Out.Fest, 13 de Setembro de 2013

Out.Fest

Música na margem Sul do Tejo

texto Rui Eduardo Paes

No seu 10º ano de vida, o festival do Barreiro tem propostas de fazer encher o ouvido. E com um programa que incide particularmente no jazz e na música improvisada, indo do veterano Fred Van Hove ao jovem Yaw Tembé. Em Outubro, é só atravessarmos o rio.

Este ano a cumprir o seu 10º aniversário, efeméride que celebra com um programa muito especial que decorre de 8 a 12 de Outubro, o barreirense Out.Fest tem como mote a divulgação da “música exploratória”. Se esta categoria abarca uma grande variedade de tendências dos nossos dias, unindo-as um factor tendencialmente experimental, o certo é que, na edição que aí vem, são o jazz contemporâneo e a música improvisada que ocupam a maior parte do cartaz.

Cartaz esse que abre com um histórico do avant-jazz europeu, o pianista (por vezes também tocando acordeão, órgão de igreja e carrilhão) belga Fred Van Hove – foto acima. Da mesma geração de Peter Brotzmann e Han Bennink, com quem manteve um trio e colaborou inúmeras vezes, estabeleceu parcerias com outras das maiores luminárias da improvisação, com destaque para Steve Lacy, Albert Mangelsdorff, Evan Parker, Lol Coxhill e Vinko Globokar. Tem um especial apreço pelas actuações em solo absoluto e é nesse contexto que teremos o privilégio de o ouvir no Be Jazz Café, logo no dia 8.

Após um curto intervalo, sobe ao palco na mesma noite um duo dinamarquês da nova geração de improvisadores que parte do jazz para ir até onde as situações o levarem, constituído por Johannes (ou “Johns”) Lunds nos saxofones e Tobias Kirstein na percussão. O primeiro tem uma dupla com outro conhecido virtuoso das palhetas na actualidade, Mats Gustafsson, e integra formações como Dead Neanderthals e Yoyo Oyoy, ambas entrando pelos domínios do noise. Kirstein, pelo seu lado, trabalhou com músicos electrónicos como Leif Elggren e Jakob Kirkegaard e é membro dos grupos Lights People e J. Teller & The Empty Stairs, privilegiando normalmente a construção de estruturas em “drone”. 

Propriedades da música livre

Joe Morris por John Sharpe 

No dia seguinte apresenta-se a solo na Galeria Municipal de Arte do Barreiro aquele que é, seguramente, o mais inovador guitarrista do pós-free jazz americano, Joe Morris. O também banjista e contrabaixista focará a atenção nas suas muito pessoais técnicas dedilhantes, deixando a guitarra “falar” com um som limpo, ou seja, sem pedais de efeitos. Tocou com gente como Anthony Braxton, Joe McPhee, William Parker, Malcolm Goldstein e Eugene Chadbourne, mas é a dirigir os seus próprios grupos que vem firmando um estatuto que está já ao mesmo nível do de Sonny Sharrock.

Morris irá igualmente conduzir um “workshop” nos dias 10 e 11 de Outubro, aplicando as fórmulas propostas no seu livro “Perpetual Frontier: The Properties of Free Music”.

Na mesma sessão de dia 9 segue-se um ainda mais radical transformador das potencialidades de outro instrumento de cordas, a harpa. O britânico Rhodri Davies tem uma abordagem que substitui o tradicional fraseado pelo encadeamento não-linear de texturas, dentro das coordenadas do chamado reducionismo improvisacional e evidenciando alguma influência de Morton Feldman. Fá-lo ora com preparações, ora conectando a harpa a dispositivos electrónicos que lhe processam o som em tempo real, seja a sós – como nesta ocasião –, ou juntamente com músicos como John Tilbury, John Butcher e David Toop e nos colectivos The Sealed Knot, Cranc e Apartment House.

Cada vez mais distanciado da matriz jazz da improvisação, Davis tem vindo a interpretar peças escritas para si por compositores “eruditos” como Eliane Radigue, Alison Knowles ou Christian Wolff, algumas delas podendo surgir no alinhamento.

