Trio Heinz Herbert: “The Willisau Concert” (Intakt)

Rui Eduardo Paes

Não é a primeira vez que da Suíça nos surge um grupo de nome tão pouco atractivo (é o caso dos Steamboat Switzerland), e também não é a primeira vez que daquele país nos chega uma inovadora proposta de música eléctrica na esfera de influência do jazz. O certo é que o Trio Heinz Herbert é diferente de tudo o mais que ouvimos com proveniência no país dos relógios. Cada tema deste “The Willisau Concert”, assim intitulado porque foi gravado ao vivo na edição de 2016 do Festival de Jazz de Willisau, está prenhe de referências e reminiscências musicais, numa síntese insana do dito jazz (aquele iniciado pelos Weather Report) com uma enorme variedade de músicas urbanas do nosso tempo. Imediatamente detectáveis são a electrónica cardio-patológica gerada nas margens do techno (tipo Autechre e Squarepusher), essa outra electrónica de cariz ambiental característica do Norte da Europa, na linha de Geir Jenssen (Biosphere) e a “trip music” praticada por neo-psicadélicos e “stoner / desert rockers”, por vezes até com os típicos “riffs” que encontramos nuns Dead Meadow. Entre as apropriações históricas tornam-se igualmente evidentes as repetições compulsivas dos Can e os voos cósmicos dos Tangerine Dream, o que talvez explique a aceitação que este grupo de Zurique está a ter na Alemanha…

As estratégias musicais adoptadas por Ramon Landolt (órgão Hammond, piano, sintetizador, sampler), Dominic Landolt (guitarra eléctrica) e Mario Hanni (bateria) passam por uma combinação das formas abertas do free jazz e do jazz-funk-rock original (antes de se oficializar como jazz de fusão) com os desenvolvimentos lentos, se não mesmo estáticos, da música experimental por computador, o que significa que uma cuidada gestão da energia está sempre em jogo, e tanto nas lentas ascensões à procura de um clímax como no estilhaçamento sonoro que o sucede. Se os noruegueses Supersilent fizeram recentemente uma inflexão de rumo para recuperarem a organicidade perdida pelo caminho, o Trio Heinz Herbert assenta tudo nesse factor desde o primeiro momento: este jazz mutante escalda de tão “groovy”, mesmo que os planos rítmicos não sejam propriamente lineares.