Tetterapadequ: “Pangatuna” (For Tune)

Rui Eduardo Paes

O acrescento de mais quatro músicos, todos eles em sopros de palheta, ao quarteto Tetterapadequ, assim se formando uma pequena “big band”, terá convidado ao início deste novo disco do projecto luso-italiano formado por Gonçalo Almeida, João Lobo, Daniele Martini e Giovanni di Domenico: soa como se fosse uma orquestra sinfónica a afinar os instrumentos, ainda que, o mais não seja pela intenção, a coisa pareça organizada. Quando a música se define enquanto tal entramos noutro universo, o das dissonâncias do “Ascension” de John Coltrane, e nova mudança acontece então, desta feita com uma estrutura unificadora e seccionamentos dentro do ensemble – até determinada altura sempre com o protagonismo de di Domenico. Se numas alturas é um entendimento do jazz que se proporciona, noutras ganha evidência toda uma série de coincidências com a música erudita contemporânea ou com o chamado experimentalismo. Persiste uma identidade Tetterapadequ, mas agora a música é outra.

Audrey Lauro no saxofone alto, Jordi Grognard nos clarinetes, Quentin Manfroy nas flautas e Gregoire Tirtiaux no saxofone barítono acrescentam-se aos habituais sax tenor, piano, contrabaixo e bateria e o trabalho que desenvolvem revitaliza as fórmulas do grupo e conduz estas a outros desenlaces. O que mais assombra neste disco é a facilidade com que a improvisação instala a ordem a partir do caos ou vice-versa. Quando menos esperamos, de uma base abstracta irrompe um solo de jazz – e por vezes um jazz que não tem propriamente as características do free – ou uma construção claramente jazzística resulta em algo mais dificilmente categorizável. Com uma entrega, um entusiasmo, um sentido de oportunidade e uma imaginação que se renovam incansavelmente, tornando este registo numa pérola da música criativa de hoje.