João Paulo Rosado: “Sinopse – Ao Vivo na Porta-Jazz” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Pode a música ser reflexiva? Deleuze dizia que não (assim como dizia que nenhuma arte comunica, facto a que aqui na jazz.pt já se fez referência), mas João Paulo Rosado apresenta o seu projecto Sinopse como um meio de transmitir pensamentos pessoais. Afirmação que só podemos entender como um metáfora, porque o que a música – para todos os efeitos a mais abstracta de todas as disciplinas artísticas – faz é dirigir-nos as emoções que estejam ligadas a determinados pensamentos. Quando o contrabaixista do Porto reivindica para este disco, também, uma tal de «honestidade da expressão», será com certeza a isso que se refere, mesmo que a mensagem de apresentação deste registo ao vivo seja dúbia e equívoca.

O conteúdo de “Sinopse” é igualmente algo desconcertante, o que não quer dizer que os músicos (além do líder, são eles João Guimarães no saxofone alto, António Pedro Neves na guitarra, Hugo Raro no piano e António Torres Pinto na bateria) toquem menos bem. Acontece que o anunciado factor de autenticidade parece muito relativo quando verificarmos que há um alinhamento com práticas que viraram moda nos meios do jazz. Ora, tudo o que se torna numa moda é um artifício. “Sinopse” é mais fiel ao tipo de abordagem do jazz tocado por progressões harmónicas que vingou como norma do que à procura de uma identidade própria e diferenciada. Dito isto, duas notas finais: 1) é bom reencontrar um Guimarães mais solto do que em outros, demasiados, contextos, e 2) Hugo Raro tem aqui um par de oportunidades para evidenciar o bom pianista que é.