Ricardo Toscano, 22 de Julho de 2013

Ricardo Toscano

Retrato do artista quando jovem

texto António Branco fotografia Carlos Paes

Ainda antes de completar 20 anos de idade, é um caso sério no panorama do jazz em Portugal. Quer gravar como líder, mas não tem pressa. A jazz.pt foi saber mais sobre o que vai na cabeça do jovem saxofonista de quem se fala.

Todos quantos acompanham de forma atenta os cada vez mais buliçosos meandros do jazz nacional por certo já se detiveram num nome que tem vindo a surgir, amiúde, acompanhado por referências elogiosas, geralmente mencionando a sua idade (ainda não completou 20 anos, o que só acontecerá a 6 de setembro próximo) e a forte personalidade jazzística que, apesar dela, exibe.

Esse músico é o jovem saxofonista Ricardo Toscano, considerado por muitos como uma das mais sólidas promessas do jazz que se faz em solo luso. As suas múltiplas colaborações e a participação em diversos projetos e gravações deixam transparecer que estamos perante um caso sério de talento e de aguda propensão para a causa do jazz que, naturalmente, dará os seus frutos artísticos em devido tempo.

Premiado enquanto saxofonista revelação na 8.ª Festa do Jazz do São Luiz (2010) – integrando o combo da Escola do Hot Clube de Portugal –, Ricardo Toscano começou então a atrair os olhares e ouvidos da crítica e do público para as suas evidentes qualidades enquanto instrumentista de grande potencial: «Senti que o pessoal começou a estar atento», começa por dizer o jovem músico.

No ano seguinte fundou o Ricardo Toscano Quarteto, com o qual venceu a 25.ª edição do Prémio Jovens Músicos – promovido pela Antena 2 –, na categoria Jazz, formação de que também faziam parte o guitarrista André Santos, o contrabaixista João Hasselberg e o baterista João Pereira.

Apesar da importância que atribui a esta experiência, e do facto de a mesma ter sido «partilhada com amigos»,considera que talvez hoje não participasse... Explica: «Assim que me deram a notícia que tinha ganho o prémio percebi que, se não o ganhasse, ficaria consideravelmente chateado, e que na música não precisamos de ganhar prémios para sermos melhores e continuarmos o nosso trabalho.» 

Decifrar o que ouve 

A ligação de Ricardo Toscano à música é precoce, muito por culpa do pai, que também é músico. Nem todos os bebés têm o privilégio, como o pequeno Ricardo, de serem embalados ao som do jazz. «Desde que me lembro ouço jazz em casa, e o facto de ser recém-nascido e adormecer ao som de Coltrane ou de “Cannonball” Adderley teve um grande impacto no meu desenvolvimento musical», afirma.

Ter um pai músico acelerou o processo de ligação ao universo dos sons e o contacto com as primeiras notas. «Ia vê-lo tocar e sempre senti que era aquilo que queria fazer, também pelo espírito de amizade que sentia no meio dos músicos», recorda. A presença de instrumentos musicais em casa, diz, «facilitou nas primeiras abordagens». «Tenho algumas fotos minhas com dois ou três anos sentado no chão ao lado da aparelhagem, de fones, rodeado de discos de John Coltrane, Stan Getz e outros...»

O pai de Ricardo descobriu o jazz na viragem dos anos 1970 para os 1980. Quando chegou o tempo passou o gosto ao filho: «Se não fosse por ele não sei se encontrava o jazz.» Lá em casa escutavam-se discos como “Blue Train” (1957) de John Coltrane, “Know What I Mean” (1961) de Julian “Cannonball” Adderley com Bill Evans ou “Kind of Blue” (1959) de Miles Davis, mas também de outros géneros, como Earth, Wind and Fire. «Desde que me lembro ouço jazz e sempre tive interesse em tentar decifrar o que ouço», confessa.

Menciona um episódio de infância que o marcou particularmente: «Lembro-me de uma vez que ouvi o “Blue Train” quando tinha uns sete anos, e perguntei ao meu pai de que ano era o disco porque o som de Coltrane soava-me mesmo atual, fiquei completamente fascinado», diz.

Foi sensivelmente por essa altura que começou na Sociedade Filarmónica Operária Amorense o estudo do clarinete, «pelo facto de se adaptar à minha altura», mas já com o saxofone em mente, também por influência do pai.Esclarece o interesse inicial pelo clarinete e a posterior mudança para o saxofone: «Foi um instrumento que sempre me fascinou pelo som, a agilidade e a versatilidade, mas o objetivo foi sempre mudar para o saxofone uns tempos mais tarde.»

Deste período guarda memórias que o marcam ainda hoje, sobretudo para entender a música como prática iminentemente coletiva: «Especialmente a nível de camaradagem, e acho que foi assim que comecei a gostar de fazer música com outras pessoas, com união e amizade.» 

