Baldo Martínez Grupo: “Vientos Cruzados” (Karonte)

Rui Eduardo Paes

O contrabaixista galego, mas residente em Madrid, Baldo Martínez é mais conhecido fora de portas pelo duo que formou com o italiano Carlo Actis Dato, pelo colectivo que integra com dois espanhóis internacionalmente aclamados (não há regra sem excepção) Agustí Fernández e Ramón Lopez, Triez, e ainda pelo seu Cuarteto Europa, que tem o francês Dominique Pifarély e o suíço Samuel Blaser como solistas. Se estas têm sido as suas tentativas de furar o bloqueio que afasta da ribalta o jazz dos países periféricos do Velho Continente, nesse aspecto sofrendo Espanha ainda mais do que Portugal, o certo é que muito do essencial do seu trabalho de décadas está na produção do Baldo Martínez Group, ainda que este tenha conseguido poucas oportunidades de se dar a ouvir noutras paragens. Em paragens portuguesas, designadamente.

E no entanto, o que desde sempre vem definindo o jazz proposto pelo BMG é a sua identidade europeísta, aliando “groove” e melodia a formas abertas e a uma abordagem à improvisação herdeira do free, tal como consta em “No País dos Ananos” (1996), “Juego de Niños” (1998), “Nai” (2001) e “Tusitala” (2004), não variando muito dessa matriz o recente “Vientos Cruzados”, editado quando já se pensava que o projecto tinha sido esquecido pelo seu protagonista. O núcleo do grupo continua a ser formado por Martínez com o baterista Pedro López, tendo saído o guitarrista Antonio Bravo, e se por ele passaram o saxofonista Alejandro Perez e o violinista Eduardo Ortega, quem agora consta de novo são Juan Saiz em flauta e saxofone tenor e David Herrington em trompete e fliscórnio. Sendo a mesma, a música é diferente, porque evoluiu a escrita do líder, porque as execuções reflectem as personalidades dos intérpretes, como é de regra no jazz, e ainda porque o jogo tímbrico varia com os instrumentos associados. As combinações entre flauta e trompete aqui ouvidas são, de resto, uma mais-valia, fazendo-se valer pela sua inventividade e pelo grau de frescura. Martínez continua a dar cartas e agora é uma questão de lhe dar o reconhecimento mundial que merece.