Guimarães Jazz, 1 de Outubro de 2013

Guimarães Jazz

Voltar à terra

texto Gonçalo Falcão

Que é como quem diz, voltar a Guimarães para ouvir o jazz do seu festival, um dos mais importantes de todo o País. A oferta é de peso, não só porque o programa oferece quatro “big bands”, mas também porque estarão presentes nomes grandes como Jack DeJohnette, Don Byron, Ron Carter, John Abercrombie e Martial Solal.

O Guimarães Jazz é um dos momentos mais importantes do ano jazzístico nacional. Mais do que um grande festival de jazz, é razão suficiente para fazer uma pausa em dois fins-de-semana cheios de música, aproveitando o verão de São Martinho numa cidade magnífica.

Antes da música, a primeira imagem do evento é precisamente essa: a do sol de Inverno com as suas sombras muito recortadas, do verde intenso das ervas cheias de água e do contraste entre uma cidade com uma escala agradabilíssima, que se faz toda a pé, e a contemporaneidade da arquitectura do Centro Cultural Vila Flor. Em Novembro está-se lindamente em Guimarães, e por esse motivo – como pela qualidade da música em oferta - o festival atrai um enorme número de visitantes à cidade.

Sem surpresas, o programa da edição de 2013 segue a já conhecida matriz de apresentar jazz de boa qualidade que parte do modelo tradicional e do acasalamento com outras músicas. Este ano as “big bands” estão em força, particularmente intensas na primeira semana. 

Da exuberância à delicadeza

Chano Domínguez 

Ron Carter

Martial Solal

O Guimarães Jazz abre na quinta-feira 7 de Novembro com a “big band” da WDR (serviço público de rádio da Alemanha), conduzida por Vince Mendonza. É o regresso desta unidade a Guimarães com o mesmo condutor, mas com um solista convidado diferente. Já a ouvimos ao vivo com Peter Erskine e agora vem o pianista Chano Domínguez, num contexto de que Mendoza gosta particularmente (“jazzpaña”): a mistura da exuberância da orquestra com o flamenco cubista de Chano.

No dia seguinte, 8, regressa também Ron Carter, mas desta feita em trio. Já o tínhamos ouvido em 2004 com o Golden Striker Trio. Carter é um “sideman” indispensável que se tornou mundialmente celebrado a partir do momento em que participou numa das formações míticas da história do jazz: o segundo quinteto de Miles Davis.

Não é só pela história (que, como já ouvimos frequentemente, não faz a música) que vale a pena ir ouvir Carter: enquanto líder tem discos fantásticos (exemplos: “Where”, “Piccolo”) e o álbum de 2003 que apresenta este trio ouve-se com muito prazer. A morte em Maio passado de Mulgrew Miller transformou o grupo, que agora conta com Donald Vega ao piano, mantendo-se Russell Malone na guitarra. Espera-se música de uma enorme delicadeza e qualidade.

As sessões de sábado, dia 9, abrem à tarde, também em trio, com o grupo de Ivan Paduart: piano, contrabaixo e bateria. Não é só esta instrumentação que evoca Bill Evans, mas também a forma de tocar e compor de Paduart, que referencia no jazz mais tradicional as suas peças pouco individualizadas, mas pensadas para uma audição acetinada e muito acessível.

O pianista já colaborou e gravou com alguns nomes conhecidos do grande público como Richard Galliano, Manu Katché e Philip Catherine, o que é um referencial de competência, ainda que dificilmente este concerto traga novidades musicais.

O concerto da noite faz-se com a Martial Solal Decaband. O veterano compositor e virtuoso do piano francês também já pisou o palco do Guimarães Jazz e desde 2006 que escreve para este decateto com uma instrumentação que funciona pelo contraste entre o instrumento do líder e os metais (dois trompetes, dois trombones, trompa e tuba). Uma música sofisticada, com composições angulosas (evocando algum do material para orquestra de Frank Zappa), que podemos ouvir antecipadamente em “Exposition sans tableau”. Os solistas ocupam um espaço significativo no corpo dos temas, contrastando as improvisações com a extrema organização e o rigor na entrega da música escrita.

O domingo, último dia da primeira semana, oferece igualmente uma dose dupla. A organização do festival tem querido manter colaborações sólidas (ESMAE e TOAP), pelo que voltamos à “arte da big band” com a orquestra da portuense Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, reforçada por um ensemble de cordas e pelo coro do mesmo estabelecimento de ensino a executar composições de Andrew D’Angelo.

