Eel Slap: “Vol. 1” (Flea Boy Records)

Rui Eduardo Paes

Num recente concerto dos Eel Slap de Pedro Branco e João Lencastre deparámo-nos com uma abordagem atmosférica e de dimensão quase orquestral que por vezes nos remetia para David Torn. Nesta estreia discográfica em formato EP, a primazia vai para situações com importação de aspectos do punk e do metal – um e outro tão desconstruídos ou virados do avesso quanto o próprio factor jazz. No campo da música livremente improvisada, o escolhido pela dupla, e incluindo aquela (como é o caso) que não tem problemas com ser idiomática, este tipo de transfigurações apenas dependentes do momento é não só possível como algo a explorar.

Outra mais-valia de “Vol. 1”: quando a música contida num CD soa (ainda) mais crua e repentista do que ao vivo ficamos com a impressão de que é possível preservar a autenticidade de uma improvisação mesmo quando esta visa a edição de um registo magnético, com a espontaneidade do acto criativo a sofrer um processo de cristalização. É verdade que as primeiras faixas carregadas de raiva e muito próximas do noise que aqui encontramos vão dando lugar a peças mais lentas (isto é, reflectidas) e suaves (isto é, melódicas), mostrando que os dois músicos entendem a dita improvisação como um outro modo de compor, mas o que fica depois da audição deste mini-álbum é isto: um disco também pode ser um palco.