Roberto Negro: “Garibaldi Plop” (TriCollection)

Rui Eduardo Paes

O pianista e compositor francês, de origem italiana, Roberto Negro é conhecido pelos seus grandes gestos musicais, aliando uma tentação pelo épico com um humor todo ele feito de ironia. É o que mais uma vez acontece neste “Garibaldi Plop”, a sua declaração de identidade cultural por via da personagem de Garibaldi, o homem que uniu o Norte e o Sul do que é hoje o território italiano, algo que os nortistas deste país europeu não lhe perdoam. Com ele estão outros dois membros do francês TriCollective, o violoncelista Valentin Ceccaldi (aqui fazendo mais as vezes de um contrabaixo do que seria de esperar) e o baterista Sylvain Darrifourcq. O disco é dedicado ao pai de Negro e a todos aqueles que resistiram ao fascismo de Mussolini e à aliança deste com a Alemanha nazi –algo que nos dias de hoje, marcados pelo protagonismo de figuras como Donald Trump e Marine Le Pen, ganha um particular significado.

Estando o formato escolhido muito próximo do do trio de piano jazz, a primeira pancada que recebemos surge logo nos dois temas iniciais, moldados no rock. Um rock histriónico, grandiloquente, pensado para agitar. Depois é a permanente metamorfose, combinando citações da história do jazz com algo directamente inspirado em Debussy e Ligeti, motivos repetitivos da escola minimalista norte-americana e, pelo meio, de modo a ainda dar mais contraste e confundir as percepções, uma passagem da canção “Les Gars de Ménilmontant”, de Maurice Chevalier. Roberto Negro serve-se do modelo instaurado por Brad Mehldau, The Bad Plus, Michael Wollny Trio e E.S.T. para o virar do avesso. Com uma criatividade fora de série e uma competência técnica e performativa de se lhe tirar o chapéu.