Rui Teixeira, 6 de Junho de 2013

Rui Teixeira

Isto anda tudo ligado

texto António Branco fotografia Carlos Azevedo

«Não procuro nada de transcendente nem inovador, apenas fazer o que me é mais natural e orgânico.» As palavras são do saxofonista, clarinetista e compositor que ouvimos em “Tu Não Danças”, o seu primeiro disco na condição de líder. Pretexto para uma conversa com um dos mais requisitados músicos portuenses.

A partir da cidade do Porto, Rui Teixeira (n. 1970) irradia há mais de década e meia prolífica atividade enquanto músico e compositor. Muito requisitado para múltiplos projetos e formações, o saxofonista e clarinetista ocupa um lugar cimeiro não apenas no panorama jazzístico nortenho, mas também, e cada vez mais, no todo nacional.

A um rico e multifacetado percurso há a acrescentar o recente lançamento do seu disco de estreia enquanto líder, “Tu Não Danças”, na Carimbo Porta-Jazz, braço editorial da Associação Porta-Jazz, estrutura em cuja génese e direção está também envolvido.

«Este disco nasceu da necessidade de gravar e editar uma série de peças que escrevi num curto espaço de tempo e que eu achei que deveriam permanecer juntas, em vez de acabarem espalhadas por diferentes projetos em que também estou metido ou num arquivo perdido do disco externo», começa por afirmar Rui Teixeira. «Juntei o quinteto e começámos a tocar. Isto também coincidiu com o aparecimento da editora Carimbo Porta-Jazz, projeto do qual também faço parte e que me pareceu ser a forma mais lógica de editar a minha música nesta altura.»

Pedimos ao autor que nos fizesse uma visita guiada a “Tu Não Danças”. «O disco tem quatro temas nucleares que foram escritos quase ao mesmo tempo: “Tu não Danças”, “Vanishing Point”, “Cruzador” e “Tubarão Fantasma”, que ao longo dos tempos se partiu em dois e no disco acabou por sair em forma de trilogia ou suite, com uma improvisação livre ao piano de Hugo Raro pelo meio.»

Restam “Preâmbulo” («uma improvisação de saxofone barítono e piano sobre uma progressão harmónica, que por sua vez é um tema que inicialmente escrevi para outra banda em que participo, Baba Mongol, e que acabou por vir aqui parar»), “Fim de Tarde” («por enquanto é uma canção muito simples seguida de uma improvisação livre, e a única música no disco com baixo elétrico e contrabaixo ao mesmo tempo» e “Canção Inglesa”, «a única com voz e letra, em Inglês».

Quem escuta “Tu Não Danças” percebe que a escrita de Rui Teixeira está impregnada de referências a diferentes campos musicais, albergando ampla margem para a improvisação. «A maior parte dos temas funcionaria por si só, mesmo que não tivessem solos. Sempre me identifiquei muito com o formato canção. Quer sejam os “standards” da Broadway ou uma canção de Stevie Wonder ou as boas coisas que passam na rádio, são quase sempre histórias bastante concretas contadas em muito pouco tempo», afirma.

«Gosto de pensar que este disco contém esse tipo de histórias e que os solos são um prolongamento das mesmas, algo que as sustenta por mais tempo, como uma conversa sobre um filme quando se está a meio deste», acrescenta. 

Juntos somos mais fortes 

Acompanham Teixeira quatro instrumentistas que conhece bem e com quem tem ao longo dos anos vindo a cimentar laços de cumplicidade pessoal e artística. «São todos excelentes, já toco com eles há muito tempo e mantemos boas relações de amizade. É uma sorte poder trabalhar nestas condições», realça. Porque os conhece bem, pensou neles quando escreveu a música para o disco novo. «Obviamente houve coisas que escrevi a pensar no som de cada um deles e outras que foram reescritas depois de as ter ouvido tocadas, pelo que todos eles são uma parte importante do processo de escrita», diz.

O músico revela-se enriquecido com o caminho trilhado e satisfeito com os resultados alcançados: «Estou satisfeito essencialmente com aquilo que aprendi com todo este processo. Gosto do disco de uma maneira geral e há um ou outro tema do qual confesso gostar bastante.»

Para esta satisfação também concorrem o som de João Bessa e a capa feita pelo Lyft Studio: «Duas coisas fundamentais no resultado final de um disco e com as quais me sinto muito realizado.»

