Allison Philips Trio: “Allison Philips Trio” (Flea Boy Records)

Rui Eduardo Paes

A música sai directa, sem rodriguinhos, com a crueza própria do jazz que se quer directo, “moody” e urgente, como se um disco, este disco, fosse um concerto. As composições são colocadas ao serviço da entrega, e a entrega faz-se por meio do improviso. Allison Philips é uma trompetista de Nova Iorque que vive intermitentemente em Amesterdão, com idas e vindas por aí – e sim, já tocou com músicos portugueses. Por exemplo, com Pedro Branco, o guitarrista “boss” da Flea Boy Records. Ela tem um som cheio e agreste, atirando-se a melodias ácidas que vão beber ao pós-bop mas não se ficam por aí. Para os resultados dados a ouvir muito contribuem o contrabaixista Alessandro Fongaro, que de cada oportuno beliscar das cordas tira o maior efeito, e o baterista Robin Van Rhijn, também ele todo eficácia e economia.

A confecção é europeia mas este jazz não podia ser mais americano – aliás, a capa transporta-nos para o que parece ser o deserto do Arizona, com um ganso (Allison) em primeiro plano. A imagem diz tudo. Assim como diz a versão incluída de um tema de rockabilly assinado por Lefty Frizell, “Saginaw Michigan”. Cada tema é um minimalista jogo de padrões rítmicos e frases curtas, porque o que interessa é o que se faz com esse material, desdobrando-o, multiplicando-o, tirando-lhe ilações, virando-o do avesso. Quando tudo acaba apetece ouvir outra vez. Sabe a pouco porque tem muito…