Miguel Ângelo, 19 de Novembro de 2013

Miguel Ângelo

A jazz e branco

texto António Branco fotografia Carlos Azevedo e Amaral Moreira

A cidade do Porto continua a guardar segredos no que ao jazz diz respeito. O contrabaixista Miguel Ângelo não é propriamente um novato, mas acaba de lançar na editora Carimbo Porta-Jazz o seu disco de estreia, “Branco”. A jazz.pt foi ao seu encontro para o conhecer melhor.

Há muito que o Porto alimenta o panorama do jazz nacional com nomes de valia indiscutível. Nos últimos anos, é certo, essa realidade tem-se tornado particularmente evidente, como o surgimento de um conjunto de músicos de grande talento, uns jovens, outros já mais experientes. O papel determinante das escolas de jazz – sobretudo da Escola de Jazz do Porto e da Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) –, a atividade seminal da Orquestra Jazz de Matosinhos e, mais recentemente, a criação e o desenvolvimento da Associação Porta-Jazz têm contribuído de forma decisiva para o justo reconhecimento do muito e bom jazz que se faz na Invicta.

Pena é que, apesar de tudo, alguns nomes ainda permaneçam pouco ou nada conhecidos fora do círculo portuense, com claro prejuízo para os amadores de jazz do resto do País. Um músico que tem vindo a ganhar visibilidade nos últimos anos é o contrabaixista Miguel Ângelo. Acaba de lançar “Branco”, o seu disco de estreia como líder, uma compilação de música que escreveu desde 2009.

Sobre o processo de conceção do disco, começa por dizer que «foi muito simples». «Em dezembro de 2012 decidi que era este ano, falei com os músicos, e como as agendas são sempre complicadas entre janeiro e maio fizemos meia dúzia de ensaios», conta. O disco foi gravado a 18 e 19 de junho de 2013 no Boom Studio por João Bessa, misturado e masterizado por Nelson Carvalho.

Acompanham-no o saxofonista João Guimarães, o pianista Joaquim Rodrigues e o baterista Marcos Cavaleiro, músicos que foi conhecendo em diferentes circunstâncias. Recorda: «Conheci o Marcos quando voltou de Barcelona, por intermédio de José Pedro Coelho. Na verdade, conhecemo-nos em palco, em trio com o José Pedro, julgo que em 2002/2003. Conheci o João pouco depois e o Joaquim já na ESMAE.»O critério que presidiu à escolha destes músicos para integrar o seu quarteto não poderia ser mais claro: são «músicos com os quais tenho empatia pessoal e musical», afirma.

Questionado sobre se escreve tendo este grupo de músicos em mente, Miguel Ângelo responde que «sim e não».«Componho sem pensar neste ou naquele músico em concreto, mas no fim consigo ter a perceção que um determinado tema, pela forma, pela textura ou por outras características, será mais facilmente apropriado por este ou aquele músico», sublinha.

Apesar dos temas de “Branco” serem todos de sua autoria, considera que sempre esteve «muito aberto às influências e características individuais de cada músico».«Prefiro que o resultado seja a soma das partes», acrescenta.

Apesar de o idioma jazzístico ser absolutamente central na construção dos temas, o rol de influências de Miguel Ângelo vai muito mais além, vislumbrando-se em algumas composições resquícios de um passado ligado ao rock. «Gosto de música que provoca, sem rótulos, que pode ir da clássica ao rock», diz. «Somos um somatório de vivências e experiências, sempre tive uma ligação a outras músicas. Estou sempre atento à música e a novas músicas. Continuo a ouvir, mas muito menos porque o tempo não estica e informação em excesso também é mau.»

Vendo-se a si próprio como «meio insatisfeito por natureza, em algumas coisas sou um perfecionista», não deixa de se considerar «bastante satisfeito em relação ao disco, sobretudo porque foi gravado de forma descomplexada e honesta, sem “medo dos microfones”, tendo as influências e características individuais, apesar de diferentes, estado presentes e contribuído de forma positiva para o resultado final».

