Tania Giannouli Ensemble: “Transcendence” (Rattle)

Rui Eduardo Paes

Poucas vezes uma obra musical de autor reflecte tanto o estado de espírito de todo um povo como este “Transcendence”, disco da pianista e compositora grega Tania Giannouli, que conhecemos de uma parceria com o português Paulo Chagas. Na intersecção do jazz com a música erudita e com a tradição popular helénica, o que ouvimos nesta suite interpretada pelo T.G. Ensemble (Alexandro Botinis em violoncelo, Guido de Flaviis nos saxofones, Solis Barki em percussão e ideofones e, como convidado, Giannis Notaras na bateria) pode ser belo, e pode transmitir até uma impressão de esperança e uma força movida pela determinação, senão mesmo pela raiva, mas os seus fundamentos criativos são a nostalgia «por um desconhecido e feliz futuro», a desilusão e o medo.

Como escreve Giannouli nas notas do “booklet”, «este disco é sobre o meu país». O contexto é o que conhecemos: os senhores da Europa e da economia global determinaram o sacrifício das populações a uma política que tem o dinheiro, não as pessoas, como referência. Ora, acontece que a Grécia foi a única a responder-lhes, passados uns anos de miséria, com um orgulhoso «não aceitamos». Não sabemos o que acontecerá a seguir, mas para já o que mais surpreende e conforta é ainda ser possível fazer arte, e para mais uma arte tão requintada quanto esta.