MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 23 de Abril de 2014

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

A Babilónia do Oeste

texto Rui Eduardo Paes

A quinta edição do “congresso” dos improvisadores decorre de 30 de Maio a 1 de Junho próximos na freguesia de Peniche que tem chamado a atenção de músicos de todo o mundo. Durante esses dias, Atouguia da Baleia terá mais umas dezenas de habitantes a falarem várias línguas…

Realiza-se a 30 e 31 de Maio e 1 de Junho a quinta edição daquele que os improvisadores portugueses consideram o seu “congresso”, o evento que anualmente reúne figuras da área do jazz e da livre-improvisação para uma troca de experiências que em mais ocasião alguma conseguem realizar. O formato é o mesmo – a intercalação de grupos fixos e formações estabelecidas por sorteio –, mas em vez de tudo se concentrar, como nos quatro anos anteriores, na Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro (foto acima), de Atouguia da Baleia, em Peniche, o MIA estende-se desta vez também para a Igreja de S. José, a Casa da Tauria e o Armazém dos Tubos.

Todas as sessões estão abertas ao público e só fazem sentido com a participação de uma assistência que varia entre locais e pessoas que vêm de fora, mas esta é a festa anual dos próprios músicos, e foram mais de 80 os que responderam ao “open call” do Encontro, entre nacionais e estrangeiros. Não há “cachets” e quem se desloca a Peniche fá-lo a expensas próprias, venha de Lisboa, do Porto, de Coimbra ou de outros pontos do mundo. São esperados improvisadores de países europeus como Inglaterra, Itália, Suíça e Áustria e até de outros continentes, como Japão e Brasil.

Diz o multi-instrumentista Paulo Chagas, um dos organizadores do evento (juntamente com Fernando Simões, seu parceiro no grupo PREC): «Tem sido excelente sentir toda esta generosidade por parte dos improvisadores, bem como toda a sua vontade de tocar com outros e conversar com outros, tudo num fantástico clima de partilha. Surgem lado a lado diferentes gerações da música improvisada, músicos mais velhos e mais jovens, mais rodados e menos rodados. Têm-se corrido riscos, mas os momentos menos bons foram raríssimos.»

Estarão em Atouguia da Baleia os percussionistas Marcello Magliocchi e Naoto Yamagishi, os violinistas Matthias Boss e Mia Zabelka, o violoncelista e contrabaixista Maresuko Okamoto, o saxofonista Christophe Berthet, o inventor de instrumentos Marco Scarassatti, o baixista Raphael Ortiz, o clarinetista Noel Taylor, a pianista Gloria Damijan e nomes como Samuel Halkvist, Hilaria Kramer, Dario Nitti e Louis Schild. Entre os portugueses, responderam à chamada Carlos “Zíngaro”, Paulo Curado, Abdul Moimême, os irmãos Bruno Parrinha, Maria Radich, Manuel Guimarães, Jorge Lampreia, João Pedro Viegas, Maria do Mar, Pedro Castello Lopes, Gil Dionísio, Fernando Guiomar, Bernardo Álvares e algumas dezenas de outros. 

Respeito e reverência

Mia Zabelka 

Ou seja, o sucesso do Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia foi crescendo de edição para edição e a iniciativa chamou a atenção de outros países. Chagas: «Tornou-se num evento incontornável, o que nos deixa encantados. O respeito e o entusiasmo com que se fala do MIA lá fora é absolutamente fantástico. Ainda há dias estive em Barcelona e senti precisamente esse respeito e reverência junto da comunidade local. Cada vez mais músicos estrangeiros querem vir, talvez devido à forma séria e rigorosa com que tratamos de tudo, embora num ambiente bastante descontraído. Temos igualmente consciência de que algo assim não poderia acontecer numa grande cidade. Ainda que beneficiemos do facto de estar relativamente próximos de Lisboa, a verdade é que numa terra pequena as coisas ficam mais próximas e há um maior espírito de intimidade.»

O certo é que o exemplo do MIA já germinou em outras geografias, casos do Donau/Tejo em Viena e do Encontro de Costas em Belo Horizonte. Além disso, a existência do MIA está a ter consequências na própria música que se faz em Portugal…

«Certo, e daí que o violoncelista Miguel Mira refira que “o MIA é o Woodstock dos improvisadores”. Não é exagero afirmar-se que existe um “antes” e um “depois” do MIA. Há músicos que tiveram aqui a sua verdadeira entrada no universo da improvisação livre. O contrabaixista Miguel Falcão disse que aprendeu “mais num dia na Atouguia do que em vários anos no Conservatório” e isso é significativo. O Encontro tem permitido também separar o trigo do joio. Estou a falar de músicos que, apesar da sua competência técnica, acabaram por se afastar por não serem propriamente intérpretes genuínos deste tipo de abordagem estética. O MIA ajudou-os a perceber isso, a encontrarem a sua linguagem natural. E ainda há alguns para quem o MIA serviu para se mostrarem, para virem à pesca… Entretanto, sei que já nasceram aqui diversos projectos. Para dar apenas dois exemplos: o trio Curado / Viegas / “Zíngaro” e o também trio Damijan / Moimême / Ortiz.»

