Duot & Andy Moor: “Food” (Repetidor)

Rui Eduardo Paes

Free jazz? Free rock? Free improv? Tudo isso e nada é o novo disco (em vinil de grossa gramagem, à antiga) do Duot de Albert Cirera e Ramón Prats, desta vez com o convidado Andy Moor, o mesmo dos Dog Faced Hermans, dos saltitantes The Ex, dos Lean Left de Ken Vandermark e das associações com os compositores electroacústicos Alva Noto e Yannis Kyriakides, com o ex-Sonic Youth e amante da distorção Thurston Moore, com a reducionista Christine Abdelnour e com o pesquisador de “feedbacks” saxofonísticos John Butcher. O que aqui vem está indicado logo no título, “Food”: alimento para os ouvidos e para os espíritos, e especificamente para aqueles (ouvidos e espíritos) que não procuram na música uma fonte de alienação e apaziguamento, mas sim o contrário, um estado de alerta que possa converter-se em acto. Esses encontram nestes temas ora simplesmente inquietos (nos momentos mais calmos) ora abrasivos, mercurianos, agressivos até, motivação para o entusiasmo, quando não para o tipo de êxtase auditivo a que só podemos chegar quando os sons entram em festa.

O jazz está bem presente, sim, ou não fossem os catalães Cirera (saxofones tenor e soprano) e Prats (bateria) dois multipremiados cultores do género, inclusive na sua vertente mais “mainstream”, mas também o punk de que vem (e onde permanece) o guitarrista britânico residente na Holanda. Digamos que o que está neste LP é um jazz de atitude punk, um jazz que reencontrou a sua própria natureza rebelde e subversiva. Nas imagens captadas no estúdio onde o álbum foi gravado reparamos que Ramón Prats veste uma “t-shirt” da banda punk norte-americana Ramones: a simbologia não podia ser mais forte e consequente. Desconstrucionista, deflagracionista até (lembrando o “carácter destrutivo” de Walter Benjamin, pois) e pós-estruturalista (rizomática mesmo, no sentido proposto por Gilles Deleuze), a música aqui entregue não se fica pelas lufadas de energia concentrada: demora-se também nos pormenores. Chega a ser maneirista no seu uso e abuso do detalhe. É tão boa como as melhores coisas da vida.