O concerto de lançamento de “Branco” teve lugar no passado dia 2 de outubro no auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). O grupo fez entretanto mais alguns concertos em clubes do Norte e do Centro do País. «A música do disco nunca tinha sido apresentada ao público e tem sido muito engraçada a forma que tem tomado em cada concerto», afirma o contrabaixista. No próximo dia 7 de dezembro o grupo irá abrir o Festival Porta-Jazz, estando a decorrer contactos para fechar algumas datas em 2014.

Mas o músico já pensa no próximo disco – para o qual inclusivamente até já compôs – mas não será para já».«Neste momento penso nos que aí vêm, o que gravei com o Pedro Neves Trio (a sair em dezembro pela Porta-Jazz), o disco dos MAP que também já está gravado e deve sair no início de 2014 pela Numérica e o de Bruno Macedo que será para breve», revela. 

Pontapé no ego 

Miguel Ângelo nasceu em 1971 em Fiães, concelho de Santa Maria da Feira, no seio de uma família em que, apesar de não haver músicos profissionais, «sempre existiu uma enorme admiração pela música e alguns tocam instrumentos de forma amadora.»

A sua relação com a música foi prematura. «Acho que no início foi por uma questão de competitividade com o meu irmão José Rui (o quarto de seis irmãos, eu sou o quinto), que começou a frequentar aulas de violino na Tuna Musical de Fiães e eu fiz questão de ir também, mas para guitarra», conta.

Lá começou por estudar guitarra e, mais tarde, contrabaixo: «Recordo-me do professor de instrumento, que afinal era professor de todos os instrumentos e também maestro da tuna. Lembro-me do seu ar calmo e da postura intocável mas afável, dos dedos gigantes que não conseguiam pisar apenas uma das cordas da guitarra.» Foi este mesmo professor, provavelmente já a pensar na dificuldade de encontrar contrabaixistas, que logo lhe sugeriu o contrabaixo.

«Fiquei encantado quando vi o instrumento (amor à primeira vista), um contrabaixo de 4/4 enorme. Claro que o entusiasmo esmoreceu quando lhe pus as minhas mãozinhas de 9, 10 anos. Frequentei durante dois anos e desisti... mas ficou a recordação.» O mais grave dos cordofones só muito mais tarde se constituiu como o seu instrumento principal. Primeiro veio o baixo elétrico, por volta dos 15 anos.

A escolha não foi complicada: «Tinha um grupo de amigos, queríamos formar uma banda, só faltava o baixista e pronto lá estava eu», lembra. Durante anos foi autodidata. Aos 18, numa altura em que já frequentava o curso superior de Informática/Matemática Aplicada na Universidade Portucalense, começou a frequentar aulas na Escola de Jazz do Porto.

O contrabaixo só surgiu a sério por volta dos 23 anos, momento em que abdicou do baixo elétrico durante um longo período. «Simplesmente “encostei” o baixo quando peguei no contrabaixo. A partir desta altura o baixo elétrico era secundário.»Só recentemente decidiu pegar novamente nele para alguns projetos em que participa.O músico considera que a passagem de um instrumento para o outro «foi como voltar à imagem de infância, ficou o fascínio pelo instrumento».

Importante em todo este processo evolutivo foi também o facto de ter começado a ouvir, entre outros contrabaixistas importantes, Charles Mingus.«Nunca mais consegui esquecer aquele som», refere.Acresce toda uma dimensão multissensorial ligada ao contrabaixo: «O meu encanto pelo som acústico, o som da madeira, da caixa de ressonância, do dedo na corda, o som dos graves e dos agudos, do arco, da vibração no corpo, do leque de timbres diferentes que possibilita, enfim tudo aquilo que o baixo elétrico não tem.»

