João Hasselberg, 24 de Outubro de 2013

João Hasselberg

A procura da verdade

texto António Branco fotografia Mariana Sabido

A poucos dias do lançamento do disco de estreia do contrabaixista, “Whatever it is You’re Seeking Won’t Come in the Form You’re Expecting”, a jazz.pt passa em revista o seu percurso e procura fixar-lhe influências, expetativas e desejos.

Depois de anos a acumular um relevante capital de experiência – com múltiplas companhias e em diferentes tabuleiros estéticos –, o disco inaugural na condição de líder era apenas uma questão de tempo para João Hasselberg. E esse momento, finalmente, chegou. “Whatever it is You’re Seeking Won’t Come in the Form You’re Expecting” revela – para além do que já sabíamos: ser um instrumentista de primeira água – também um compositor de horizontes largos.

Trata-se de um disco, começa por explicar, que reúne música composta no espaço de um ano, inspirada pelas leituras que foi fazendo, «não tanto pelo seu conteúdo propriamente dito, mas pela impressão que causaram e que ficou na pós-leitura. Tentei recriar o ambiente vivido enquanto leitor, mas agora no papel de ouvinte». Isto ajuda a desvendar o contraste entre cada uma das peças. «Como sempre, tive vontade de escrever música para filmes e deixei aqui alguma dessa vontade. Hemingway, Steinbeck e Capote são alguns dos autores em que me inspirei», acrescenta o músico.

Nas composições do CD confluem influências diversas, que espelham uma mente criativa de largo espetro, combinando o rigor da linguagem do jazz com a elegância e a sofisticação de uma certa pop. O contrabaixista procura fugir a redutos mais ou menos confinados, procurando não fazer distinção quanto a géneros ou vertentes musicais: «Gosto de encarar a música como um todo e de pensar em mim como um músico capaz de integrar esse todo, moldando-me para esse fim.» Todas as composições do novo disco são de sua autoria, exceto uma leitura muito pessoal de “The Folks Who Live on the Hill”, escrita por Jerome Kern em 1937, aqui arranjada para contrabaixo solo.

Diz-se interessado no que acontece em outras músicas: «Tento estar o mais atento possível ao que se passa fora do panorama jazzístico ou nas suas extremidades.» No centro das suas preferências estão cantautores como Ray LaMontagne, Elliot Smith, Nick Drake, Bon Iver, Patrick Watson e John Mayer. Todos eles fazem parte da sua escuta diária de música e são«uma influência em todos os sentidos».«Gosto da ideia de compor música, mesmo que instrumental, inspirada nesta vertente da pop. Por outro lado, a música clássica também é uma inspiração avassaladora», reforça.

Acompanha-o no álbum um notável elenco de músicos nacionais, que para além disto são alguns dos instrumentistas com quem Hasselberg mais gosta de trabalhar: o pianista Luís Figueiredo, o saxofonista Ricardo Toscano, o trompetista Diogo Duque, os guitarristas Afonso Pais e João Firmino, o baterista Bruno Pedroso e as cantoras Joana Espadinha e Luísa Sobral. O disco conta ainda com um belíssimo trabalho gráfico, que ficou por conta de Camila Beirão dos Reis.

O regozijo com o trabalho final está bem patente nas palavras do músico: «Fizeram um trabalho incrível e deram à música muito mais do que eu achava ser possível. Estou muito feliz com o contributo de todos eles», diz, visivelmente orgulhoso. «Estou mais do que satisfeito com o resultado final! Mas, como diz o título, “whatever it is you’re seeking, won’t come in the form you’re expecting”. Foi mesmo uma surpresa a forma que a música tomou.»

Hasselberg não se considera um insatisfeito por natureza. «Sou insatisfeito quando o trabalho não fica tão bom quanto podia. Não me martirizo se fiz tudo o que podia ser feito. Acho que é a minha metade alemã que trata disso(risos).»

