Imaxina Sons, 4 de Junho de 2014

Imaxina Sons

O terceiro festival português

texto Rui Eduardo Paes

O também conhecido como Festival de Jazz de Vigo cumpre a sua 10ª edição de 26 de Junho a 5 de Julho próximos, com uma oferta que inclui o portuense Hugo Carvalhais, o Human Evolution Music Project de Alberto Conde e figuras como Dave Douglas (foto acima), Michael Wollny e Pierre Bastien. É já ali…

Vigo pode ficar do outro lado do rio Minho, mas podemos dizer que o seu festival de jazz, o Imaxina Sons, é o terceiro mais importante de Portugal, ao lado do Jazz em Agosto e do Guimarães Jazz. Curiosamente, é como que a intersecção de um e outro, pois comporta tanto as tendências mais vanguardistas como as mais “mainstream” deste género de música. Porque a cidade se situa apenas a uma hora da fronteira de Portugal com a Galiza e porque desde o início o evento agora programado pelo pianista e compositor Nani Garcia inclui formações portuguesas no seu cartaz. Por vezes, oh ironia, mais até do que em festivais do nosso país.

Pois está aí mais uma edição do Imaxina Sons, a 10ª, com um cardápio de estalo. Arranca a 26 de Junho no Auditório Municipal com o Marco Mezquida Trio, juntando-se ao virtuoso do piano de Menorca o contrabaixista sueco Marko Lohikari e o baterista argentino Carlos Falanga. A música que propõem é particularmente fresca, dentro da tradição do trio de piano jazz mas com toda a abertura própria de uma nova geração de músicos.

No mesmo local, segue-se a 27 o Gilad Hekselman Trio. Ainda pouco conhecido entre nós, o guitarrista israelita que o encabeça já se fez notado em Nova Iorque, onde habita e onde é habitual encontrá-lo ao lado de Mark Turner. Com ele estarão o “nosso” Demian Cabaud no contrabaixo e um húngaro cujo nome já está associado à bateria, Ferenc Nemeth. Espera-se um jazz suave, mas incisivo. 

De Coimbra para Vigo

Pierre Bastien 

Hugo Carvalhais

No dia 28, o mesmo auditório recebe o Alberto Conde – Shakir Khan Human Evolution Music Project, oferta no domínio do world jazz que combina elementos galegos, indianos e da música electroacústica. É o projecto “português” do mestre do piano de Vigo, pois foi em Coimbra que nasceu, numa residência artística no passado mês de Abril, a música que se vai ouvir e aí também que foi gravado o seu disco de estreia, a lançar pela lusitana JACC Records. De resto, o violetista conimbricense José Valente é um dos membros do grupo, juntamente com Xosé Miguélez (saxofone, flauta, gaita-de-foles), DJ BOULE (electrónica), Vikas Tripathi (tablas), Conde e o sitarista Shakir Khan, discípulo e filho do grande Ustad Shahiz Parvez Kahn.

A 30 de Junho o Imaxina Sons muda-se para o Marco, onde se poderá ouvir o inventor de instrumentos francês Pierre Bastien. O antigo colaborador de Pascal Comelade, Robert Wyatt, Jac Berrocal e Jaki Liebezeit apresentar-se-á com a sua orquestra de autómatos, a Mecanium. Parece música electrónica mas não é e mesmo quando não soa a jazz este anda por perto.

No primeiro dia de Julho será a vez do Bastien espanhol, Xavi Lozano, montar o seu teatro instrumental no Marco. O músico da Catalunha ganhou fama em colectivos como Bufa & Sons e Tactequé por fazer soar uma manga de rega como um oboé ou uma cadeira como uma flauta (!).

A 2, no mesmo local, tocam os Bruitage, idos de Barcelona. Trata-se do trio do saxofonista soprano inglês Tom Chant, elemento do Eddie Prévost Trio e também da Cinematic Orchestra, com o guitarrista e manipulador de electrónica Pablo Rega, por acaso nascido em A Coruña, e o percussionista Javier Carmona. Como o mundo é pequeno e a Península Ibérica ainda mais, este último já tocou com o lisboeta Carlos “Zíngaro”. Praticam uma improvisação experimental muito cinematográfica e até concretista, em que até o mais pequeno detalhe sonoro conta.

O dia 3 de Julho é português, com um regresso ao Auditório Municipal do Consello. O contrabaixista e compositor portuense Hugo Carvalhais leva ao cimo da colina o saxofonista lituano Liudas Mockunas, o mesmo que esteve há uns dias em Portugal com os Free Moby Dick, e o baterista dos seus Nebulosa, Mário Costa. A receita é a de um jazz europeu, com escrita cuidada e muito espaço para improvisar livremente.

Ainda a 3, na Praza da Constitución, possibilidade para assistir à actuação dos Sumrrá de Manuel Gutierrez (piano), Xacobe Martínez (contrabaixo) e L.A.R. Legido, todos de Compostela, mais os seus convidados: DJ Mil, Alberto Cereijo (guitarra), Iria Peña (canto de flamenco) e o quarteto de cordas Suelen Estar, natural de Vigo. Um jazz com pontes para outros estilos de música e carácter festivo, é o que se promete. 

Tudo serve

 Michael Wollny

Lucia Martínez

No dia 4 o Auditório Municipal será ocupado pelo alemão Michael Wollny, numa rara prestação a solo. Ainda muito jovem, é já um dos valores maiores do piano no Velho Continente. A particular abordagem que faz ao piano é marcada pela sua formação clássica e por uma clara paixão por luminárias como Bach, Schubert e Messiaen, mas também pela pop e pelo rock – de resto, toca frequentemente as suas próprias versões de temas destas áreas. Nas suas visões musicais não há distinções entre idiomas ou entre tendências jazzísticas. Tudo lhe serve para criar da mais bela música que hoje se vai fazendo.

A noite termina com nova incursão na Praza da Constitución, desta feita para apreciar outro pianista, o cubano Alfredo Rodriguez. A sua crescente importância tem sido comprovada pelos elogios que lhe dirige Quincy Jones, que o considera um génio, pelo facto de ter partilhado o palco com Chick Corea ou por em muitas das suas realizações ter a colaboração de Esperanza Spalding.

O fecho do festival a 5 de Julho acontecerá igualmente com uma dupla sessão. No auditório da Câmara estará o Lucia Martínez Berliner Projekt, com a baterista e vibrafonista galega que estudou na ESMAE do Porto e hoje reside na Alemanha a mostrar o seu quinteto germânico, formado por Ludwig Hornung (piano), Hannes Daerr (clarinetes, saxofone tenor), Silke Lange (acordeão) e Simon Quinn (contrabaixo). Ouvir-se-á uma mistura de jazz criativo com folclore galego, música contemporânea e muito Mediterrâneo.

A despedida chega na Constitución com o Riverside Quartet, que junta os figurões Dave Douglas (trompete) e Steve Swallow (baixo eléctrico) ao saxofonista Chet Doxas e ao baterista Jim Doxas. Inspirado em Jimmy Giuffre, o grupo inclui no seu caldeirão de materiais o bluegrass, o gospel e as canções dos Apalaches, tudo isto embalado com muita improvisação. Com um menu destes, será difícil não atravessar a ponte e ir até Vigo… Nós vamos.