Festa do Jazz, 20 de Março de 2014

Festa do Jazz

Alimento para os ouvidos

texto Rui Eduardo Paes

Ao décimo segundo ano da sua existência, o grande festival do jazz português volta ao S. Luiz para dois dias de celebração musical do particular dinamismo que por cá se vive nesta área da criação musical. Um “buffet” com muitos pratos (foto acima: João Hasselberg por Mariana Sabido)…

Na sua 12ª edição, a Festa do Jazz volta a ocupar vários espaços do Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, com o melhor que se vai fazendo em Portugal na área do jazz, juntando na programação alguns convidados de outros países. Curiosamente, é no Hot Clube de Portugal, a 4 de Abril, que se faz a abertura do festival, com um concerto que reúne Victor Zamora, Carlos Barretto e José Salgueiro. O concerto funcionará como a entrada de uma (na verdade duas, porque são dois os jantares) refeição com vários pratos.

Menu de sábado

Jeffery Davis 

O painel de concertos começa no sábado 5, pelas 17h00, no Teatro-Estúdio Mário Viegas, com a apresentação do álbum “Nascem da Terra” do Daniel Bernardes Trio + 1. Este “+ 1” deve-se à circunstância de, ao tradicional combo constituído pelo pianista Daniel Bernardes com António Quintino (contrabaixo) e Joel Silva (bateria), se juntar o violoncelo de Raquel Merrelho. A música que se promete é a que se encontra no disco: uma exploração intimista e lírica das combinações tímbricas em presença.

Segue-se às 18h00, no mesmo local, o Miguel Moreira Sexteto, juntando-se ao guitarrista que lidera o projecto dois saxofonistas, João Mortágua e Mário Santos, um pianista, Alexandre Dahmen, um contrabaixista (e baixista eléctrico) histórico, Pedro Barreiros, e um baterista, José Marrucho. O repertório é o do CD “Câmbio”, num compromisso entre composição e improvisação.

Às 19h30, a Festa do Jazz muda-se para a sala principal do S. Luiz, onde terá lugar uma prestação do Nuno Ferreira Septeto. A guitarra do líder conjugar-se-á com uma frente de sopros formada por João Mortágua (que transita do concerto anterior), Chris Case (trompetista americano residente em Madrid) e Luís Cunha (trombone), e com a secção rítmica providenciada por Gonçalo Moreira (piano), João Hasselberg (contrabaixo) e Joel Silva, este também em repetição. O projecto pretende «prestar tributo a diversas eras do jazz».

A noite mantém-se na Sala Principal, com a subida ao palco, às 21h30, de “Whatever it is You’re Seeking Wont Come in the Form You’re Expecting”, um dos discos de 2013 na opinião da crítica especializada. À frente do noneto está João Hasselberg, que não só se tem distinguido como um dos nossos melhores contrabaixistas como também revelou os seus dotes de compositor com ideias próprias. Com ele estarão Ricardo Toscano (saxofone alto), Diogo Duque (trompete), as vozes de Joana Espadinha e Luísa Sobral, as guitarras de Afonso Pais e João Firmino, Luís Figueiredo (piano) e Bruno Pedroso (bateria). O disco foi já descrito como uma «banda sonora cinematográfica para clássicos da literatura do século XX», incluindo elementos da folk e da pop.

Segue-se, às 23h00, o Jacob Sacks Ensemble, com o pianista americano a conduzir um septeto português. Ricardo Toscano e Diogo Duque tocam mais uma vez nesta edição do festival, mas os restantes elementos estreiam-se nesta edição do evento programado por Carlos Martins, todos eles pertencendo a uma nova geração de “jazzistas” nacionais: o acordeonista João Barradas, o guitarrista Pedro Branco, o contrabaixista Romeu Tristão e o baterista João Pereira. O concerto será o resultado de uma semana de residência artística.

Os “after-hours” acontecem no Bairro Alto, e mais exactamente no Teatro do Bairro, às 00h30, com Brainstorming, banda fundada por alunos da Escola Superior de Música de Lisboa, designadamente André Murraças (saxofone tenor), de novo João Barradas, Gonçalo Neto (guitarra), André Rosinha (contrabaixo) e Marcelo Araújo (bateria). A escolha tem uma boa justificação: este é o mesmo quarteto que em 2013 venceu o concurso de melhor grupo das escolas superiores de música.

