Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, 30 de Abril de 2014

Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra

Oito em seis à 12ª

texto Rui Eduardo Paes

Com oito concertos em seis locais distintos de Coimbra, o festival da cidade do Mondego dá sinais de maturidade – cumpre-se a 12ª edição – e de uma cada vez maior relevância a nível local e nacional. São três os cabeças-de-cartaz, Matthew Shipp, Joachim Kuhn e Joelle Léandre, num programa que inclui novos valores e participações portuguesas. Tudo no fim-de-semana que vai de Maio a Junho…

Na sua 12ª edição, o festival de jazz da Cidade Universitária tem aquele que será, talvez, o seu programa mais variado de sempre, em termos de tendências deste género de música e de proveniências geográficas dos nomes incluídos – três continentes estão representados, o europeu, o norte-americano e o africano. Do mesmo modo, este será o ano em que o evento organizado pelo Jazz ao Centro Clube cobre mais locais do município, designadamente o Centro Cultural D. Dinis, o Museu Nacional Machado de Castro, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a Casa-Museu Bissaya Barreto, o Teatro Académico  de Gil Vicente e o Salão Brazil. Um indício, com certeza, de que os Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra conquistaram a cidade.

Para uma iniciativa de reduzida infra-estrutura, é de assinalar igualmente outra característica incomum do Jazz ao Centro de 2014: são três os cabeças-de-cartaz, Matthew Shipp, Joachim Kuhn e Joelle Léandre (foto acima, de Walter Deixler). O jazz e a música improvisada que por cá se praticam estão bem representados, com Chibanga Groove, a dupla Luís Antero / João Pais Filipe e o Lisboa String Trio, bem como a nova vaga de músicos que tem estado a refrescar o idioma, caso dos elementos do Théo Ceccaldi Trio e dos Free Moby Dick. É, decididamente, de ir… 

Luís Antero / João Pais Filipe: 29 de Maio | 19h00 | Centro Cultural D. Diniz

Luís Antero 

Luís Antero tem dedicado a sua actividade artística à recolha de paisagens sonoras em vias de desaparecimento, incidindo sobretudo sobre as regiões da Beira Serra e da Serra da Estrela. Seja por moto próprio (com eventual apresentação na série de “concertos para olhos vendados” que ocasionalmente promove) ou envolvendo-se em programas de preservação da memória colectiva, o também guitarrista tem desenvolvido um trabalho fundamental ao nível da documentação de um legado cultural, natural, ambiental e etnográfico de características únicas.

Mas não é só o mundo rural que lhe interessa: também os espaços industriais chamaram a sua atenção (Barreiro, numa colaboração com o Out.Fest que visa um relacionamento da noção de património com o experimentalismo musical) e, como nestes Encontros agora se dá testemunho, os urbanos. No caso, o levantamento das particularidades acústicas do centro histórico de Coimbra, numa iniciativa do Jazz ao Centro Clube.

A ideia é que os sons de uma zona muito específica da cidade, com uma comunidade residente própria e uma movimentação comercial e laboral viva sejam apresentados como música numa situação de concerto em que se mesclem com abordagens improvisadas do próprio Antero em guitarra preparada (isto é, com aplicação de objectos entre e sobre as cordas, para assim obter um léxico mais amplo) e com a percussão de João Pais Filipe. Este é um baterista com um trajecto cada vez mais visível nas músicas de carácter exploratório, ao lado de figuras de topo como Fritz Hauser, Burkhard Stangl, Alfred Harth, Marcello Magliocchi ou Carlos “Zíngaro”.

Assistiremos, pois, a uma actuação com pessoas dentro, as que estarão no palco e as que ouviremos nas gravações de rua com que os dois músicos vão interagir. Como se fosse um espelho transformativo, que reproduz a realidade mas a ela dá uma nova forma. 

Chibanga Groove c/ Ibrahima Galissa: 29 e 30 de Maio | 22h30 | Salão Brazil

Chibanga Groove 

O Chibanga Groove de Johannes Krieger é como que uma versão mais reduzida da Tora Tora Big Band, com a particularidade de esta formação transnacional nascida em Lisboa enfatizar as influências africanas – e tanto da África magrebina como da negra, mais a Sul – num jazz que se pretende festivo, muito físico e com mais espaço para a improvisação. Além do trompetista, compositor e arranjador alemão envolvido em várias orquestras portuguesas, encontramos músicos como Dan Hewson, Francesco Valente e João Rijo, todos eles parte importante da cena nacional, apesar das suas diferentes origens.

O convidado especial desta versão do grupo é um tocador de kora ligado à tradição mandinga e que podemos ouvir com os suíços Taffetas e com Maio Coope. O guineense Ibrahima Galissa está habituado a ligar os procedimentos griot com o jazz e mais uma vez tal se repete neste projecto que pretende devolver ao género de música nascido nos Estados Unidos a sua natureza popular e mestiça, numa fórmula multicultural que abraça tanto as convenções históricas como os factores progressivos da contemporaneidade.