Parker na sala ao lado

 

Ricardo Toscano passou depois pelo Conservatório Nacional (onde estudou durante dois anos) e pela Escola Profissional Metropolitana, onde continuou a estudar clarinete nas classes de Jorge Camacho, Nuno Gonçalves e João Ramos. Etapas essas que considera decisivas para o caminho que escolheu trilhar. «Uma coisa é certa: se não tivesse passado por essas escolas hoje, provavelmente, não estava no meio do jazz, e ainda bem por isso», conta.

Mas o jovem músico não se coíbe de referir que sentiu na pele o recorrente rebaixamento do jazz em alguns círculos ligados à chamada “música erudita”. «Tive alguns problemas com a maioria dos professores por querer tocar jazz, sobretudo na Escola Profissional Metropolitana. Dificultaram-me um bocado por querer seguir jazz», diz.

Foi na escola da Metropolitana que tomou contacto com a existência da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal. «Andava no segundo ano da Escola Profissional Metropolitana, mas sempre quis estudar jazz. Aprender o saxofone no Hot e o clarinete na EPM.» E se bem o pensou, melhor o fez.

Na Escola do Hot – onde ingressou aos 16 anos – teve oportunidade de estudar com Desidério Lázaro, outro nome que, tal como ele, despontara numa Festa do Jazz do São Luiz. Do trabalho com Lázaro, só diz bem: «Ajudou-me muito nessa fase, ele é muito bom professor», realça.

Apesar da sua juventude, Ricardo Toscano assume uma forte ligação à centenária tradição do jazz, que marca claramente a sua abordagem enquanto saxofonista. «Na minha opinião, para tocarmos um estilo temos de saber de onde vem, como é que surgiu e quem o marcou com o seu contributo», afirma o músico.E continua: «Para mim, conhecer a tradição é muito importante, é como aprender uma língua nova. Só resulta se formos ouvindo e imitando, aprendendo as palavras para escrevermos o nosso texto.»

Na história do jazz são várias as fases que o cativam, embora por motivos que não consegue expressar. «Swing, be-bop, hard-bop, jazz modal, free, moderno. Mas tenho um interesse especial pela fase do segundo quinteto de Miles e pelo quarteto de Coltrane.. Não sei explicar porquê, apenas sinto aquela força que não tem grande descrição...»

O seu interesse em estudar os monstros sagrados do jazz é de tal ordem que o antigo presidente da direção do Hot Clube de Portugal, Bernardo Moreira (pai), contou que, certa vez, tinha Charlie Parker a tocar na sala ao lado... Irrompeu nessa sala e deparou-se com Ricardo a estudar...

Recorda esse momento: «Foi um episódio muito engraçado. Eu estava a improvisar sobre um tema de Parker e o Eng.° entrou na minha sala para ver quem era. Confesso que fiquei um pouco envergonhado. Só mais tarde é que me contaram que ele me tinha feito esse elogio muito generoso.»

Aos 17 anos, foi admitido, como aluno sobredotado, na licenciatura em Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa. A sua caminhada académica tem sido enriquecida com a frequência de diversos “workshops” e “masterclasses” ministrados por nomes cimeiros do panorama mundial, como Lee Konitz, Joe Lovano, Greg Osby, George Garzone, Jon Irabagon e Miguel Zenón, entre diversos outros.

As principais referências que menciona refletem o abrangente processo de aprendizagem que tem percorrido: Mozart, Beethoven, Brahms, Mahler, Debussy, Ravel, destacando uma «admiração especial por Wagner». No plano jazzístico também cita figuras de peso: Coleman Hawkins, Duke Ellington, Louis Armstrong, Charlie Parker («pela sua liberdade total, a sua agilidade impressionante, sempre inspirado pela beleza»), John Coltrane («a forma dele tentar sempre concretizar tudo aquilo em que está a pensar, e a forma como se expõe, é tudo puro»), “Cannonball” Adderley («sempre me fascinou pelo seu groove imbatível, som, articulação e soul») e Wayne Shorter(«um génio e uma inspiração diária»).

Acrescenta a este rol os nomes de Joe lovano, Chris Potter, Steve Wilson, Kenny Garrett e Perico Sambeat, entre outros… 

Improvisar e descobrir sons 

O saxofonista apresentou-se na mais recente edição da Festa do Jazz do São Luiz integrando um quarteto que co-lidera com o contrabaixista António Quintino, formação que surgiu após um convite do diretor artístico da Festa, Carlos Martins. «Falámos de músicos de que ambos gostamos e foram estas as nossas escolhas. Afonso Pais é um músico incrível, todas as vezes que toco com ele aprendo sempre alguma coisa. João Pereira é também um grande músico, com quem eu adoro tocar.»

