Small Town

Bill Frisell: “Small Town” (ECM)

ECM

Gonçalo Falcão

Continua a viagem de Bill Frisell pela América, ou pelo menos pela música que de alguma maneira capta o espírito dos EUA. A ECM foi a editora que o apoiou no início de carreira, antes de alinhar na “downtown” nova-iorquina com John Zorn e os Naked City. Frisell é um daqueles guitarristas que é sempre um excelente “sideman”, mas dificilmente nos dá razões para vibrar enquanto líder e este novo disco confirma esta ideia. “Small Town” é um regresso à editora alemã (na verdade Frisell nunca perdeu o contacto com ela: depois dos seis discos iniciais, com o último a ser lançado em 1988, voltou a gravar para a etiqueta em 1995 e 2005) com um disco invulgar sob vários pontos de vista, mas vulgar no que realmente importa. É um regresso a álbuns como “Is That You?” ou “Have a Little Faith”, mas em duo.

Frisell destacou-se pelo domínio absoluto do pedal de volume e uma das primeiras coisas que ouvimos em “Small Town” é o facto de estar agora muito menos preocupado com o acender e apagar das notas. Reconhecemo-lo imediatamente, mas agora usa uma guitarra semiacústica, com um toque muito mais “duro”. Além disso, gravou este disco ao vivo no Village Vanguard, sem a pureza do que se convencionou chamar “som ECM”: ouvimos o ligar e desligar dos pedais, o público e a sala.

Esta nova edição tem poucos temas escritos pelo guitarrista, que prefere tocar “Subconscious Lee” de Lee Konitz, “It Should Have Happened A Long Time Ago” de Paul Motian e “Goldfinger” de John Barry, entre outros. Ouvimos apenas dois temas seus e um composto em parceria com Thomas Morgan, o seu parceiro musical neste título. Morgan é a companhia ideal para um guitarrista (ouvimo-lo já, encantados, com Jakob Bro), pois encarrega-se de tudo: as linhas de baixo e o ritmo. É ele quem estrutura a música e lhe dá corpo, rítmica e harmonicamente. É um contrabaixista impressionante ao vivo (como se verificou no Hot Clube em 2015), com uma técnica só acessível a uma elite e um bom-gosto notável.

Bill Frisell continua com um som puro, a pedir que o plumitivo, na ânsia de o caracterizar, o ladrilhe com lindos adjectivos. Mas este é também o seu ponto fraco: por ser demasiado perfeito é distante, como um congresso que dorme. O uso do tremolo em “Small Town” é irrepreensível e a melodia resolve-se como um tema pop, fácil de ouvir e cantarolar. É demasiado fácil e muitas vezes desalmado de tão distante.

Assim, agarramo-nos a Morgan, que é quem dá ânimo ao disco. O momento alto surge no penúltimo tema, o escrito por ambos, com melodias pouco resolvidas e o contrabaixo muito liberto, num jogo de aproximação e contraponto ao volteios da guitarra em canções. Mais um disco de Frisell, com um som único e uma maneira de tocar própria (e só isto já é muito), mas que não consegue com que nos agarremos às cadeiras.

  • Small Town

    Small Town (ECM)

    Bill Frisell / Thomas Morgan

    Bill Frisell (guitarra eléctrica); Thomas Morgan (contrabaixo)