A música incluída nunca foi tocada ao vivo com o grupo que a gravou, apesar de alguns dos temas terem sido antes apresentados em contexto de trio, com o pianista grego Spyros Manesis. Também o tema “The Old Man and the Sea” conhece uma versão diferente da gravada noutro formato no disco “A Casa da Árvore”, do guitarrista João Firmino. «Fizemos dois ensaios e fomos para estúdio», esclarece. Hasselberg acredita que a música assume duas facetas distintas, que têm de ser respeitadas: a que se ouve em disco e a forma como esta se transfigura em concerto. «A música está gravada na sua forma mais pura e inocente, a ação fica para as apresentações ao vivo», afirma.

O músico já pensa no próximo disco e lamenta a falta de tempo para iniciar a escrita. «Estou ansioso para começar a tratar disso», salienta. Admite ter bastantes planos nesse sentido, não se coibindo de assumir a ambição: «Gostava de no próximo ano apresentar dois discos, um só com improvisação e outro com música minha. Ainda não sei qual será a instrumentação, mas a essência da música não há-de fugir muito da que escrevi para este primeiro álbum», revela.

“Whatever it is You’re Seeking Won’t Come in the Form You’re Expecting” será apresentado ao vivo no dia 5 de novembro, no Hot Clube de Portugal, em Lisboa, com a presença esperada de todos os que o gravaram. «Vamos tocar exclusivamente a música deste disco», avisa. 

Da planície para a grande cidade

 

Nascido em Lisboa numa fria manhã de inverno de 1986, João Hasselberg tem ascendência alemã pelo lado paterno. E foi precisamente o pai quem primeiro lhe proporcionou um contacto com o universo dos sons. «O meu pai tocava vários instrumentos, não profissionalmente, mas tocava bastante em casa», conta. Mas também a mãe era melómana, expondo-o, desde cedo, a música que ia de Chico Buarque a Maria João Pires, passando também pelo jazz, escutando habitualmente a música de Louis Armstrong, John Coltrane e Brad Mehldau. Mas a sua primeira obsessão foi Michael Jackson, depois os Beatles e Ennio Morricone.

Até aos 9 anos viveu no Alentejo, perto de São Pedro do Corval, localidade do concelho de Reguengos de Monsaraz conhecida pela sua olaria. «Os meus pais viviam em Lisboa e foram ali parar por acaso quando estavam perdidos à procura de uma feira de artesanato. Decidiram que criar filhos numa cidade como Lisboa não era uma opção e compraram a quinta.» A experiência foi marcante: «Viver a infância no campo foi uma das melhores coisas que me aconteceram e estou eternamente agradecido aos meus pais.» A memória do cante alentejano, que escutava regularmente, também é algo que recorda com saudade. Após este período viveu em Évora até aos 18 anos.

Como tantos, começou por estudar piano, mas rapidamente percebeu que este não era o instrumento que lhe estava destinado. «O piano, talvez pelo método de ensino tradicional dar pouca importância à improvisação e à relação ouvido-instrumento, chegou a um ponto em que não me satisfazia.» A idade também não ajudava a perceber o que não estava bem e o que fazer para solucionar os problemas. Parou de tocar por uns tempos, mas a história estava longe de terminar…

Aos 16 anos ofereceram-lhe um baixo elétrico e a sua vida mudou para sempre. Cita Barry Green no seu livro “The Mastery of Music” para dizer que «há muitas semelhanças entre a personalidade de um músico e o instrumento que escolheu».«Sempre fui uma pessoa reservada e a tender para o tímido. O baixo encaixou na perfeição», sublinha.

Começou por estudar este instrumento com Gregg Moore, pai de um amigo seu. A influência foi decisiva para todo o percurso subsequente. «Quando percebeu que eu estava mesmo interessado na coisa ofereceu-me em cassete uma compilação de baixistas que ele achava importantes para o meu desenvolvimento musical», recorda. Entre eles estavam Jaco Pastorius, Steve Swallow e Ron Carter, entre outros baixistas de jazz.

Hasselberg argumenta que, coincidência ou não, «quando alguém quer aprender a fundo um instrumento usado em música popular e sem tradição sinfónica acaba por ir para ao jazz.» «Seja um saxofonista da filarmónica que dá de caras com Coltrane na internet, seja um baterista de rock que encontra referências a Tony Williams num livro de técnica».

