Samuel Rohrer: “Range of Regularity” (Arjuna Music)

Rui Eduardo Paes

Podemos ouvir Samuel Rohrer junto de músicos como Mark Feldman, Claudio Puntin e Vincent Courtois, mas o nome deste percussionista de Berlim será provavelmente mais reconhecido pelos amantes de um certo jazz nórdico, dadas as suas prestações com figuras como Sidsel Endresen, Nils Petter Molvaer, Eivind Aarset e Jan Bang. Ainda assim, nenhuma dessas referências, inclusive as de maior contextualização electrónica, nos prepara para o que vem em “Range of Regularity”. Os temas que o integram seguem um mesmo processo de trabalho: são tratamentos electrónicos de gravações em que o músico improvisa com instrumentos acústicos de abordagem percussiva, sejam uma bateria, um piano preparado, um saltério ou simples tubos.

As conotações (electro-)jazzísticas existentes (mais Jon Hassell do que Miles Davis) estão diluídas com muitas outras, entre o krautrock dos Can, o “p-funk” dos Funkadelic e dos Parliament, a rítmica obsessivo-compulsiva do techno, o drum & bass e outras importações da música de dança. Polirrítmicos, mas em estruturações por “locked grooves”, os temas resultam hipnóticos e encantatórios se os escutarmos à superfície. Só furando essa camada exterior, abstraindo-nos dos efeitos físicos que a música nos provoca (um pé a bater, a cabeça a mover-se com o “beat”), descobrimos o que mais importa: um complexo mundo de pequenos, por vezes diminutos, elementos, organismos sonoros com vida própria e comportamento a condizer. É então que este disco verdadeiramente nos fascina. Se achavam que Molvaer já tinha ido tão longe quanto era imaginável neste contexto, aqui está um exemplo de como não há barreiras para o que se considera “possível”. E claro que levantando problemas musicológicos: como encarar uma prática da improvisação que é posteriormente composta / alterada em estúdio (bem mais do que fazia Teo Macero com as “jams” de Miles)? Em princípio, concluindo que a mesma se dissipou no processo. O certo, mesmo, é que foi entretanto lançado um disco de “remixes” destes “mixes”, com vários intervenientes da área da música electrónica exploratória.