A passagem pela Escola de Jazz do Porto – onde estudou baixo elétrico e contrabaixo com Alberto Jorge e combo com Paulo Gomes foi, no seu entender, «absolutamente fundamental». «A Escola de Jazz do Porto era a única no Norte do País com o ensino vocacionado para a aprendizagem da música sem ser a “clássica”. O ambiente era incrível, uma escola que era na verdade uma casa com divisões a fazer de salas e a sala que se transformou num auditório/bar», informa.

O corpo docente da escola era formado pelos poucos músicos de jazz que existiam no Porto e o ambiente entre alunos e entre alunos e professores era, para Miguel Ângelo, «muito bom».O já referido Alberto Jorge foi decisivo no seu percurso musical: «Foi o responsável pelo início da minha procura.»«Foi ele quem me mostrou Mingus e mais tarde algumas cassetes com Miles, Coltrane, enfim, os gigantes.»

Paulo Gomes foi o responsável por Miguel «nunca mais ter parado». «As aulas de combo eram do melhor, exigência, rigor e muito humor eram as palavras de ordem. Foi nestas aulas que conheci e tive oportunidade de tocar com imensos músicos. Alguns desapareceram, outros ainda por aí andam.»Um dia, por falta de contrabaixista, Paulo Gomes chamou-o para tocar com ele. «Deu-me o primeiro pontapé no ego.» 

Jazz e matemática

Miguel Ângelo por Amaral Moreira 

Miguel Ângelo começou a tocar em bandas de rock, entre as quais os Curtes Baldei-me, divertida corruptela fonética com Kurt Waldheim, antigo presidente austríaco e secretário-geral da ONU, com ligação ao regime nazi (participou como tradutor da Wermacht na ocupação da antiga Jugoslávia). «Foi uma fase fantástica, com a internet nos inícios e apenas dois canais de televisão. Era onde eu e mais cinco amigos passávamos a maior parte do tempo, entre o voleibol que todos jogávamos no clube desportivo de Fiães e a sala de ensaios. Uma segunda família», lembra.

Juntos aprenderam a tocar e a compor canções. Construíram a sua própria sala de ensaios e, mais importante, «uma bela amizade» que perdura até hoje. Os Curtes Baldei-me eram assumidamente uma banda pop/rock com influências de tudo o que ouviam na altura: Pink Floyd, The Mission, Lloyd Cole & The Commotions, The Cure, U2, The Pogues, Pixies, The Waterboys, David Bowie, Sétima Legião, Xutos & Pontapés. «Ainda fizemos imensos concertos, participámos no concurso Bandas Rock Pepsi, no qual ficámos em segundo lugar (nesse ano venceram os Quinta do Bill), e nas primeiras partes de espetáculos dos Delfins e Raul Marques e os Amigos da Salsa. Tínhamos uma legião de fãs», diz. Esse foi um tempo em que as grandes editoras mandavam no mercado, sendo muito difícil editar um disco fora da sua alçada.  Depois veio a entrada no ensino superior de todos os elementos do grupo, o que ditou o seu definhamento.

O interesse pelo jazz só surgiu mais tarde. Quando frequentava o curso superior, Ângelo cruzou-se com Nelson Carvalho, atualmente um dos técnicos e produtores mais conceituados do País. Ambos partilhavam o gosto pela música.«Nessa fase ele já andava com um Fostex de quatro pistas a gravar e a criar música. Quando descobri as potencialidades, não descansei enquanto não juntei dinheiro para um. Passava dias e noites fechado na sala de ensaios a compor e a gravar, tocava tudo, baixo, guitarra, teclados, bateria, voz, violino, captava sons exteriores e que depois utilizava», recorda.

Essa foi uma fase em que ouvia Nick Cave and the Bad Seeds, Ryuichi Sakamoto, David Sylvian, Laurie Anderson, Cocteau Twins, Lou Reed, Tom Waits. «Ainda gravei cerca de três cassetes de 60 minutos com temas originais que partilhava com o Nelson e discutíamos o resultado quer musical quer de produção. Acho que foi a altura em que mais aprendi sobre música», afirma.Chegou, porém, a um momento em que ser autodidata não era suficiente e foi então que se inscreveu na Escola de Jazz do Porto. «O jazz surge assim na sequência da minha procura, foi no jazz que senti que era o meu lugar.»

