Boi Akih: “Liquid Songs” (Trytone)

Rui Eduardo Paes

Especiarias como a noz-moscada e o cravo-da-índia eram vendidas por mercadores árabes a Veneza muito antes do século XVI e depressa o gosto pelos temperos orientais se generalizou pela Europa. Essas especiarias vinham das Molucas e os portugueses souberam disso, apesar do segredo que rodeava a sua origem – em 1511 ou 12 os nossos comerciantes rumaram às ilhas agora pertencentes à Indonésia e passaram a controlar o mercado das ditas, sempre com a Holanda a tentar tirar-nos o monopólio. Este disco do projecto Boi Akih mostra-nos que conseguiu. As composições são do guitarrista holandês Niels Brouwer e as letras da vocalista Monica Akihary, originária, precisamente, das Molucas. Na maior parte dos temas aqui reunidos ouvimo-la a cantar na língua Haruku, que se encontra em vias de extinção.

A expressão “canções líquidas” (do título “Liquid Songs”) é dada na cultura moluca a uma tradição musical que se renova. No caso, acontece tal por via do jazz e da música improvisada – os clarinetes baixo e contrabaixo são tocados por Tobias Klein, tendo o grupo já contado no passado com as contribuições de, por exemplo, Michael Vatcher, Wolter Wierbos e Ernst Reijseger) e os resultados são bem interessantes. No lugar do tablista indiano Sandip Bhattachraya está agora a (excelente) percussionista japonesa Ryoko Imai, que nesta história representa a vingançazinha lusa por não termos sido nós a prestar homenagem ao arquipélago “dos reis”: trocou Amerterdão por Lisboa em 2016, tendo feito uma fulgurante apresentação no MIA do ano passado. Enquanto esperamos pela sua integração na cena nacional, escutemo-la nesta bela edição.