Émile Parisien Quintet feat. Joachim Kuhn: “Sfumato” (ACT)

Rui Eduardo Paes

As habituais colaborações de Émile Parisien com Hugo Carvalhais tornaram o saxofonista soprano francês um “compagnon de route” do jazz que se pratica em Portugal, e é esse trabalho em progressão que explica o facto de, no quinteto de “Sfumato”, participar Mário Costa, membro do grupo do compositor e contrabaixista do Porto. Mas como seria de esperar, porque a crítica do Hexágono está fixada nas movimentações da sua cena nacional, só desviando a atenção quando a música vem dos Estados Unidos, não houve ninguém na imprensa especializada que investigasse o porquê de uma intervenção portuguesa num disco que, muito claramente, faz as contas com a identidade do jazz francês. Um disco que, para todos os efeitos, vai buscar uma figura tutelar do mesmo jazz regional que tem, ele também, outra origem geográfica, o pianista Joachim Kuhn. O trio deste com Jean-François Jenny-Clarke e Daniel Humair (foi com o último que Parisien se revelou) foi particularmente influente na definição da cena local, mas não houve ainda interesse em verificar o que o francês Parisien tem andado a fazer em Portugal. Desinteresse pelo que não está imediatamente ao alcance dos ouvidos?

O que importa é que Mário Costa está particularmente bem nesta associação com Émile Parisien e com o referido Kuhn, a que se juntam o guitarrista Manu Codjia (um símbolo por si só do francesismo jazzístico), o contrabaixista Simon Tailleau e, em três temas, nem mais nem menos do que os convidados Michel Portal (clarinete baixo) e Vincent Peirani (acordeão), não se tendo deixado nem intimidar nem deslumbrar por tão estrelada companhia. O que nos propõe este álbum resultante da carta branca que o festival Jazz à Marciac deu a Parisien na sua edição de 2015 é bastante diferente do que faz o jovem (pelas idades dos seus membros, que não pela década de estrada com que já conta) Émile Parisien Quartet – religa as inovações e os distanciamentos estéticos deste à tradição gaulesa do jazz e isso significa que a pulsação é mais “bopish” e swingante e que o sax soprano soe mais melódico e exponha todas as suas dívidas a Sidney Bechet. Pelo meio surge, no entanto, uma escrita que denota ora o gosto do líder pelo rock progressivo, ora pelo free. O resultado, como já alguém escreveu, é como se uma banda dos anos áureos do Hot Clube de Paris tivesse pegado em Ornette Coleman e viajado com este para o século XXI…