Thea Farhadian: “Tectonic Shifts” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

A violinista, autora de “radio art”, performer e videasta norte-americana Thea Farhadian é uma nómada da música criativa dos nossos dias. Com dupla base na Bay Area da Califórnia e em Berlim, está em constante viagem, muito em especial pelo Próximo e Médio Orientes, sendo uma estudiosa da cultura árabe e da dos seus avós arménios. Licenciada em filosofia e com mestrados em artes transdisciplinares e música electrónica, esta antiga aluna de Maggi Payne, Chris Brown e Fred Frith no Mills College que já pertenceu à Berkeley Symphony Orchestra, quando esta foi dirigida por Kent Nagano, não circula, na realidade, em nenhuma particular “cena”. Passou recentemente um par de meses em Portugal, observando o circuito da improvisação e participando nele, em concertos com músicos como Ernesto Rodrigues, Abdul Moimême, Maria do Mar e Eduardo Chagas, entre outros.

Foi na editora do primeiro dos mencionados que saiu este álbum a solo de Farhadian, “Tectonic Shifts”, no qual ouvimos o seu violino em processamentos “live” por computador. O curioso, tendo em conta o título do disco, é que a música dada a ouvir tem um carácter líquido e uma fragilidade que não coincidem com a ideia que fazemos dos movimentos da crusta terrestre. Tudo denuncia a formação e o percurso da instrumentista na música clássica e o vocabulário utilizado tem claras inspirações arábica e arménia, mas se alguma estruturação previamente definida existe por estes temas, a opção improvisacional é determinante para os desfechos. Não se trata, porém, de uma improvisação informada pelo jazz: mais intervenientes são alguns recursos do experimentalismo, mormente através da aplicação de técnicas extensivas. Se por vezes julgamos ouvir etéreos coros e orquestras de cordas no meio das sínteses de som, de acordo com o padrão de beleza instalado pelas músicas sacras ao longo dos tempos e em vários lugares do mundo, o que predomina são os bruitismos acústicos e digitais e um “abuso” do violino que se percebe surgir com intuitos de auto-armadilhamento, sujando o que poderia parecer demasiado “bonito”. Muito bom.