Jeff Cosgrove / Frank Kimbrough / Martin Wind: “Conversations with Owls” (Self-Produced)

Rui Eduardo Paes

Se a anterior edição de Jeff Cosgrove com Matthew Shipp e William Parker, “Alternating Current”, constituiu uma (relativa, porque o músico é conhecido por esticar as coordenadas da tradição jazzística) surpresa, no novo “Conversations with Owls” voltamos a encontrá-lo em contexto familiar. Ou nem tanto assim, porque Frank Kimbrough (piano) e Martin Wind (contrabaixo) partilham a co-autoria do projecto com o baterista e cada um deles puxa as situações para o seu lado, numa relação de forças que transforma o debate de ideias em pura criatividade. Em reforço da noção de que estamos em terreno mais convencional, dois “standards” surgem no alinhamento – um, “My Favorite Things” (aqui em formato de balada), foi composto pela dupla Richard Rodgers / Oscar Hammerstein mas tornou-se num “leitmotiv” de John Coltrane; o outro, “I Loves You, Porgy”, vem do espólio de George Gershwin e teve em Miles Davis o mais notável adaptador. Ambas estas versões são notáveis, distinguindo-se das muitas que já foram feitas desses originais.

A atmosfera geral do disco é escura, como seria de esperar de um título que define os temas reunidos como “conversas com mochos”. E isso é tanto verdade para as faixas contemplativas como para as mais enérgicas, as únicas que podemos comparar com o CD precedente. A beleza resultante nada tem, no entanto, de escatológico. O trabalho de grupo é um exemplo de comunicabilidade e escuta, mas importa atentar nas intervenções individuais. Está bem patente o quanto o estilo de Cosgrove, feito de precisão e um agudo sentido do momento, deve a Paul Motian. Nunca Kimbrough segue o caminho mais óbvio, sendo uma delícia ouvi-lo a construir a teia que vai suportar tudo o que vem de seguida. Por sua vez, Wind funciona como um seguríssimo pilar de suporte, marcando os tempos, definindo as situações e mantendo tudo colado. Como agora se diz: está aqui um malhete.