Rob Mazurek: “Chants and Corners” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Mazurek é uma espécie de sinónimo, na língua do jazz, de melodia. Mesmo nos contextos de guerrilha sonora em que se mete, o trompetista de Chicago consegue sacar canções apaziguadoras. Nesta nova edição, ao São Paulo Underground (Mazurek, Takara e Granado) juntam-se Thomas Rohrer e Philip Somervell, nos sopros/electrónica e no piano respectivamente. Temos por isso os paulistas maravilha da electrónica e do ritmo, com a corneta de Mazurek e novos instrumentos. O que ouvimos não é muito diferente, estruturalmente falando, do trabalho que tinha vindo a ser desenvolvido pelos São Paulo Underground: ritmos infernais e uma densidade sonora feita pela electrónica, como se uma escola de samba estivesse a tocar em ácido. Mazurek, que actua como uma antena, vai pontuando a música com ideias belas e lógicas no meio do frenesim brasileiro. E agora os sopros suíços e o piano chileno juntam-se à festa.

O cornetista continua a ser um dos músicos no jazz que de modo mais interessante usa a electrónica. Esta nunca é apenas textural, um fundo ou uma mera pontuação; tem um lugar cimeiro e definidor da música, não deixando de ser rítmica, melódica, invulgar e swingante por ser só electrónica. Uma fórmula que tem vindo a ser desenvolvida pelos São Paulo Underground, numa nova tropicália jazzística em que alguma identidade rítmica brasileira - e um certo “jeitinho” suave – são equilibrados com energia punk, com pulsação e com a abstracção do jazz, desde 2006 (“Sauna: Um, Dois, Três”). São mais de dez anos de apuro que podemos ouvir nesta gravação da Clean Feed: desde o ataque frontal, com grandes massas sonoras e batidas descontroladas, até ao sentimento quase teatral com que ficamos, na nossa sala, a ouvir a outra sala onde o grupo toca, ficando Mazurek numa ainda mais distante. São várias as estratégias musicais criadas pelo grupo que fazem com que a fórmula de São Paulo continue viva e interessante.