O MIA de 2014 arranca no início da tarde de sexta-feira 30 de Maio com uma das suas principais vertentes, a pedagógica. Carlos “Zíngaro” dará uma “masterclass” subordinada ao tema “As Músicas (Im)possíveis Hoje”, com apresentação final em concerto, no Auditório da Sociedade Filarmónica, marcada para as 19h00. Às 22h00, na bonita Igreja de S. José, actua o duo feminino constituído por Maria Radich e Luísa Brandão. Pela meia-noite, nova mudança de cenário: o Armazém dos Tubos recebe a primeira MIA Party – é aí que terão lugar as “jam sessions”. 

Mais atrás ainda

Maresuke Okamoto 

No dia 31, a maratona de acontecimentos tem início às 15h30 para entrar pela madrugada dentro. Na Filarmónica intervém primeiro o Lessintellective Audiovisual Ensemble, colectivo que junta os percussionistas Dario Nitti e Antonio Valente e o saxofonista Bruno Parrinha ao fotógrafo Claudio Nitti, que projectará as suas imagens no fundo do palco. Logo de seguida, começa o sorteio de trios, quartetos, quintetos e o mais que se proporcionar…

«A criação de grupos no próprio instante é um dos desafios que os músicos mais gostam de enfrentar. Até os integrantes dos projectos fixos acabam quase sempre por nos pedir para entrar nos sorteios. É uma coisa aliciante. Os grupos convidados também são fundamentais, porque a coabitação desses dois formatos (e de ainda outro, que são os Ensembles MIA, envolvendo todos os participantes) cria uma dinâmica que seria impossível de alcançar com uma linha única. No fundo, é seguir o cerne da própria improvisação – combinar o que é previsível com o que não é. No caso dos sorteios, inspiramo-nos de certo modo no modelo das Company Weeks de Derek Bailey. Se bem que o método de improvisar com músicos ocasionais seja uma tradição muitíssimo anterior às Company Weeks. Basta pensarmos no que se fazia no tempo do ragtime ou nas primeiras rodas de choro do século XIX. Ou mais atrás ainda: na Idade Média, a prática da música profana (sobretudo instrumental) incluía uma forte componente de improvisação espontânea entre intérpretes que se reuniam muitas vezes ao acaso. Isto para falar só do mundo ocidental, porque noutros quadrantes o processo é ainda mais ancestral», comenta Paulo Chagas.

Às 19:00, na Casa da Tauria, toca a Fanfarra Bizarra, formação conduzida pelo trombonista Fernando Simões que incide, sobretudo, em sopros e percussão, mas conta também com o violinista Gil Dionísio. À noite, pelas 22h00, e de regresso à Sociedade Filarmónica, participa a apropriadamente chamada Camerata Nocturna, com Carlos “Zíngaro”, Maria do Mar, Christophe Berthet, Maria Radich e Fernando Guiomar. Logo a seguir, acontece o primeiro “tutti”, com o Ensemble MIA a ser dirigido por um dos condutores escalados para o efeito, Paulo Curado, João Pedro Viegas e Gloria Damijan. De madrugada, nova MIA Party.

No domingo 1 de Junho a hora em que se iniciam os trabalhos é a mesma, 15h30, com a prestação do grupo de guitarras e baixos D.O.M.S. São eles Paulo Duarte, Abdul Moimême, Raphael Ortiz e Louis Schild. Seguem-se os grupos combinados ao acaso e quando soarem as 19h00 muda-se para a vizinha Igreja de S. José para ouvir e ver o Red Ensemble. Vão integrá-lo os miúdos que frequentarão um “workshop” de construção de instrumentos a decorrer no Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia por ocasião do Dia Mundial da Criança, com coordenação de Manuel Guimarães e o acrescento de “gente crescida” como Marco Scarassatti, Carlos “Zíngaro” e Paulo Curado, entre outros. 

Um público fiel

Paulo Curado 

Pelas 22h00 regressa-se à Sociedade Filarmónica para ouvir o transnacional Instant Chamber Music de Marcello Magliocchi, Maresuko Okamoto, Matthias Boss e Paulo Chagas. O Encontro termina com o Ensemble MIA, em apoteose – isto é, com dimensões orquestrais.

Isto é o que acontecerá nos três dias agendados, mas há sempre mais MIA antes e depois do MIA: «Desde o primeiro ano que sentimos necessidade de fazer com que o Encontro de Atouguia da Baleia não se resumisse a um fim-de-semana anual. Ainda em 2010 realizámos em Setembro o Baleal Impro Fest e em Outubro um concerto do Ensemble MIA na Trem Azul. Desde então tem havido sempre diversos concertos, tanto em Atouguia como fora. Desde Junho do ano passado iniciámos o ciclo Música ao Ocaso, que tem acontecido mensalmente e, para a edição deste ano, já realizámos dois concertos do P.R.E.C. em Janeiro e um do Improchamber 8 em Março. No próximo dia 26 de Abril vamos com o Ensemble MIA à Ler Devagar, em Lisboa.»

O balanço é, pois, «extremamente positivo». Conclui Chagas: «Continuo a surpreender-me com todo este crescimento, que não era de todo expectável. Até em termos de atracção do público. No que respeita a este género musical, a audiência nunca é especialmente numerosa em qualquer parte do mundo, o que tem sobretudo a ver com o cada vez maior embrutecimento cultural a que estamos sujeitos por efeitos da globalização, massificação e ditadura mediática. E no entanto, a população da Atouguia tem vindo a desenvolver um certo gosto pela música improvisada nos últimos quatro anos. Existe um público fiel. Ainda há umas semanas voltámos a encher a Igreja de S. José na apresentação do Improchamber 8.»

 

Para saber mais

http://mia-festival.blogspot.pt/