor no piano.

Marc Ducret fecha o livro que o inspirou na criação dos seus últimos trabalhos, feitos a partir de “Ada”, de Nabokov. Apresenta uma música com sentido orquestral, na qual os sopros são constituídos por três trombones, acompanhando o piano, o vibrafone e a guitarra eléctrica. Ducret é um guitarrista instável, com discos muito interessantes e outros fracos. Este projecto, que só conheço até ao segundo capítulo, é musicalmente rico, com uma escrita inteligente sem os barroquismos guitarrísticos que por vezes infectam a sua música.

Por fim, três dos músicos que ouvimos noutras formações reúnem-se para uma sessão de improvisação. Frith é dos músicos que mais me impressionaram de ouvir ao vivo em contextos de improvisação livre, pois sempre que o ouvi foi superior. Léandre idem e Hamid Drake já deu um solo numa edição anterior do festival, provando ser capaz de muito mais do que ser uma brutal máquina rítmica. 

A recuperação: 0 euros

Nem tudo o que é bom custa dinheiro e por isso, como habitualmente, o Jazz em Agosto oferece o visionamento de seis filmes, documentários e gravações de concertos, nos finais da tarde, no auditório 3.
“The Soul of a Man”, de Wim Wenders, romanceia factos históricos para explorar a tensão entre o profano e o sagrado nos blues, através das vidas de Skip James, Blind Willie Johnson e J.B. Lenoir. As músicas dos originais são refeitas por Cassandra Wilson, Nick Cave, Los Lobos, Eagle Eye Cherry, Vernon Reid, James Blood Ulmer, Lou Reed, Marc Ribot e The Jon Spencer Blues Explosion, entre outros. Dia 2 e 3 de Agosto.

“The Breath Courses Through Us” é um documentário deste ano de Alan Roth, sobre o New York Art Quartet. Dia 6 de Agosto.

“Dancing to a Different Drummer”, de Julian Benedikt, grava dois anos da carreira de Chico Hamilton. Dia 7 de Agosto.

“BasseContinue”,de Christine Baudillon, retrata na primeira pessoa a carreira musical de Joëlle Léandre e inclui extractos de concertos da contrabaixista. Dia 8 de Agosto.

“Step Across the Border”, de Nicolas Humbert e Werner Penzel, é um filme experimental que parte das técnicas de improvisação de Frith para construir uma narrativa de imagens em movimento. Vencedor do prémio para Melhor Documentário dos European Film Awards de 1990, é um filme sem narrativa, feito de quadros soltos. Dia 9 de Agosto.

Por fim, no dia 10 de Agosto, a gravação do concerto de Terje Rypdal com The Chasers no Jazz em Agosto de 1985. É provavelmente o melhor período musical do guitarrista, com realização de Oliveira Costa (RTP).

A investir, investe-se na vida. E este ano o JeA fornece-a com fartura...