Ensemble MIA: “Live 2016” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Se as tardes do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia são preenchidas por actuações de grupos constituídos por sorteio, combinando de formas variadas os músicos que participam neste festival “sui generis” realizado anualmente, a meio de Maio, no concelho de Peniche, os fechos da noite realizam-se com concertos de ensembles que juntam todos os presentes. Com uma particularidade: a alguns desses músicos é dada a tarefa de conduzirem as formações alargadas segundo o mesmo princípio de quem toca: improvisando a direcção orquestral. A edição de 2016 terá sido aquela em que os princípios seguidos pelo Ensemble MIA (colectivo mutante que habitualmente se desdobra em seis, de modo a abarcar a totalidade do número de integrantes – 70 no ano passado) melhores resultados práticos tiveram, e daí a edição deste CD com os registos desses preciosos momentos.

Cada um dos seis temas incluídos tem, pois, o seu condutor, designadamente a violinista austríaca Mia Zabelka, o flautista alemão Mark Alban Lotz, o vibrafonista francês François Choiselat, o clarinetista britânico Noel Taylor, a pianista italiana Silvia Corda e o trombonista português Fernando Simões. As abordagens são bastante diferentes, indo desde os métodos do Soundpainting de Walter Thompson aplicados por Choiselat em “That Gestury Glossary” às intervenções minimais, reduzidas praticamente à gestão dos naipes de sopros, de Lotz em “A Kind of Pseudo-Lyrical Abyss”. Pelo meio estão a Conduction de Butch Morris aplicada por Taylor em “Sobriety”, talvez a mais determinística de todas não obstante a sinalética ser mais simples do que a de Thompson, e as direcções de Zabelka (“Tribal Exhilaraton”) e Corda (“Elegance and Intuition”), muito directas e orientadas sobretudo para a coordenação dos timbres. Já a intervenção dirigida por Simões (“The Rebellion of Fired Musicians”) tem um lugar à parte, pelo facto de comportar uma encenação e de seguir um conceito teatral e de efeito cómico, bem como por colocar uma interrogação crítica à própria ideia de improvisação com maestro, aquela da música sinfónica que sobrepõe a vontade de um indivíduo ao colectivo. Fernando Simões foi expulsando do palco quem não cumpria as suas indicações, gerando algum mal-estar enquanto não se compreendeu (nem os músicos que estavam no palco sabiam que era esse o jogo) que se tratava de um “gag”. No fim, só o baterista ficou. Mas o melhor estava para vir, e desta vez sem conhecimento do condutor: os improvisadores expulsos que tinham instrumentos portáteis aglomeraram-se no fundo da sala e, depois do último toque das baquetas, voltaram a tocar, para gargalhada geral da assistência e afirmação da sua liberdade. É assim que o disco termina, pondo-nos a pensar.