Tudo isto segundo a particular visão de Krieger, músico que se destacou em contextos tão diversos quanto os projectos que partilhou com Nuno Rebelo, Alípio C. Neto, Ricardo A. Freitas, Tito Paris, Amélia Muge e Yuri Daniel e que muito contribuiu para elevar a qualidade do nosso “bigbandismo” para o patamar em que actualmente se encontra. Os dois concertos de Chibanga Groove & Ibrahima Galissa no Jazz ao Centro serão gravados, para posterior edição em disco pela JACC Records. 

Matthew Shipp: 30 de Maio | 19h00 | Museu Nacional Machado de Castro

Matthew Shipp 

O seu mais recente disco, “Piano Sutras”, é já considerado um marco do jazz pianístico, daqueles que ficarão para a história e que ouviremos com igual prazer daqui por 20 ou 40 anos. Pois é esse mesmo repertório que Matthew Shipp, parceiro de David S. Ware e Roscoe Mitchell até encetar uma profícua e muito aplaudida carreira em nome próprio, apresenta em Coimbra, num formato de que é um dos maiores cultores: a sós com um piano de cauda.

Músico visionário, dos mais importantes do nosso tempo, tem uma obra que é inovadora sem cortar laços com a tradição do piano jazz, considerando mesmo a crítica especializada que vem fornecendo o elo em falta entre Bill Evans e Cecil Taylor. Com um estilo muito pessoal e uma enorme técnica, o que nele sobressai é a fértil imaginação sonora, um pronunciado, mas pouco ortodoxo, lirismo e uma espiritualidade que hoje vai sendo rara. As peças em apresentação são curtas (e daí o nome “sutra”, designação de uma antiga forma literária indiana), assim ganhando um carácter mais afirmativo, sempre em torno de uma ideia que é exaustivamente analisada sem recorrer ao normal tipo de estruturação “tema e variações”, o que desde logo implica uma diferente relação do composto com o improvisado.

Essa característica mantém-se quando pega em temas de terceiros (John Coltrane e Wayne Shorter em “Piano Sutras”): respeitando integralmente os originais, dá-lhes não só uma outra vida como os transforma na sua própria música. Por sua vez, ao atirar-se a uma improvisação integral, o que ouvimos parece ter sido escrito, tal o nível de complexidade e de “acabamento” a que consegue chegar. Um concerto, pois, que muito promete, de um dos grandes do jazz verdadeiramente criativo. 

Théo Ceccaldi Trio c/ Joelle Léandre: 31 de Maio | 19h00 | Mosteiro de Santa Clara-a-Velha

Théo Ceccaldi Trio 

Joelle Léandre com o Théo Ceccaldi Trio? Exacto. Tal como se ouve no álbum “Can You Smile?”, aquela que é uma das principais referências do avant-jazz e da música improvisada da Europa e do mundo reconheceu em Théo Ceccaldi, Valentin Ceccaldi e Guillaume Aknine uma frescura que estava a fazer falta. São nomes em destaque de uma nova geração de improvisadores franceses que já ultrapassaram o estatuto de “promessas” para serem o que de mais cativante acontece hoje na cena de Paris, e Léandre tem-nos apoiado desde o início – foi ela quem propôs “Carrousel”, o disco de estreia do grupo, à Ayler Records. Este trio de cordas oferece uma perspectiva do jazz de câmara que já nada tem a ver com a corrente “third stream” e seus derivados, contaminada que está, em igual grau, pelas formas criativas abertas pelo free jazz e pelo rock alternativo ou “de arte”.

Se momentos há em que parece estarmos a ouvir música contemporânea, e outros em que “feedbacks” de guitarra em modo punk/metal surgem em contradição com o que de mais se passa, o certo é que a estética abraçada é a da improvisação. Neste domínio, Léandre age, muitas das vezes, como instigadora das situações, desafiando os jovens músicos a mostrarem todo o seu valor. Fá-lo com um saber acumulado de experiências com luminárias como Steve Lacy, Anthony Braxton, Derek Bailey, Evan Parker e tantos outros, incluindo os portugueses Carlos “Zíngaro” e Carlos Bechegas.

Deste encontro resulta uma música para cordas tocadas com arco, dedilhadas ou percutidas que tem a marca do século XXI, ou seja, que foge aos cânones mas abraça as mais díspares influências. Com a vantagem adicional de que nos convida a sentir a música com a pele, mais do que a decifrá-la com a cabeça. Não precisamos de “compreender”, só de ouvir. 

Joachim Kuhn: 31 de Maio | 22h00 | Teatro Académico de Gil Vicente

Joachim Kuhn 

No ano em que comemora o seu septuagésimo aniversário, um dos patriarcas do jazz honra-nos com um solo de piano em que todo o seu percurso (ou quase: de fora deixa o período jazz-rock, que não lhe deixou boas memórias) e todos os seus interesses se reflectem, desde a paixão por Bach à sua natural inclinação para improvisar sem margens nem limites que não os do seu talento – que é enorme, ou não fosse um virtuoso de dotes absolutamente extraordinários.