Também o baixista/contrabaixista Miguel Amado contribuiu sobremaneira para lhe ensinar as bases do ofício de baixista, sobretudo na vertente improvisacional. «O Miguel ensinou-me os fundamentos teóricos da improvisação. Estava a acabar o Secundário e vivia em Évora na altura. Ia a Oeiras ter aulas com ele uma vez por semana.»João Hasselberg considera que estudar com eles nessa altura foi outras das melhores coisas que lhe podiam ter acontecido. «O Gregg deu-me a oportunidade de começar a tocar com ele na altura. Fizemos alguns concertos em trio, com Rui “Gordo” Gonçalves na bateria (músico incrível) e Gregg a tocar trombone.»

Algum tempo depois mudou-se para Lisboa para estudar na Escola de Jazz Luís Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal. Considera que a passagem pelo Hot «foi a ponte perfeita entre a aprendizagem semi-autodidata que tinha tido até então e o Conservatório de Amesterdão». Na escola lisboeta teve aulas com distintos músicos de jazz, como João Moreira, Nelson Cascais e Afonso Pais. «Também foi lá que conheci muitos dos meus grandes amigos de hoje», refere.

Por volta dos 20 anos, descobriu que não conseguia expressar-se como pretendia no baixo elétrico e encantou-se pelo contrabaixo. Considera que, no seu caso pessoal, a necessidade de mudança era óbvia. «Queria aprender a tradição e o baixo elétrico não tinha nem o som nem o “feel” que eu queria ser capaz de emular», diz.A troca de instrumento coincidiu com um mês de concertos de hotel na Quinta do Lago, com alguns dos seus colegas e amigos da altura: Zé Maria, João Firmino, Luís Barrigas e Alexandre Alves. «Foi perfeito para pôr o baixo elétrico de lado e focar-me no contrabaixo. Estudava durante o dia e tocava com o pessoal à noite seis dias por semana durante um mês.»

Intensificou a aprendizagem do contrabaixo estudando com Nelson Cascais, «a pessoa mais indicada para me ensinar naquela altura».Foi ele quem lhe deu a conhecer «músicos tão especiais» como Larry Grenadier, Bob Hurst e Scott LaFaro. Cascais guiou-o nas questões básicas do contrabaixo, como o som e as digitações, entre outros aspetos. «Foi um mestre para mim, sem dúvida», acrescenta. 

Um choque e uma bênção

 

João Hasselberg licenciou-se no Conservatório de Amesterdão, em junho de 2010, quase com nota máxima (9 em 10). Considera que esta experiência holandesa foi a que mais o marcou: «Tive a oportunidade de ir com três grandes amigos, João Firmino, Joana Espadinha e Moisés Fernandes. Já lá estavam uns quantos, Desidério Lázaro, Luís Candeias e Rui Pereira.» O músico entrou para a prestigiada instituição numa altura em que estava lesionado e não tocava há quase um ano. «Entrar numa escola em que toda a gente tocava melhor que eu foi um choque e uma bênção», afirma. «Tive de “reaprender” a tocar contrabaixo depois de estar quase um ano sem tocar e esse foi um processo ainda mais enriquecedor do que da primeira vez», conta.

No Conservatório de Amesterdão havia nessa altura quatro professores de contrabaixo e Hasselberg conseguiu ter aulas com três deles: Ernst Glerum, Franz van der Hoeven e Arnorld Dooyeweerd, cada um com a sua especialidade. «Tentei aprender o que cada um tinha para ensinar. Foi como ter três visões para como resolver um mesmo problema.»Sempre que algum contrabaixista da sua preferência ia a Amesterdão, tentava combinar uma aula com ele: «Resultou com alguns, com outros não», confessa. Também os colegas foram essenciais no seu processo de desenvolvimento enquanto músico. «Sempre tentei tocar com músicos melhores ou mais experientes do que eu.»

