Baphomet: “Da Rosa Nada Digamos por Agora…” (Bapho Records)

Rui Eduardo Paes

Toda a música improvisada é idiomática, e não simplesmente porque esta corrente que Derek Bailey chegou a classificar como “não-idiomática” fundou uma estética e uma linguagem próprias: as conexões com o jazz, com a contemporânea, com o rock ou com alguma combinação dessas expressões mantiveram-na dentro das lógicas estabelecidas por esses idiomas. Eis aqui um caso nacional de improvisação livre (isto é, sem partituras) que descende directamente do rock: Baphomet. Em Português, Bafomete ou Bafomé, nome dado às divindades que a Inquisição acusava os Templários de idolatrar e que acabou por ser (algo ironicamente) adoptado pelo ocultismo e pelas novas tendências pagãs.

O grupo congrega músicos de trajectos muito diversos, designadamente o mesmo Mestre André dos Alforjs, em saxofone tenor e dispositivos electrónicos, dois elementos dos Dark Magus, projecto de tributo a Miles Davis, a saber Guilherme Carmelo (guitarras barítono e “fretless”) e o percussionista (mas que prefere apresentar os seus instrumentos como “objectos vários”, para se distinguir dos usos académicos e etnicistas implicados) Monsieur Trinité, um veterano que passou pelos Plexus de Carlos “Zíngaro” e por diversas formações de Sei Miguel e Ernesto Rodrigues, bem como pelo guitarrista Jorge Nuno, dos psicadélicos Signs of the Silhouette (entretanto saído), e por Pedro Santo, baterista habitualmente associado a Paulo Chagas. A música tocada nas três longas faixas do CD é mais abstracta do que qualquer coisa que tem vindo dos lados do jazzcore ou do free rock, o que significa que é a energia e a sonoridade suja e distorcida que denunciam a origem no rock e não propriamente o surgimento de “riffs”. Aliás, o trabalho desenvolvido ao nível das texturas e dos timbres denota uma inesperada influência EAI (electro-acoustic improvisation), ainda que com uma atitude punk e reminiscências do prog ou mesmo do hard rock dos Sessentas e Setentas. As atmosferas, essas, são escuras, inquietantes e pesadas, ou não estivéssemos nós perante uma música ela própria ocultista e pagã.  Dou por mim a interrogar-me sobre qual seria a reacção de Robert Anton Wilson, o santo e papa do Discordianismo, se ouvisse este tão incomodativo quanto inebriante álbum…