José Dias, 24 de Abril de 2013

José Dias

Uma volta completa

texto António Branco fotografia Rita Castro e Jorge Colaço

Com disco de estreia lançado recentemente na Sintoma Records, o guitarrista, compositor, investigador e docente fala à jazz.pt sobre o seu percurso multifacetado e apresenta-nos a sua visão sobre o atual momento do jazz em Portugal e na Europa.

«Sou um compositor permeável ao que ouço. Não estou muito preocupado em fazer uma música esteticamente hermética, antes pelo contrário. Julgo que a homogeneidade mais importante consegue-se através da persistência e da regularidade no processo de busca e aprimoramento, que nunca está acabado.» É desta forma que se define o guitarrista José Dias, cujo quarteto acaba de se estrear em disco com “360”, na Sintoma Records.

Sendo um primeiro trabalho discográfico, contém – explica-nos o músico – uma mescla de temas recentes com outros que foi compondo ao longo dos anos e tocando com outras formações, «e que achei que fazia sentido que lá estivessem, porque ganharam muito com a abordagem que o quarteto, tal como ele é agora, lhes fez».

Acompanham-no músicos que integram uma nova geração do jazz nacional: o trompetista Moisés Fernandes, o contrabaixista Pedro Pinto e o baterista Rui Pereira.

Formação a tocar junta há cerca de um ano, nela se desenvolve um processo democrático de criação e partilha musicais. «São todos músicos muito talentosos, mas, acima de tudo, são extremamente exigentes em relação ao nosso trabalho. Todos os concertos, todos os ensaios, muitos pormenores de cada tema são discutidos e trabalhados. Julgo que aquilo que nos une, para além de tudo e da amizade que fomos construindo, é uma necessidade comum de sentirmos que a música tem de ser sempre fresca, sempre nova e sempre um desafio cada vez mais exigente», diz José Dias.

Sobre os seus companheiros de jornada é perentório: «O Moisés é um solista extraordinário e que tem sempre uma preocupação muito grande em respeitar a ambiência que estamos a tentar criar. O Pedro tem um balanço e uma noção de harmonia, de tempo e de conjunto acima da média, o que faz dele uma âncora muito segura. O Rui é um excelente compositor, um baterista com uma abordagem muito fresca e aberta e alguém que está constante e ativamente em processo evolutivo. É, possivelmente, o músico que mais “inputs” pertinentes traz para os ensaios, um dos mais atentos aos pormenores a melhorar e, certamente, um dos que mais trabalham em casa novas propostas.»

“360” é constituído quase na íntegra por composições do guitarrista (inclui uma da autoria de Rui Pereira) e foi gravado em agosto do ano passado, poucos dias depois de um concerto que deram com o lendário David Murray.

«Julgo que os temas, na sua maioria são profundamente catárticos e houve a preocupação nas gravações de acentuar esse processo. Houve um cuidado em revelar os contrastes, mas fazendo as transições de forma muito orgânica», revela o guitarrista, que acrescenta que foi quando sentiu que existia um trabalho muito coletivo e muito engajado de todos que «começou a fazer sentido registar isso em disco».

Dias entende os resultados alcançados com “360” não como um fim em si mesmo, mas como o início de um outro processo: «Estou satisfeito, no sentido em que espelha bem a dinâmica dos quatro músicos que estão a tocar naquele momento e o ponto do processo criativo a que chegaram com aquele repertório naquela tarde. Mas, é claro, o disco é só um ponto de partida para retrabalhar os temas ao vivo, compor mais e experimentar abordagens diferentes.»

A guitarra como extensão

Nascido em 1972, José Dias não provem de uma família com passado musical. Mas o apelo da música começou a inquietá-lo desde cedo. «Lá em casa perceberam que tinha um gosto particular pela música e comecei a ter aulas de piano aos 5 anos. Prossegui os estudos até aos 12, mas por essa altura comecei a desinteressar-me pela disciplina e pelo repertório que me exigiam – coisa de que me arrependo hoje, mas que é compreensível naquela idade – e decidi dois anos depois que queria tocar guitarra. Acabei por entrar no Hot já aos 17», revela.

Interessou-se pelo jazz sem saber muito bem o que era. «Comprei o álbum “Sun City”, do colectivo Artists United Against Apartheid, e fiquei fascinado com uma das faixas, “Let Me See Your I.D.”. Era uma música absolutamente diferente de todas as outras do disco e de tudo o que tinha ouvido até ali, algo anárquica, atonal e, talvez precisamente por isso, fiquei quase obcecado por ela», lembra.

