Sophie Agnel / Daunik Lazro: “Marguerite d’Or Pâle” (Fou Records)

Rui Eduardo Paes

Ainda que muitas vezes esquecido por programadores e editores, Daunik Lazro é uma das maiores glórias da livre-improvisação francesa e um seu veterano, tendo surgido na década de 1970 – após abandonar um percurso como filósofo – como um herdeiro do free jazz de Albert Ayler. Bem mais jovem, Sophie Agnel destacou-se como um dos valores maiores do piano preparado improvisado, se bem que nos últimos anos esteja a ser eclipsada pela sua conterrânea Eve Risser, apesar de esta ser qualitativamente mais inconstante. A primeira vez que tocaram juntos foi no seio do quarteto Qwat Neum Sixx, que gravou apenas um disco e teve uma curta existência. Reencontraram-se mais tarde no palco, juntamente com músicos como Paul Rogers e Olivier Benoit, mas esta é a primeira vez que os ouvimos em duo.

“Marguerite d’Or Pâle” é o registo de uma actuação ao vivo da dupla em Moscovo, no ano passado, e a localização geográfica influiu, como é de regra na improvisação, na música que foi tocada e no título do disco, fazendo este referência a um clássico da literatura russa, “O Mestre e Margarita”, de Mikhail Bulgakov. Como, na música? O mistério e o suspense do romance deste escritor são por ambos reproduzidos em seis temas que aliam lirismo e abstracção, sentido do pormenor e carácter atmosférico, influências da música contemporânea e do jazz. No CD ouvimos Agnel a utilizar mais o teclado do que o interior do piano e Lazro dedica grande parte da sua atenção ao saxofone tenor, só uma vez ou outra pegando no barítono, o instrumento a que se vinha dedicando depois de décadas a tocar sax alto. O que quer dizer que se dão a ouvir aqui de outras maneiras que não as suas habituais. Essa é, aliás, uma mais-valia extra deste belíssimo disco.