À noite teremos o também já habitual projecto TOAP / Guimarães Jazz. Uma parceria que dá a oportunidade anual a esta editora discográfica portuguesa de convidar um grupo de músicos para gravar ao vivo um CD que é lançado no ano seguinte. O convite foi agora endereçado ao jovem saxofonista João Guimarães. 

Jovens e veteranos

Andrew D'Angelo 

Jack DeJohnette

John Abercrombie

O Guimarães Jazz tem pretendido que os músicos não deixem apenas a memória dos seus concertos. Por isso, todos os anos, convida um dos visitantes a organizar um “workshop” de uma semana para os estudantes e músicos nacionais. Andrew D’Angelo é o responsável pelo de 2013 e a sua banda assegurará algumas “after-hours” no bar do Centro Cultural Vila Flor.

Poderemos ainda ouvi-la num contexto mais formal, pois abrirá a segunda semana do certame, que recomeça logo na quarta-feira. Estes jovens músicos têm propiciado agradabilíssimas surpresas ao longo de várias edições, pelo que estamos curiosos para ouvir o que a nova fornada tem para dizer. Não são propriamente desconhecidos, pois com o saxofone alto e o clarinete baixo de D'Angelo estarão John Egizi no trombone, Ben Street no contrabaixo e Gerald Cleaver na bateria.

Na quinta-feira, dia 14, realiza-se outro dos momentos altos do cartaz, com o Jack DeJohnette Group tendo Don Byron como convidado especial. Nunca me cansei do som do baterista e a ideia de o juntar a Byron é especial, pois retira-o da previsibilidade que caracterizou as suas últimas gravações.

O clarinetista teve um início de carreira interessantíssimo com um disco excepcional (“Tuskeegee Experiments”, 1992) e uma das suas principais características é, precisamente, a de desafiar qualquer tipo de categorização. Entre a vanguarda e um classicismo atávico, Byron move-se em territórios muito próprios dentro do jazz. Visitou-nos em 1991, pela primeira vez, no Jazz em Agosto, veio a Oeiras num contexto completamente diferente em 2010 e esta será uma oportunidade especial para o rever bem acompanhado.

O quarteto de DeJohnette tem um som muito próprio, impresso pela bateria cheia de pratos do seu mentor. George Colligan nos teclados e Jerome Harris no baixo eléctrico contribuirão, certamente, para expressar a ideia de um «festival que projecta um ponto de equilíbrio entre a memória e a modernidade», tal como lemos no programa.

Na sexta-feira será a vez do Kenny Werner / David Sanchez Quintet. Werner é um pianista interessante, com uma enorme fluência musical e reconhecida capacidade técnica, mas nunca chegou a encontrar uma voz própria no bem provido leque do piano jazzístico actual. Tocou com Charles Mingus, Archie Shepp, John Abercrombie e Chico Freeman, entre outros. A colaboração musical com David Sanchez saiu a público em 2011 no CD “Baloons”, com as gravações de duas noites no Blue Note com um quinteto que incluía o trompetista Randy Brecker, John Patitucci no contrabaixo e Antonio Sanchez na bateria.

No disco ouvimos composições languescentes, no limite da simplicidade, e improvisações que lhes exploravam todos os ângulos dinâmicos e harmónicos. A Guimarães vem um grupo diferente, com Johannes Weidenmueller no contrabaixo, Henry Cole na bateria e Edson (Cafe) Dasilva na percussão.

Domingo, dia 16 de Novembro, despedimo-nos da edição de 2013 com a derradeira orquestra: a HR Big Band com John Abercrombie e Jim McNeely como solistas convidados. Mais uma “big band” da rádio alemã, desta vez originária de Frankfurt. Uma orquestra “pau-para-toda-a-obra” capaz de acompanhar com brilhantismo cantores pop, jazz, world ou o que lhe sair na rifa.

Extremamente competentes e bem ensaiadas, habilitadas a tocar qualquer composição, estas orquestras radiofónicas dependem muito do trabalho que for feito pelo orquestrador. Do que já nos foi possível ouvir com Gary Burton ou com o grupo Oregon, o concerto tem tudo para ser interessante, até porque o trabalho solístico fica assegurado por dois enormes nomes do jazz e a fama de arranjador de McNeely precede-o.

Adivinha-se mais um fecho que nos dará vontade de voltar no ano seguinte.