Menu de domingo

Joana Sá 

Às 17h00 de domingo, 6 de Abril, volta-se ao Teatro-Estúdio Mário Viegas para uma actuação do Powertrio de Eduardo Raon (harpa, electrónica), Joana Sá (piano, electrónica) e Luís José Martins (guitarra, electrónica). Trata-se de uma formação de música livremente improvisada, com fortes influências eruditas, sendo de assinalar as ligações com o jazz propriamente dito de Raon, colaborador frequente de Maria João, e o facto de Joana Sá a solo e a mesma com Luís José Martins em duo terem assinado duas edições que estiveram igualmente entre as preferidas do ano que passou, respectivamente “Elogio da Desordem” e “Almost a Song”.

Depois, pelas 18h00, continua-se no mesmo espaço com os Lift Off de Jeffery Davis e Óscar Graça, o primeiro um vibrafonista canadiano radicado no Porto, o outro um pianista igualmente portuense cujo nome já é uma referência. Com eles ouviremos Nelson Cascais no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria. A flexibilidade é uma das linhas de força do quarteto.

Segue-se às 19h30, na Sala Principal, um novo projecto do guitarrista e compositor André Fernandes, “Wonder Wheel”. Reunido à volta do canto de Inês Sousa, trata-se de uma fórmula de pop-jazz com o refinamento a que Fernandes já nos habituou, com o suporte de alguns dos mais fortes nomes da cena lusa, a saber o pianista Mário Laginha, o contrabaixista Demian Cabaud e o repetente Alexandre Frazão. Um álbum com o mesmo título começará a circular na altura.

A Festa do Jazz prossegue às 21h30 com o regresso de um clássico, o grupo Ficções do guitarrista Rui “Dudas”, fundado há mais de 20 anos. Nesta encarnação, apresentam-se em cena Guto Lucena (saxofones soprano e alto, flauta), João Paulo Esteves da Silva (piano), Miguel Amado (contrabaixo, baixo eléctrico) e Carlos Miguel (bateria). Espera-se um jazz tintado de um “folclore imaginário” com influências ibéricas, árabes e africanas, com “Dudas” a utilizar, ocasionalmente, um oud, o alaúde magrebino.

Ainda na Sala Principal, às 23h00, vez para o Steffen Schorn “Universe of Possibilities”, um ensemble de 12 elementos na intersecção do jazz com a música dita clássica. O saxofonista alemão estará em residência com João Guimarães (saxofone alto), Paulo Gaspar (clarinetes soprano e baixo), Ricardo Santos (fagote), Dina Hernandez (flautas), Ana Filipa Serrão (violino), Joana Cipriano (viola), Ana Cládia Serrão (violoncelo), André Santos (guitarra) e os antes “rodados” Óscar Graça, Nelson Cascais e Bruno Pedroso, e o que se ouvir será o resultado do trabalho a desenvolver.

Já de madrugada, pela 1h00, toca no Jardim de Inverno o Ensemble de Jazz do Conservatório de Música da Jobra, premiado em 2013 no concurso de combos das escolas de música não superiores. Isso depois de o júri da competição deste ano (Paulo Barbosa, Carlos Barretto e Leonel Santos) anunciar os vencedores de 2014. Estarão estes entre os seguintes candidatos, que farão actuações públicas a partir das 14h30 nos dois dias do festival: Academia de Música de Alcobaça, Escola de Jazz do Barreiro, Escola de Jazz Luís Villas-Boas/Hot Clube de Portugal, Interartes Cascais, Sítio de Sons de Coimbra, Conservatório-Escola Profissional das Artes da Madeira, JBJazz de Lisboa, Conservatório de Música da Jobra, Academia Municipal das Artes da Nazaré, Tone Music School de Coimbra, Academia Valentim de Carvalho do Porto, Conservatório de Música de Coimbra, Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, Escola Superior de Música de Lisboa e Universidade Lusíada de Lisboa.

No meio de tanta oferta alimentícia para os ouvidos, o que vai ser difícil é satisfazer o estômago. Quem quiser comer algo terá necessariamente de falhar algum item deste longo cardápio…

 

Para saber mais

http://www.teatrosaoluiz.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=408