Gledalec

Kaja Draksler Octet: “Gledalec” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Já conhecíamos a pianista eslovena enquanto improvisadora, mas o que esta nova edição mostra é uma compositora. Apesar de Kaja Draksler ser jovem, sendo por isso difícil lavrar sentenças definitivas, também não é legítimo diminuir o seu trabalho por cautela e é por isso que facilmente elevo este disco à categoria máxima da qualidade, um “Aaa” na taxonomia da Moody’s.

O que ouvimos neste disco é uma linguagem de composição jazzística nova, que facilmente associamos auditivamente a músicas femininas anteriores: a de Hildgard Von Bingen no século XI, quando os cânones ainda não estavam sedimentados, e a de Meredith Monk, com as suas vocalizações repetitivas. O álbum abre com uma peça de um compositor renascentista esloveno e que de certa maneira define o ambiente para o resto dos discos (é um duplo), em que a música antiga surge como referencial (mas não jazzificada).

Como um arcanho escavacado, a música de Draksler assenta em vozes femininas (textos de Pablo Neruda, Andriana Minou e Gregor Strnisa) em progressões lentas de andor, uma percussão forte e sopros e cordas em respirações lentas. Dois sopros - saxofones e clarinetes, duas cordas – viola/violino e contrabaixo –, gongos, timbalões, percussão orquestral e piano compõem o octeto escolhido por Kaja para interpretar estas peças. Soa a orquestral – são oito os músicos acentuados pela percussão de orquestra –, mas ao mesmo tempo a um combo bem ensaiado cuja presença serve apenas para suportar as vozes (mesmo quando não há canto, há um espaço que anuncia a sua ausência).

As composições são intervaladas com improvisações que, apesar de contrastantes – mais rápidas, incisivas –, encaixam perfeitamente no discurso musical, como peças de um móvel do IKEA. “Gledalec” significa “espectador” em Esloveno e é nessa condição, de quem observa deslumbrado o correr do mundo, que ouvimos esta obra. Dá-nos uma música que parece feita pela natureza, mas passa pelas imensas sofisticação e inquietude humanas. Um mistério observável que liga o desconhecido ao verificável e que é a razão do deslumbre. É assim este disco estranho e com uma fórmula musical inovadora, que junta a improvisação a esquemas musicais remotos.

Muito bem gravado, pede uma audição atenta e num bom sistema, porque o volume da música vai crescendo (principalmente no primeiro disco) e por isso é necessário estar disponível para a ouvir quando é tocada no limite da audição. Estranhamente – Audibile Mysterium – funciona bem no carro ou em situações em que a música passa para segundo plano, pois vai surgindo, como uma surpresa, e desaparecendo, mudando a relação que temos com o momento.

Um disco extraordinário, indispensável para quem quer observar os caminhos da música improvisada no século XXI e o que pode ser o “jazz vocal” num contexto criativo e longe das pastilhas elásticas dos festivais de Verão. 

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    Gledalec (Clean Feed)

    Kaja Draksler Octet

    Kaja Draksler (piano, condução); Björk Níelsdóttir, Laura Polence (vozes); Ada Rave (saxofone tenor, clarinetes); Ab Baars (clarinetes, saxofone tenor, shakuhachi); George Dumitriu (violino,  viola), Lennart Heyndels (contrabaixo); Onno Govaert (bateria, percussão de orquestra, piano)