Considera que a receção ao disco tem sido até agora positiva: «As pessoas gostam da música e tenho sentido esse entusiasmo desde os primeiros concertos. É óbvio que o facto de não ter tido críticas negativas até agora não faz com que elas não existam, existem de certeza, só que ainda não chegaram até nós.»

Ligado à Porta-Jazz, Rui Teixeira entende que esta associação «surge como uma inevitabilidade num meio, o do jazz no Porto, que cresceu muito em pouco tempo». «Correspondeu à necessidade de os músicos se organizarem e criarem eles próprios as oportunidades e o espaço para poderem apresentar e desenvolver o seu trabalho na sua cidade, e também levar a música feita na sua cidade ao resto do país e além-fronteiras. É a velha máxima do “juntos somos mais fortes”», salienta.

Depois deste disco inaugural do Rui Teixeira Group, as agulhas voltam-se noutras direções: «Tenho ideias e músicas novas para este grupo, mas penso que o próximo disco com esta formação ainda vai esperar um bocado. Tenho composto para outras formações e possivelmente um desses trabalhos sairá primeiro.» 

Nem sempre organizado, muitas vezes caótico 

Filho de pai acordeonista, Rui Teixeira teve uma infância e uma juventude em que a música e os discos foram presença constante. O interesse pelo jazz, porém, só surgiu mais tarde. Puxa pela memória e recorda as circunstâncias: «Foi por volta dos 16/17 anos. O primeiro disco foi “Heavy Weather”, dos Weather Report. Também tinha nessa altura umas cassetes com Charlie Parker e Miles Davis e uma com um disco de Oscar Peterson com Niels-Henning Ørsted Pedersen e Louis Hayes chamado “Great Conection”, altíssimo disco.»

Entre as suas principais referências musicais estão sobretudo as ligadas ao universo do jazz, mas não só. «As jazzísticas são muitas, pois é a música que passei até agora mais tempo a ouvir e a praticar e tocar. Gosto especialmente de transcrever alguns saxofonistas como Lester Young, Lee Konitz, Gerry Mulligan, Warne Marsh e Pepper Adams. Adoro Duke Ellington.»

Para além do jazz, Teixeira lista no rol das suas maiores preferências nomes como Frank Zappa, Stevie Wonder e o catálogo da Motown, o rock dos Genesis e dos Pink Floyd, alguma música brasileira (Elis Regina, Chico Buarque, Jobim, etc.). No campo da música erudita cita Bach, Stravinsky e Schoenberg. E não esquece a música tradicional portuguesa.

Apesar de sempre ter tocado saxofone alto e de se dedicar também aos clarinetes, o saxofone barítono é o seu instrumento de eleição, muito por culpa de Gerry Mulligan, de quem se assume fã «desde sempre». «Sempre toquei alto, mas quando pude comprei um barítono. Quando passei a tocar na Orquestra Jazz de Matosinhos comecei a tentar perceber melhor o instrumento e a passar mais tempo com ele. Naturalmente, acabou por ser o instrumento com que me sinto mais à vontade», reforça.

Já o clarinete baixo é como um «prolongamento lógico disto tudo», uma espécie de apêndice do “baritonista” numa orquestra de jazz, «como se já não bastassem os oito quilos do barítono para carregar». «Mas é um instrumento incrível que me dá muito prazer tocar e aprender», completa.

Rui Teixeira iniciou os seus estudos formais de saxofone em 1987 com Américo Aguiar, tendo no ano seguinte ingressado na Escola de Jazz do Porto, estudando saxofone com Mário Santos e formação musical com António Torres Pinto. Por essa altura juntou-se às fileiras da Orquestra de Jazz do Porto, sob a direção de Pedro Barreiros. Tempos que deixaram marcas: «Foi a minha primeira experiência com músicos mais velhos e mais experientes e a tocar coisas que para mim na altura eram um grande desafio», lembra.

Licenciou-se na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE), também no Porto, onde teve a oportunidade de estudar com figuras com quem hoje toca habitualmente, como são os casos de Carlos Azevedo, Pedro Guedes, José Luís Rego e Nuno Ferreira. Pessoas que «foram muito importantes para mim e continuam a ser».