O facto de o Conservatório de Amesterdão ser um pólo de atração internacional deu-lhe a oportunidade de viajar muito nesses anos, uma vez que o líder de cada grupo de que fazia parte organizava pequenas digressões no seu país de origem. Foi então que percebeu a dificuldade de meter o contrabaixo num avião. «Um inferno», como faz questão de dizer. «A escola tinha um estúdio incrível que nós podíamos marcar para fazer as gravações para CDs ou só para marcar concertos. Gravar tanto também foi uma mais-valia.»

Ao mesmo tempo que estudava no conservatório, trabalhava num restaurante mexicano três a cinco noites por semana. Primeiro a servir às mesas, depois a cozinhar. O dono tornou-se um grande amigo. «Quase só havia alunos do conservatório a trabalhar lá. Essa experiência foi a que mais me fez crescer.»

Foi também em Amesterdão que conheceu músicos com quem ainda toca e cujas bandas continuam a crescer. São exemplos Spyros Manesis e o baterista letão Kaspars Kurdeko (o Spyros Manesis Trio estive este mês de outubro a tocar no Festival Internacional Douro Jazz), Gianni Gagliardi e Enric Peinado, que juntamente com Hasselberg e Rui Pereira completa os Iberian Express. Com estes últimos fez no verão de 2013 uma digressão por Espanha e Portugal que acabou com a gravação de dois discos. O primeiro, um EP intitulado “Fiets”, é lançado “online” em novembro.

Durante o período em que estudou na capital holandesa João Hasselberg venceu o 3.º Prémio na Competição Internacional de Jazz de Bucareste (Roménia) e chegou às meias-finais do Keep an Eye Jazz Award, em 2009. Anos depois venceu o Prémios Jovens Músicos – atribuído pela Antena 2 – na categoria de combo, com o quarteto de Ricardo Toscano. Questionado sobre a importância que atribui a este tipo de galardões afirma que «feliz ou infelizmente os prémios não revelam nada para além do gosto do júri, a não ser que se trate de um prémio de física nuclear, e mesmo assim» O facto é que o prémio serviu para manter o grupo junto até hoje (o André Santos Quarteto, com disco a sair em breve) e para saber que o trabalho que desenvolvem é reconhecido, «o que é sempre bom e o ego adora». 

Jazz e muito mais

 

Como referências principais no seu instrumento, Hasselberg cita, acima de todos, os nomes de Israel Crosby, Jimmy Garrison, Ben Street, John Hébert, Charlie Haden, Derrick Hodge e Rinat Ibragimov. No plano dos compositores – sem distinção de género – salienta a sua admiração por Claude Debussy, Terence Blanchard, Ennio Morricone, Gustavo Santaolala, Maurice Ravel, Bon Iver e Alejandro Erlich Oliva. Quanto a outros músicos destaca Maria João Pires, Thelonious Monk, novamente Terence Blanchard, Harmen Fraanje, Bernardo Sassetti, Chabuca Granda, Wayne Shorter, Perico Sambeat e Elliot Smith.

O primeiro disco em cuja gravação participou foi “Snug as a Gun”, com o IMI Kollektief, formação liderada pelo saxofonista pernambucano Alípio C. Neto – que em tempos residiu em Portugal e entretanto se fixou em Itália – e com a vibrafonista Elsa Vandeweyer, o trompetista Jean-Marc Charmier e o baterista Rui Gonçalves. Essa foi outra experiência determinante: «Adorava tocar com aquele grupo, na medida em que cada concerto era uma experiência nova e ainda mais alucinante do que a anterior. Foi na altura em que comecei a estudar contrabaixo e tocar com eles obrigou-me a desenvolver capacidades que, de outra forma, tinham ficado na gaveta. Não vejo o Alípio desde essa altura.»

Instado a definir-se enquanto músico e compositor, afirma que tenta ser «o mais honesto possível com a minha música e comigo mesmo».E aqui distingue dois planos: o de baixista e o de compositor. «Enquanto “compositor” tento não rejeitar uma ideia por achar que é demasiado isto ou aquilo e ao mesmo tempo não utilizar recursos das minhas influências de forma consciente.» No papel de baixista diz que procura ser «o mais fiel possível à intenção do compositor/líder do grupo e ao mesmo tempo conseguir dar-lhe a conhecer mais sobre a sua própria música.» «Procuro estar sempre a evoluir pessoal, técnica e musicalmente. Na realidade, procuro a verdade», assume.