Durante os seus anos de formação estudou ainda com os contrabaixistas Pedro Barreiros e António Augusto Aguiar: «Foram ambos bastante importantes em fases distintas da minha aprendizagem.» Barreiros era na altura o mais importante contrabaixista de jazz do Porto e um dos mais requisitados a nível nacional. «Foi ele quem me guiou nesta fase inicial, sobretudo na linguagem.»Depois surgiu Aguiar, «o Togu, um músico brilhante que contribuiu de forma determinante para o desenvolvimento do meu próprio discurso e, sobretudo, para o apuramento da minha técnica de pizzicato e de arco».

Frequentou o curso oficial de música até ao 5.º grau, com o professor Alexander Worf. Regressou ao ensino superior e em 2008 licenciou-se em Contrabaixo/Jazz na ESMAE, num período em que já se movimentava no circuito do jazz portuense. Durante esta fase teve oportunidade de trabalhar com Demian Cabaud, Michael Lauren, Nuno Ferreira, Carlos Azevedo e Pedro Guedes.

Participou em diversos “workshops”, designadamente com Thomas Morgan, Dan Weiss, Carlos Bica, Zé Eduardo, entre outros. «Já tocava em vários grupos e com vários músicos do Porto, mas foi uma excelente experiência. Desenvolvi várias competências, fruto da diversidade e da qualidade do corpo docente, da convivência com vários músicos e, sobretudo, do facto de ter partilhado experiências e música com pessoas tão diversas, funcionando como uma plataforma de relacionamento.»

Já se disse que Miguel Ângelo é também licenciado em Informática/Matemática Aplicada. Como forma de garantir o cumprimento das obrigações financeiras ao final do mês dá aulas de programação e desenvolve aplicações para a internet. «A alternativa seria entrar no difícil e saturante mercado de aulas de música. Prefiro manter a música livre de obrigações financeiras», argumenta.

O músico reconhece a existência de pontes entre o jazz e a informática, não a lúdica ou na perspetiva do utilizador, mas sim na perspetiva do programador. Esta ligação esteve até para ser o tema da sua tese de mestrado/doutoramento na ESMAE, que acabou por sacrificar face a outras prioridades. «Os processos mentais e criativos são muito semelhantes, ambos partem do nada para criar algo em que as opções, embora possam estar condicionadas a “regras” e “conceitos” académicos, acabam sempre por ser uma opção pessoal», salienta.

Ângelo chama a atenção para a quantidade de músicos de jazz com competências na área da informática. «A programação desenvolve bastante a criatividade e desencadeia novas formas de organizar e esquematizar o raciocínio lógico e dedutivo que são muito úteis no jazz», reforça. 

Livro de ideias 

Miguel Ângelo assume uma multiplicidade de influências, «cada uma com uma assinatura particular que me atrai – sou influenciado e tenho como referência tudo o que gosto, logo é muito difícil apontar só algumas». Ainda assim, não se esquiva ao exercício.

No que toca a contrabaixistas nomeia Charles Mingus, Paul Chambers, Scott LaFaro, Charlie Haden, Ray Brown, Christian McBride, Anders Jormin, Carlos Bica, Larry Grenadier, Scott Colley, Dave Holland, entre outros.  Admitindo deixar de fora muitos nomes marcantes, assume, no plano jazzístico, influências de Miles Davis, John Coltrane, Lee Konitz, Charles Lloyd, Herbie Hancock, Bill Evans, Fred Hersch, Keith Jarrett, Brad Mehldau, Jim Hall, Kurt Rosenwinkel e Paul Motian. Noutros territórios musicais, acrescentou à sua lista de preferências Radiohead, Caetano Veloso, John Mayer (Continuum), Nick Drake e Coldplay.