Instado a descrever o seu processo criativo confessa que lhe é difícil sentar-se e escrever música sem ter como ponto de partida uma ideia que lhe agrade. Desenvolve: «Por muito simples que seja a ideia não é quando me sento a escrever que normalmente ela aparece. Por isso tento ter sempre à mão algo com que registar essas pequenas ideias. Tenho assim muitas coisas soltas que em qualquer momento utilizo como ponto de partida. Depois tento usar as regras que conheço e aprender as que não conheço conforme a necessidade de desenvolver essas ideias da melhor forma. Este é o método que mais uso, nem sempre organizado e muitas vezes caótico.»

Afirma-se «sensível à tradição, seja em que música for». «Lester Young é tradição, mas para os seus contemporâneos não havia ninguém mais experimental. Está tudo ligado, porque é tudo música, que é o mais importante disto tudo. E por ser sem dúvida o mais importante, devemos respeitá-la e no mínimo saber um bocadinho da sua história. De forma teórica e, essencialmente, prática», completa.

O músico entende a improvisação como «composição em tempo real», funcionando para os dois lados. «É bom poder ter a espontaneidade da improvisação quando se compõe e a estrutura e a razão da composição quando se improvisa. Mas falar é fácil… (risos)». 

A espontaneidade da improvisação e a razão da composição

 

Rui Teixeira tem tocado ao longo dos anos com diversas formações, como o Paulo Gomes Ensemble (gravou o disco “Intro”), o Zé Eduardo Unit, o Carlos Azevedo Ensemble (gravou “Lenda”) e ainda com Raul Marques e os Amigos da Salsa e colaborado com os Clã em concertos ao vivo e na gravação de “Kazoo”, disco de 1997. Atualmente integra os Low Budget Research Kitchen (projeto dedicado exclusivamente à música de Frank Zappa), Baba Mongol (com os quais acaba de lançar o segundo disco, “Eles e os Outros”), Coreto Porta-Jazz, Mário Santos “Bloco de Notas”, entre outros.

Realça a grande importância desta atividade ramificada: «Nunca fui nem quis ser um músico de uma “música” só. O jazz sempre ocupou uma parte maior no meu campo de ação como músico, porque gosto realmente muito do género, mas também porque a história do instrumento que toco se fez basicamente com essa música. Tocar em projetos diferentes e com estilos e referências musicais tão distintas permite-me aprender e explorar outras coisas», afirma.

Um dos lados mais visíveis do seu trabalho é o que desenvolve, desde a sua fundação, com a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM), no seio da qual tem trabalhado com nomes importantes, no panorama nacional e internacional (Lee Konitz, Maria Schneider, Ohad Talmor, Kurt Rosenwinkel, para só nomear alguns). Com a nossa mais reputada orquestra de jazz já teve ensejo de tocar em importantes palcos nova-iorquinos, como Carnegie Hall, Jazz Gallery, Jazz Standard, Iridium e também no Berkeley Jazz Festival em Boston, em 2010.

Trabalhar neste grande formato agrada-lhe muito: «Toco na OJM desde o primeiro dia, uma grande percentagem das minhas experiências musicais aconteceram nesse grupo, e ainda hoje assim é.» Considera ser um «grande privilégio» poder ter a experiência de numa semana tocar com Kurt Rosenwinkel e na semana seguinte estar a fazer repertório dos anos 1930/1940, a tocar Count Basie e Duke Ellington.

No plano individual destaca o trabalho com o lendário Lee Konitz, pela «sua importância na história da música mais o facto de sempre ter sido um dos meus saxofonistas favoritos». Mas não esquece Chris Cheek ou Guillermo Klein.

Tocou também com a European Movement Jazz Orchestra (EMJO) – formação constituída por músicos alemães, eslovenos e portugueses –, naquela que considera ter sido uma das experiências mais «alucinantes» que já teve. Recorda: «Fui chamado para substituir outro músico para um concerto em março de 2011 no Cairo, Egito. A revolução tinha sido a 25 de janeiro. Foram três dias alucinantes numa cidade e num país incrível numa altura muito especial da sua história recente. Também toquei com eles em Serralves, em 2012, no prado, ao ar livre e com muito sol.»

Rui Teixeira escreveu e tocou música para teatro, designadamente para as peças “Conversas Secretas” de Donald Margulies, com encenação de Manuel Coelho (Teatro Nacional D. Maria II, 2000) – em parceria com Marco Franco – e “Eva a L´Orange”, pela Companhia Tenda de Saias, em 2008.