A 10 é o Convento da Madre de Deus da Verberena que abriga uma actuação do australiano Oren Ambarchi centrada na guitarra eléctrica e na manipulação de electrónica digital. Associando de formas pouco óbvias composição e improvisação, o músico situar-se-á entre os parâmetros psicadélicos e noise que têm sido os seus, reflectindo as recentes colaborações com Merzbow, Sunn 0))), Keiji Haino e Jim O’Rourke. 

Acção física directa

Rafael Toral por Pedro Alfacinha 

Logo depois, assistiremos a uma versão reduzida do Space Collective de Rafael Toral: um duo com Ricardo Webbens (anteriores dialogantes do Space Collective 2 foram Afonso Simões e Gustavo Costa). Inserida no Space Program de Toral, a performance pretende traduzir uma perpectiva de «acção física directa» e de música electrónica criada de acordo com o os valores do jazz, mas que não é propriamente jazz.

Com clara referência nas ideias de Sei Miguel, com quem o antigo guitarrista, de resto, trabalha há longos anos, este é um projecto cuja evolução o Out.Fest vem acompanhando de perto, sendo a terceira vez que o português participa no festival.

Duas das três ofertas do dia 11 escapam ao foco da jazz.pt, designadamente as de Mohn e Lee Gamble com o seu techno experimental, mas o prog cósmico do francês Richard Pinhas tem óbvias conexões com o jazz desde a pioneira Heldon, banda pela qual passaram músicos dessa autêntica guarda-avançada do jazz-rock gaulês que foram os Magma. Não estranha, aliás, que precisamente o último disco de Pinhas tenha como convidados figuras da música improvisada, designadamente Noel Akchote, Lasse Marhaug e Oren Ambarchi.

Se uma parte da programação do Out.Fest no seu último dia, o 12, também ultrapassa o campo de observação desta revista “online” (a saber: The Fall e Skullflower), haverá outros momentos de interesse para os nossos leitores. À tarde, num regresso à Galeria de Arte do Barreiro, a dupla de guitarristas formada por Steve Gunn e Mike Cooper partirá dos blues acústicos e da folk para chegar a desfechos dificilmente catalogáveis. 

Blues exóticos

Mike Cooper 

O nova-iorquino Gunn vem de partilhas musicais com Jack Rose e Tom Carter e incorporou no seu discurso elementos do free jazz, do rock psicadélico e das músicas árabe e indiana, enquanto o inglês Cooper passou pela mais inconformada música não-idiomática (The Recedents, por exemplo), pela electroacústica de pesquisa e por uma “exótica” que vai beber aos sons das ilhas do Pacífico – sejam os das músicas ancestrais maori e papua como os sons da floresta tropical. Este encontro precede a gravação de um disco e rodeia-se de grandes expectativas.

Segue-se outro duo, Sirius, reunindo o trompetista suazi, mas radicado em Lisboa, Yaw Tembé e o percussionista português Monsieur Trinité, ou Francisco Trindade de nome próprio, um improvisador veterano que pertenceu aos Plexus de Carlos “Zíngaro” na década de 1970 e passou por vários combos de Sei Miguel. A sua proposta musical é um psych jazz aparentável com o que têm feito Arve Henriksen e Jon Hassell, com farta utilização de “loops”.

À noite, no Pavilhão do G.D. Ferroviários, as ligações ao jazz serão indirectas por parte dos Bloody Claws de Carla Bozulich, cantautora que trabalhou com figuras do jazz e da improvisação como Nels Cline, Ches Smith, Marc Ribot e Okkyung Lee, e dos HHY & The Makumbas de Jonathan Uliel Saldanha, um projecto dub do Porto que reproduz as visões intergalácticas de Sun Ra e as cruza com ritualismos vudu.

De referir ainda que, no âmbito do Out.Fest, o guitarrista lisboeta Filipe Felizardo conduzirá um curso de “escuta criativa” destinado a crianças dos 6 aos 12 anos, de 26 de Outubro a 14 de Dezembro.

Motivos de sobra, em suma, para atravessar o Tejo e conhecer melhor o Barreiro…