Considera-se também influenciado por outras formas de arte que não a música. «As influências são imensas, no meu caso vão desde a pintura (cujo responsável é o meu irmão José Rui, que é pintor) à gastronomia...»

O contrabaixista tem-se apresentado em inúmeros festivais, sobretudo na região norte de Portugal e também na Galiza: festivais Porta-Jazz, Festa do Jazz do São Luiz, Douro Jazz, Jazz na Praça da Erva, Festival de Jazz de Viseu, Festival de Jazz Marin (Espanha), entre muitos outros.

Como momentos particularmente marcantes destaca a apresentação do disco do guitarrista galego Virxilio da Silva no Festival Internacional de Jazz de Pontevedra (em 2009), os concertos no “Jazz na Relva”, em Paredes de Coura e em Vilar de Mouros («por serem espaços e públicos diferentes»), o concerto em que substituiu Demian Cabaud («que tinha acabado de ser pai»), no auditório da Jazz ao Norte, com Ohad Talmor, Dan Weiss, André Fernandes e Óscar Graça e o concerto de apresentação de “Branco”.

Assume-se eclético e diz que tenta ser «honesto e criativo com os argumentos»que tem.«Procuro sempre transmitir a ideia, a emoção e a sensação do momento, a tocar e a compor, e que isso seja percecionado por quem me ouve.»Por norma, vê-se como um compositor repentista que tem esboços em qualquer ocasião – «tenho um livro repleto de ideias que vou escrevendo conforme me surgem» – que desenvolve quando tem outro tempo e disposição.

A improvisação ocupa um lugar central nas suas estratégias composicionais. «É o fator que mais valorizo. Quando escrevo música dedico uma boa parte da energia a pensar na improvisação, na forma, na estrutura, na ligação, etc.»Salienta que esta é precisamente «a mais-valia deste género de música». Quanto à gestão entre composição e improvisação refere que tanto parte de uma como de outra:«Há temas em que penso na improvisação quando componho, mas também parto da improvisação para o tema.»

Editar um disco a solo faz parte dos seus planos, ainda que não a curto prazo. «A ideia atrai-me, na verdade já escrevi e gravei alguns temas a solo com esse objetivo. Apesar do aspeto pesado, o contrabaixo tem uma variedade e uma riqueza de timbres muito grande. Gosto também do espaço e da liberdade de “tocar a solo”.»Neste contexto particular salienta como referência o contrabaixista sueco Anders Jormim, sobretudo o seu disco “Xieyi” (2005).

“Branco” saiu na Carimbo Porta-Jazz, braço editorial da Associação Porta-Jazz, estrutura que tem dado uma justa e inaudita visibilidade a músicos e formações da cidade do Porto. É também esse o ponto de vista de Ângelo: «Acho que a Porta-Jazz tem sido absolutamente fundamental para os músicos do Porto e não só. Tenho ótimas relações com a associação, sou sócio e o meu envolvimento não é maior por limitações de tempo.» Para além de dar visibilidade ao que se faz no Porto, a Porta-Jazz tem-se preocupado em ter um espaço onde se toca jazz regularmente, e não só com músicos locais.

O Festival Porta-Jazz, já na quarta edição, tem proporcionado vários “workshops” com músicos que passam pelo Porto. Na opinião de Miguel Ângelo, a associação «tem desempenhado um papel importante na promoção e na criação de públicos». 

Centralidade e concentração

Miguel Ângelo por Carlos Azevedo 

Miguel Ângelo não foge à polémica e aborda a falta de visibilidade que os músicos de fora de Lisboa continuam a sentir: «Não é uma falsa questão, é a verdade. Acho que o meu e todos os trabalhos que são desenvolvidos fora de Lisboa têm muito menos visibilidade do que é feito na capital.» Considera que não se trata de uma questão de bairrismo ou de “guerra norte/sul”, mas sim «uma questão de centralidade».