Músico alemão radicado em Ibiza, Espanha, mas estreitamente ligado àquilo que ficou conhecido como “jazz francês” devido à identidade muito própria deste, Joachim Kuhn representa uma boa parte da história do jazz. Tocou com músicos americanos chave de várias tendências nas suas passagens pelo Velho Continente, de Phil Woods a Don Cherry. Esteve com Daniel Humair, Jean-François Jenny-Clarke, Michel Portal e Jean-Luc Ponty na definição de um (na verdade, vários) modo europeu de entender o jazz. Contribuiu para a fusão numa estadia nos Estados Unidos em que colaborou com Michael Brecker, Eddie Gomez e Billy Cobham. O free deve-lhe alguns substanciais avanços que culminaram em aplaudidas parcerias com Ornette Coleman e Archie Shepp. Até na área do world jazz tem deixado a sua marca, seja ao lado de Rabih Abou-Khalil como a mergulhar nas tradições africanas e a traduzir as suas formas em híbridos especialmente criativos.

Flexível e avesso a constrangimentos estilísticos, em todas as suas múltiplas orientações Kuhn conseguiu sempre manter a sua maneira de entender a música e o piano. Logo à quinta nota é possível reconhecer a sua maneira única de tocar, cheia de reminiscências clássicas, um “swing” que vem directamente do bebop e uma irreverência que tudo coloca em causa – inclusive o conceito de vanguarda. 

Stefan Pasborg Free Moby Dick: 31 de Maio | 24h00 | Salão Brazil

Stefan Pasborg 

Dois músicos dinamarqueses, o próprio Stefan Pasborg e Nicolai Munch-Hansen, um finlandês, Mikko Innanen, e um lituano, Liudas Mockunas, são os membros deste muito sui generis quarteto de free jazz, e isso porque o projecto se dedica exclusivamente a fazer “covers” de temas da história do rock. Ouvir Black Sabbath, Led Zeppelin e Rolling Stones tocados por dois saxofones, baixo eléctrico e bateria é o que menos se pode esperar, mas a tal objectivo se dedicam os Free Moby Dick de Pasborg sem medo das consequências. “Black Dog” e “Paint it Black” são tocados de maneira muito diferente da que normalmente acontece com os “standards” de jazz, os “riffs” servindo como factores de contraste.

Ao vivo, este grupo levanta literalmente a assistência das cadeiras. No alinhamento pode surgir uma canção de Tom Waits ou dos White Stripes e se o reconhecimento de uma melodia e de uma batida funciona como um elemento de imediata ligação do ouvinte com a música, o tratamento que lhes é dado introduz um factor de estranheza, obrigando os ouvidos a abrirem-se e a darem atenção. O que é inteligente e ao mesmo tempo divertido.

Mas não é só uma questão de arranjos. Os Free Moby Dick fazem com o rock o que Albert Ayler fazia com as marchas militares – utilizam-no para improvisar. O que importa realmente são as improvisações, as formas como uma linha melódica, um padrão rítmico são transmutados, decompostos, virados do avesso, abusados. Nisso, Pasborg é um dos melhores na Europa, tendo já tocado com gente ilustre como John Tchicai, Ellery Eskelin, Tomasz Stanko, Ray Anderson, Palle Danielsson, Tim Berne e Miroslav Vitous. 

Lisboa String Trio: 1 de Junho | 18h00 | Casa-Museu Bissaya Barreto

José Peixoto 

O trio de José Peixoto, Carlos Barretto e Bernardo Couto tem um mote muito concreto: fazer com que o epíteto “jazz português” signifique mais do que “jazz tocado em Portugal”. O que procura é um jazz de cores lusitanas, alimentado pelas músicas populares e tradicionais do País, com destaque para o fado e para as influências célticas e mediterrânicas decorrentes da nossa localização geográfica. Numa perspectiva necessariamente subjectiva, com a ideia de constituir uma nova expressão dessa sensibilidade intemporal que, mesmo indefinida, reconhecemos como especificamente nossa.

José Peixoto está no eixo desta equação entre o jazz e a portugalidade, pois tem desenvolvido a sua actividade nos dois domínios. Se as suas composições denotam a influência de um certo jazz guitarrístico, o de Ralph Towner e John McLaughlin, o modo como toca a guitarra decorre dos preceitos do oud, alaúde árabe que é tocado como um instrumento melódico, que não harmónico. Além disso, engloba aspectos, ressonâncias, dos usos musicais que atravessam o Sul de Portugal e de Espanha. De um lado tem Carlos Barreto, um dos nossos mais importantes contrabaixistas de jazz, sólido na gramática do bebop mas alargando-se para perspectivas mais abertas, e do outro Bernardo Couto, discípulo de Pedro Caldeira Cabral e Ricardo Rocha que, como estes, procura levar a guitarra portuguesa para o âmbito da música de câmara.

O Lisboa String Trio tem algo de dois outros projectos, o grupo El Fad de Peixoto e o duo que Barretto mantém com António Eustáquio, mas o investimento é agora outro, mais focado na caracterização de um tipo de jazz que ainda não tomou forma, mas com este contributo parece estar em vias disso.