Gonçalo Almeida / Rodrigo Amado / Marco Franco: “The Attic” (NoBusiness Records)

Rui Eduardo Paes

Foi o último concerto de 2015 na SMUP, o espaço na Parede, concelho de Cascais, que se tornou num dos mais importantes centros nevrálgicos do jazz criativo e da música improvisada que se praticam em Portugal. A uns dias apenas do Natal (22 de Dezembro), o contrabaixista Gonçalo Almeida, radicado na Holanda, voltou ao seu país para, na ocasião, estrear com Rodrigo Amado (saxofone tenor) e Marco Franco (bateria) um novo grupo que, na altura, não se sabia se teria seguimento. O sótão da SMUP estava à cunha e a música ultrapassou todas as expectativas: é o registo desse evento que aqui está em disco, saído por uma das mais importantes editoras da actualidade nesta área, a lituana NoBusiness Records.

Almeida, Amado e Franco são músicos muito diferentes. O primeiro tem desenvolvido o seu percurso entre o jazzcore (nome que refere as pontes com o punk e o metal, casos dos grupos Albatre e Spinifex), o jazz de câmara (Lama) e a improvisação livre (colaborações, por exemplo, com Tobias Klein), o saxofonista é conhecido pelo seu free jazz com sólida matriz no hard bop, nas formas do Motion Trio, do Wire Quartet ou das suas associações a músicos como Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano, e o baterista tem uma presença disseminada por várias frentes, do jazz “mainstream” (Rui Caetano Trio) ao rock “indie” (Memória de Peixe), passando por projectos caracterizados ora pela invulgaridade dos seus conceitos, como os Mikado Lab, ora pela abordagem experimental da improvisação, caso do seu duo com Nuno Rebelo. O que vem nas cinco faixas deste CD vai do introspectivo ao visceral, num leque de abordagens bem largo que conta, por um lado, com uma quase bucólica introdução de contrabaixo, em exploração de harmónicos, e pelo outro com explosões de energia sobrevoadas por um sax tenor em “stream-of-consciousness”. As variações de um extremo ao outro acontecem em minutos, nunca os desfechos sendo previsíveis. Os três músicos estavam em fogo, motivados pelo processo de descoberta de uma linguagem comum que tinham encetado, e a música – magnífica, arrebatadora – reflecte isso mesmo. Disco do ano, sem dúvida alguma.