João Hasselberg não se considera um músico de jazz. Essa, diz, «é uma barreira restritiva».«Apesar da formação jazzística, considero-me um músico que trabalha maioritariamente na área do jazz, mas não um músico de jazz», assevera.

Considera-se alguém que não consegue compor racionalmente. «Não consigo sentar-me e começar a escrever.» Então como surgem as ideias? «Geralmente aparecem vindas de qualquer lado. Pego no iPhone e gravo o que “ouvi” dentro da minha cabeça. Geralmente são melodias já com uma harmonia bem definida. Mas são ideias curtas», afirma.De vez em quando senta-se ao piano e tira o iPhone do bolso. Começa então o processo de burilar a ideia. «O que faço nesta fase é tentar ouvir o que vem exactamente a seguir. E repito esta ação até já não ouvir mais nada. Uns dias depois volto a pegar nela e se tudo correr bem acabo», explica o músico. «Às vezes sei exatamente a instrumentação que quero, outras nem por isso», admite.

Hasselberg afirma que, na sua abordagem, a improvisação joga papéis diferentes consoante o contexto: «Há temas que começo a escrever porque estou a improvisar e me deparo com uma ideia que acho boa. A maior parte das vezes, porém, a improvisação nasce da composição.» Para si, improvisar é «adicionar à música aquilo que lhe falta naquele preciso momento». E o processo continua iterativamente. «No dia a seguir vai precisar de outra coisa, mas naquele momento é “daquilo” que ela precisa e é a necessidade de desenvolver a capacidade de identificar esse “aquilo” a principal razão de querer continuar a estudar e a evoluir», sublinha.

Para além de toda a restante atividade, continua a estudar com Alejandro Erlich Oliva – contrabaixista argentino radicado em Portugal, fundador e trave mestra do Opus Ensemble –, algo que apelida de «essencial». «Para além de um grande instrumentista e compositor/arranjador é um grande professor e um enorme músico. Em cada aula aprendo mais sobre o instrumento, mas acima de tudo mais sobre música.»Nesta altura encontram-se a trabalhar a tradição e o repertório do contrabaixo “clássico”, a começar pelo período barroco. Hasselberg agradece ao também contrabaixista Demian Cabaud por lhe ter recomendado o seu “maestro”.

Em simultâneo, é também professor de contrabaixo na Escola do Hot Clube de Portugal, regressando à casa por onde passou enquanto aluno. Refere que adora ensinar, mas prefere alunos que gostem de aprender. «Infelizmente, quase todos chegam cheios de pressa para sair», diz.Na relação que mantém com os discípulos pretende que estes aprendam a gostar e tenham curiosidade pela tradição e que cultivem uma mente aberta. Transmite-lhes conhecimento de modo a que adquiram bases sólidas no instrumento e que encontrem a sua própria forma de estudar e assimilar informação.«Depois disto, fogem para uma escola superior qualquer e não os posso ajudar a encontrar a sua “verdade”. Será outro professor a tratar desse assunto», considera. 

Música de músicos para músicos

 

João Hasselberg apresentou-se recentemente ao vivo integrando um quarteto que se completa com o saxofonista Rodrigo Amado, o trompetista Luís Vicente e o baterista João Lencastre. «Fizemos dois concertos até agora. Gosto muito desse quarteto, tenho pena de não termos mais coisas marcadas. Espero que surja a oportunidade de gravar a música», salienta.«O Luís arranjou um concerto na APAV [Associação Portuguesa de Apoio à Vítima] e convidou-me, ao Rodrigo e ao João para nos juntarmos a ele. A coisa correu bem e marcámos outro. Podia não ter corrido e cada um ia para o seu canto outra vez.» O certo é que os resultados foram muito positivos, o que aguçou as expetativas para o que poderá resultar do trabalho futuro deste quarteto.