«A imprensa, os média, as produtoras, as grandes editoras, estão concentradas em Lisboa e existe alguma “preguiça” em sair de casa. Um músico que viva fora de Lisboa tem de vencer imensas barreiras para ter a visibilidade de um de Lisboa. Isto nem é novo, basta ver a quantidade de músicos que se mudam para a capital, não por opção mas por “obrigação” profissional», aponta. «Claro que nesta área não temos a ambição da mediatização ou da fama, mas o reconhecimento do nosso trabalho é sempre bom e abre portas», admite.

Não obstante a crescente notoriedade da cena jazzística do Porto, Ângelo não embandeira em arco e diz que «existe apenas um lugar com programação regular de jazz, que é o espaço da Porta-Jazz no edifício AXA».Reconhecendo a existência de outros locais, refere que alguns deixaram de ter programação regular por questões económicas e que, «nos que têm programação regular, o jazz é esporádico e outros apostam numa programação vocacionada para o consumo rápido e a música de fundo».«Entidades como a Casa da Música, o Carlos Alberto e a Fundação de Serralves são quase inacessíveis, pelo menos para grande parte dos músicos do Porto», assevera.

Quanto às relações entre as cenas jazzísticas de Lisboa e do Porto, o contrabaixista considera que, apesar da distância que ainda se verifica, tem havido uma evolução positiva. «Acho que têm vindo a melhorar significativamente, mas na verdade nunca foram más, pelo menos entre músicos. O problema é sempre a questão da “visibilidade”». Dá como exemplo disso a colaboração de músicos de Porto em projetos de Lisboa e vice-versa, salientando a atividade do guitarrista André Fernandes, «que tem sido um ótimo embaixador, chamando e colaborando com vários músicos do Porto, assim como a OJM, etc..»

Para além do seu quarteto, Miguel Ângelo faz atualmente parte do trio do pianista Pedro Neves – cujo disco, mais uma edição da Carimbo Porta-Jazz, será apresentado no próximo dia 12 de dezembro no auditório da FEUP –, dos MAP, com Paulo Gomes no piano, Miguel Moreira na guitarra e Acácio Salero na bateria – a estreia em disco acontecerá no início de 2014 (na editora Numérica) – e do Carlos Mendes Quarteto, com Mendes (guitarra), Paulo Barros (piano) e Mário Costa (bateria). Integra igualmente um “ensemble” alargado (ainda sem nome definido), liderado pelo saxofonista José Pedro Coelho, que se estreará na edição de 2014 do Festival Porta-Jazz, o quarteto do guitarrista Bruno Macedo, o grupo Jogo de Damas – que lançou o seu disco de estreia no final de 2012 –, o Cool Jazz Trio e os Bruce Brothers.

A par de toda esta atividade, Miguel não deixa de pensar em músicos com os quais gostaria de trabalhar, quer nacionais quer ao nível internacional, sobretudo «pessoas com as quais tenho afinidade musical e sobretudo pessoal». À cabeça refere os nomes de Mário Laginha, Brad Mehldau e Kurt Rosenwinkel:«Seria incrível, são músicos e compositores que admiro.»

Para além do lançamento dos discos em que intervém e da gravação de outros, Miguel Ângelo espera nos tempos mais próximos fazer o mesmo do que nos últimos 20 anos: «Continuar a procurar, aprender e apreender, criar e fazer o que mais gosto: música.»

 

Para saber mais       

www.miguelangeloctb.com

  

Discografia

MAP: “MAP” (Numérica, a lançar em 2014)

Pedro Neves Trio: “Ausente” (Carimbo Porta-Jazz, a lançar em dezembro de 2013)

Miguel Ângelo: “Branco” (Carimbo Porta-Jazz, 2013)

Carlos Mendes Quarteto: “Estórias (Oito, por Quatro)” (Numérica, 2012)

Jogo de Damas: “Jogo de Damas” (Numérica, 2012)

Ludgero Rosas: “Horas Sem Dias” (Mousikę Records, 2012)