Marco Franco: “Mudra” (Revolve)

Rui Eduardo Paes

Já se sabia que o baterista Marco Franco tinha o saxofone soprano como um instrumento de especial apreço, com ele surgindo em disco, aliás, no álbum “23 Exposures”, ao lado de Ernesto Rodrigues e José Oliveira. Lembro-me, também, de o utilizar num concerto com Carlos “Zíngaro”, mas pouco mais o ouvi fazer publicamente com ele. Desconhecia, no entanto, a sua relação próxima com o piano – até ao dia (um ano atrás) em que, antes do “soundcheck” de um concerto em que ia participar no Salão Brazil, em Coimbra, se sentou diante do Petrov da casa e começou a tocar uma peça de Erik Satie.

Pois “Mudra”, o seu disco de piano solo acabado de sair da fábrica, tem Satie a pairar nas composições e improvisações de Franco do primeiro ao último minuto, numa manifestação de amor pela música do compositor francês que, em simultâneo, nos dá uma perspectiva diferente de um projecto que o membro dos Fail Better! anuncia que terá continuação em breve: Mikado Lab. Não sendo este, muito claramente, um álbum de jazz, ilumina ainda assim o estilo avant-lounge-pop-jazz daquele grupo que tem implícitas, juntamente com as alusões ao cançonetismo dos anos 1960 e à “incredibly strange music” dos 50, tanto as influências de Jimmy Giuffre e Bill Frisell quanto de John Cage e – percebe-se agora – Satie, conseguindo conciliar o acessível com o bizarro. É como se todos os pontos se ligassem e os conceitos de Marco Franco ganhassem finalmente pleno sentido, completando-se e fechando o círculo.