Native Aliens Ensemble: “Native Aliens Ensemble” (Trytone)

Rui Eduardo Paes

Yedo Gibson pode ter trocado Amesterdão por Colares, mas não trocou a cena holandesa do jazz e da música improvisada pela portuguesa – simplesmente, adicionou esta à outra, continuando a frequentá-la com assiduidade. O saxofonista brasileiro surge neste disco, o primeiro do Native Aliens Ensemble, com o seu soprano, e desta feita sem maiores responsabilidades do que cumprir com a sua parte, a qual, ouvindo o CD, se percebe já ser muita (alguns dos melhores solos são seus). O presente ensemble nada tem que ver com a mais numerosa Royal Improvisers Orchestra, por ele liderada, apesar de alguns dos membros de um e da outra serem os mesmos. O compositor de todos os temas aqui reunidos e chefe de operações é outro emigrante do Brasil na Europa, Renato Ferreira, este também – como Yedo – vindo dos Abaetetuba de mestre António “Panda” Gianfratti. Renato vingou na Holanda, sobretudo, como contrabaixista, mas por estas gravações realizadas ao vivo, em 2016, no “off-off” Teatro Munganga, verificamos que toca os saxofones tenor e barítono com igual competência.

E o que toca o Native Aliens Ensemble? Algo que resulta particularmente bem e tem caído no goto dos holandeses: um free jazz que deve mais ao modelo Willem Breuker Kollektief do que à Instant Composers Orchestra de Misha Mengelberg, com materiais rítmicos e melódicos transferidos de vários estilos da música popular brasileira, como o maracatu, o frevo, o baião ou a catira, algumas assumidas influências de Hermeto Pascoal (a imprevisibilidade) e Egberto Gismonti (a elegância), elementos de compositores contemporâneos como Louis Andriessen (as repetições) e Alban Berg (o vanguardismo romântico) e uma energia que nos remete para o rock progressivo dos Setentas – um factor curioso quando se sabe que Renato Ferreira fez a sua estreia musical em bandas pós-punk. Tudo isto com uma instrumentação invulgar que junta fagote (Jan Willem van der Ham, dobrando em sax alto), cordas de arco (a viola de George Dumitriu, que também toca guitarra, e o violoncelo de Gabór Hartyáni), um baixista que é igualmente guitarrista (Miguel Petruccelli), uma cantora que utiliza a voz como se fosse um instrumento (Laura Polence) e um baterista daqueles que levam tudo à frente (o grande Onno Govaert). A música é tão dura quanto qualquer coisa que se apresenta como “free”, mas tem a particularidade de nos apetecer dançar com ela. Pois muito bem…