O baixista/contrabaixista está neste momento envolvido em diversos outros projetos, entre os quais o grupo de Luísa Sobral, o trio de Spyros Manesis, os trio e quarteto de João Firmino, o quarteto de André Santos, o trio de Nuno Ferreira, a banda de Mariana Norton, o Bruno Santos Ensemble, o grupo de Afonso Pais & Rita Maria e o Iberian Express. Toca também regularmente com o pianista Júlio Resende.

Entende que o atual panorama do jazz português, em termos de oportunidades para gravar e para tocar, «está pobrezinho», porque – lamenta – não há muitos sítios para tocar, e menos sítios há ainda «que paguem um mínimo e que tenham condições (um piano, mais do que 3 metros quadrados para os músicos ocuparem enquanto tocam)», ressalvado o caso do Hot Clube de Portugal, que considera uma exceção.

Mas o problema, acrescenta, também está no público. «A verdade é que há muito pouca gente disposta a pagar para ouvir jazz e quando não se paga ficam em casa. Nada contra.» O jazz, opina, está, por isso «cada vez mais uma música de músicos para músicos e nem esses vão assistir aos concertos dos próprios colegas».Apesar desta situação, Hasselberg refere que, no seu caso pessoal, tem conseguido tocar e gravar bastante desde que regressou de Amesterdão. «Nunca saíram tantos discos em que participei como este ano. Mas adorava poder rodar mais um mesmo repertório. É difícil arranjar várias datas seguidas com o mesmo grupo», argumenta.

Apesar desta intensa atividade, João Hasselberg ainda tem tempo para sonhar. No plano nacional, não esconde a vontade de trabalhar com Sérgio Godinho e Mário Laginha. «O primeiro porque é um dos meus heróis da música portuguesa, desde pequenino (“Os Amigos do Gaspar”, em cassete). Tocar no grupo dele seria um luxo! O Mário porque é um músico incrível, mestre da composição e do instrumento que sempre admirei e com quem iria aprender sobre tudo e mais alguma coisa.» O guitarrista Norberto Lobo é outro músico com quem gostaria de colaborar. «A música dele tem qualquer coisa», vinca.

Internacionalmente, vários nomes surgem-lhe de imediato. Terence Blanchard («gostava de integrar o grupo dele e de lhe roubar o trabalho de escrever para os filmes de Spike Lee»), Chico Buarque («génio da canção»), Harmen Fraanje («um dos meus pianistas e improvisadores favoritos»), Perico Sambeat ou até fazer uma digressão com os Coldplay…

Quanto aos tempos que se avizinham, espera conseguir tocar bastante a sua música e ter mais trabalho como “sideman”. E não esconde o desejo de encetar uma parceria para escrever música para filmes. Os vários discos que estão para sair e onde intervém atestam a importância de um músico com muito talento para dar ao jazz nacional. Parafraseando Cesário Verde, deixa uma inquietação: «Há tanta coisa que gostava de alcançar e tenho tão pouco tempo para percorrer o caminho.»

 

Para saber mais       

www.joaohasselberg.com

 

Discografia

Iberian Express: “Fiets” (em breve)

Iberian Express: “Haring” (em breve)

André Santos Quarteto (em breve)

João Hasselberg: “Whatever it is You’re Seeking Won’t Come in the Form You’re Expecting” (Sintoma Records, 2013)

Afonso Pais & Rita Maria: “Míope e o Arco-Íris” (Sintoma Records, 2013)

Simone de Oliveira: “Pedaços de Mim” (Get Records 2013)

Luísa Sobral: “There’s a Flower in My Bedroom” (Universal Music, 2013)

Bruno Santos Ensemble: “Bruno Santos Ensemble” (TOAP/OJM, 2013)

Mariana Norton: “10 Sides to My Story” (Ed. Autor, 2013)

João Firmino Trio: “A Casa da Árvore” (Sintoma Records, 2012)

João Firmino Quinteto: “A Bolha” (JACC Records, 2011)

Spyros Manesis Trio: “Undelivered” (JACC Records, 2011)

Luísa Sobral: “The Cherry on My Cake” (Universal Music, 2011)

Gilles Estoppey: “Amter” (Dinemec, 2007)

IMI Kollektief: “Snug as a Gun” (Clean Feed, 2006)