A hipótese de este quarteto vir a gravar num futuro próximo é algo que está em cima da mesa, embora Toscano considere que o projeto deva ainda ser amadurecido em conjunto e na estrada: «Há, de facto, a possibilidade deste quarteto ser gravado, mas temos de fazer mais concertos.»

Atualmente, empresta o fulgor do seu saxofone a diversas formações, como The Mingus Project e Nelson Cascais Decateto – ambas lideradas pelo prestigiado contrabaixista –, numa experiência deveras importante para si. «Tem sido muito bom, o Nelson escreve boa música e é um bom líder de banda. E adoro tocar com ele, tanto a música dele como “standards” ou os temas de Mingus», assevera.

Ricardo Toscano integra ainda o quarteto do guitarrista André Santos e os quinteto e quarteto do pianista Victor Zamora. Mas a sua atividade não se esgota aí, tocando também em muitos concertos ocasionais com formações e músicos diferentes (Carlos Barretto, Bruno Pedroso, Júlio Resende, Óscar Marcelino da Graça, entre muitos outros).

A estreia discográfica em nome próprio está nas suas cogitações diárias: «Sim, tenho pensado nisso, mas na verdade não tenho muita pressa, sei que vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Quero que tenha um propósito importante para mim, não sendo apenas mais um disco de jazz.»

Toscano assume-se igualmente como compositor, embora confesse que deveria dedicar-se mais a esta vertente.«Tenho andado a falhar nessa área. Não tenho nada acabado...»

Revela-nos um pouco do seu processo criativo, que passa por um aturado trabalho diário. «Tenho alguma rotina. Todos os dias faço uma hora de aquecimento que envolve notas longas e técnica.» E prossegue: «De resto, não programo assim grande coisa, muitas vezes tenho de aprender músicas para ensaios ou concertos, ou então aprendo “standards” e passo muito tempo a trabalhar sobre eles, a improvisar e a descobrir sons.»

Fica claro que a improvisação desempenha um papel fundamental na sua forma de fazer música. «A improvisação é essencial na minha abordagem, se não pudesse improvisar não era feliz a fazer música, nem outra coisa qualquer. Em todas as artes a improvisação é imprescindível. É a liberdade de fazermos o que nos apetece», realça. 

Experiências, aprendizagens, desejos

 

Participou na gravação do disco “Os Fados e as Canções do Alvim”, com Fernando Alvim, uma experiência que adjetiva como «incrível». «Fiquei muito honrado com o facto de poder tocar com o Mestre Fernando Alvim, que além de ser um músico incrível, é também uma pessoa muito especial», acrescenta.Esta foi igualmente uma oportunidade para conhecer«muitos bons músicos e cantores que se dedicam verdadeiramente à música do nosso país».

Apesar da extensa lista de músicos com os quais já teve ensejo de colaborar (sobretudo da área do fado: Carlos do Carmo, Camané, Cristina Branco, Carminho), Ricardo Toscano destaca três nomes com quem gostaria particularmente de trabalhar em Portugal: Mário Laginha, João Paulo Esteves da Silva e André Fernandes.

No panorama internacional não se inibe de dizer que gostaria de tocar com Jeff 'Tain' Watts, Joey Calderazzo, Terence Blanchard, Wynton Marsalis, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Eric Harland e Joe lovano, para só referir alguns. Quanto a discos que o têm marcado nos últimos tempos, destaca o mais recente de Wayne Shorter, “Without a Net” («Uma coisa muito séria. A banda está cada vez melhor, é dos melhores discos que alguma vez ouvi na minha vida»). 

O momento presente do jazz em Portugal merece-lhe, apesar da situação difícil que os portugueses (músicos incluídos) enfrentam, uma apreciação positiva: «O meio do jazz em Portugal está a crescer, cada vez há mais malta nova a tocar e também a tocar cada vez melhor. A nível de concertos se calhar não é o melhor momento, mas acredito que isto em dois anos é provável que melhore, também devido ao aumento do nível geral dos músicos», afirma.

Ricardo Toscano deixa o mote para os tempos mais próximos: «Vou dedicar-me mais à composição e tentarei sempre melhorar no instrumento, na interpretação e a nível conceptual», conclui.

 

Para saber mais       

https://myspace.com/ricardotoscanojazz

 

Discografia 

Nelson Cascais Decateto: “A Evolução da Forma” (Sintoma Records, 2013)

Luís Figueiredo: “Lado B” (Sintoma Records, 2012)

Sofia Vitória & Luís Figueiredo: “Palavra de Mulher” (Numérica, 2012)

Fernando Alvim & Amigos: “Os Fados e as Canções do Alvim” (Universal, 2011)

João Oliveira: “Kutunoka Project” (2011)