O músico assume que gosta de cruzar diferentes linguagens artísticas, com particular destaque para o cinema. «Gosto muito de cinema e de pensar que a minha música é cinematográfica. Há uma peça neste meu disco (“Vanishing Point”) que é inspirada no filme com o mesmo nome. Vi-o uns dias antes de escrever aquela música. Não o fiz de forma consciente, mas quando chegou a hora de arranjar um título para aquilo, o filme veio-me logo à cabeça. Para mim tem tudo a ver. É um “road movie” de 1971 com uma perseguição frenética pelas estradas americanas», diz. 

Diferenças existem… e ainda bem 

Rui Teixeira confessa que no dia a dia acaba por não ter grande tempo para ouvir música. Ainda assim não deixa de nomear alguns discos cuja audição mais o tem marcado nos últimos tempos: “The Sirens” de Chris Potter, “Star of Jupiter” de Kurt Rosenwinkel, “The Eraser” de Thom Yorke e “In Rainbows” dos Radiohead, “Meddle” dos Pink Floyd, discos de Lester Young com Count Basie e de Pepper Adams com Donald Byrd e ainda “Music of My Mind” de Stevie Wonder.

Também os festivais não atraem particularmente a sua atenção: «A maior parte dos festivais passa-me despercebida, sei que existem mas só me apercebo deles quando lá vou tocar, o que normalmente acontece com a OJM.» Sente que neles se devia «proteger melhor a nossa música e proporcionar mais concertos aos músicos portugueses», com os festivais a terem uma programação «50/50 nacional e internacional ou até 70/30, seguindo o exemplo do Angrajazz, nos Açores», onde o músico mostrou ao vivo, no ano passado, o material que integra “Tu Não Danças”.

Quanto aos panoramas jazzísticos lisboeta e portuense considera que «as diferenças existem… e ainda bem». «Há tantas opções a tomar que dificilmente poderíamos ir todos para o mesmo lado. Nem seria bom. Fazer jazz no Porto é mais fácil para quem quer aprender, porque há mais músicos e escolas, mas para tocar é como no resto do país, há poucos sítios para fazer concertos e a maioria dos “gigs” que se conseguem têm “cachets” muito baixos ou são “à porta”. Ainda assim, é uma cidade muito interessante para criar e escrever música: não falta inspiração, é tudo muito real, à flor da pele», realça.

Os próximos tempos vão continuar a ser para Rui Teixeira particularmente preenchidos. Depois da apresentação (que teve lugar no passado dia 30 de maio) do segundo disco dos Baba Mongol, com música sua, vai com a OJM fazer uma série de concertos que envolvem nomes como Darcy James Argue e Peter Bernstein, num projeto chamado Composers Forum.

Nos seus planos estão ainda «algumas gravações, concertos com o meu grupo para apresentar o disco, concertos com outras bandas e neste momento estou a escrever música e a ensaiar com duas formações diferentes, nada ainda de muito concreto».

 

Para saber mais       

www.ojm.pt/PT/a-orquestra/rui-teixeira/

 

Discografia

Rui Teixeira Group: “Tu Não Danças” (Carimbo Porta-Jazz, 2013)

Baba Mongol: “Eles e os Outros” (Carimbo Porta-Jazz, 2013)

João Paulo Esteves da Silva & Orquestra Jazz de Matosinhos: “Bela Senão Sem” (Tone of a Pitch, 2013)

Maria João & Orquestra Jazz de Matosinhos: “Amoras e Framboesas” (Universal, 2011)

Baba Mongol: “Baba Mongol” (Tone of a Pitch, 2011)

Kurt Rosenwinkel & Orquestra Jazz de Matosinhos; “Our Secret World” (Wommusic, 2010)

Lee Konitz / Ohad Talmor Bid Band feat. Orquestra Jazz de Matosinhos: “Portology” (Omnitone, 2007)

Orquestra Jazz de Matosinhos: “Invites Chris Cheek” (Fresh Sound New Talent, 2006)

Sexteto de Paulo Perfeito: “Bhodi Suite” (Artist Share, 2006)

Mário Santos Bloco de Notas: “Encomenda” (Edição de autor, 2006)

Paulo Gomes Ensemble: “Intro” (Discaudio, 2002)

Zoë: “Synth-o-matic” (Edição de autor, 2002)

Zoë: “Songs from the Borderline” (Edição de autor, 2001)

Carlos Azevedo Ensemble: “Lenda” (CulturPorto, 2000)

Maria Anadon: “Cem Anos do Cinema Português” (Movieplay/Groove, 1998)

Clã: “Kazoo” (1997)