Começou então uma fase de troca de discos com amigos do liceu, do Hot e da faculdade. O gosto e a curiosidade pelo jazz foram crescendo: «A ideia de que cada músico impõe uma voz diferente e única na improvisação foi o que me atraiu mais e continua a ser assim. Anos mais tarde, vim a descobrir que quem tocava naquela faixa esquisita que devorei aos 14 anos eram Miles Davis, Herbie Hancock, Stanley Jordan, Ron Carter e Tony Williams. Comecei bem!», recorda com júbilo.

A guitarra foi para José Dias, como para tantos outros, uma paixão de adolescência. Porém, são as características físicas do instrumento que o continuam a fascinar: «Aquilo que me fez apaixonar por ela continua a ser aquilo que me faz, hoje, guitarrista: é um instrumento extraordinariamente versátil e físico. É versátil, porque tanto pode ser extremamente lírico como agressivo. Ao mesmo tempo, é um instrumento muito físico, muito anatómico. Vejo a minha guitarra já como uma espécie de extensão do corpo», diz.

Quanto a principais referências, afirma-se influenciado por tudo o que vê, lê e ouve. «Todos nos interessamos por aquilo que nos suscita a curiosidade e que queremos compreender melhor», referindo que há compositores que são para si um «enigma para saborear toda a vida».

Nomeia-os: Lutoslawsky, Shostakovich, Elliott Carter. Há também os guitarristas que o “ensinaram” a tocar, que imitou e transcreveu:Wes Montgomery, Barney Kessell, John Scofield. Ainda os instrumentistas que desenvolveram uma voz muito própria, quer individualmente quer porque criaram um conceito sonoro inovador de ensemble, destacando Steve Lacy e Paul Motian. E, claro, os guitarristas mais atuais a que se mantém mais atento e mais admira: Ben Monder, Thomas Dahl e Matt Stevens.

Fazer do jazz o que quisermos 

A passagem pelo Hot Clube de Portugal – escola e sala de concertos – foi um período que considera muito importante para o seu desenvolvimento enquanto melómano, músico, investigador e docente. Dias é licenciado em Literatura Portuguesa e tem o mestrado em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese “Playing Outside: Jazz e Sociedade em Portugal na Perspetiva de Duas Escolas”, que versa o ensino do jazz em Portugal.

Entretanto, está a concluir o doutoramento na mesma área, com investigação sobre o jazz na Europa. «O mestrado em Etnomusicologia surgiu como uma necessidade de refletir de uma forma mais metódica e académica sobre a minha atividade enquanto músico e professor na área do jazz.»

E a que conclusões o têm levado os seus estudos? «Tenho observado os festivais de jazz europeus e a realidade portuguesa está muito próxima do que se passa na maioria dos outros países em termos performativos e na qualidade técnica, mas muito distante no que toca ao apoio institucional aos músicos e promotores, sobretudo relativamente aos países escandinavos e da Europa Central. Ao mesmo tempo, os músicos começam, cada vez mais, a trabalhar em rede com colegas de outros países, tanto por necessidade de reunir os recursos e os apoios que são escassos para alguns neste contexto de crise económica, mas também porque as redes virtuais e as viagens são muito mais acessíveis.»

Dessa rede, afirma, está a nascer uma nova fase no jazz que se faz na Europa:«Mais diversificado em termos estéticos, mas, talvez por isso mesmo, mais representativo da variedade que a Europa é hoje.»

José Dias salienta o aspeto que na sua perspetiva realmente funciona como fator facilitador do intercâmbio diversificado entre músicos de jazz europeus. «É que na Europa há uma liberdade maior face à tradição do jazz norte-americano. Como me disse Lukas Koenig, um baterista austríaco, recentemente, no festival 12 Points, em fevereiro, na cidade de Dublin: “Como não fomos nós que inventámos o jazz, podemos fazer dele o que quisermos sem remorsos”.»

Bloco de notas

 

José Dias descreve-se a si próprio como alguém que compõe, sobretudo, enquanto estuda. «As ideias partem geralmente de motivos que me ocorrem no estudo, quer sejam melódicas, rítmicas ou harmónicas. Não é um trabalho rigorosamente metódico. Funciona mais como uma espécie de “bloco de notas”, de que vou escolhendo e trabalhando algumas ideias até que me pareça que há ali uma história. Preocupo-me bastante com esse lado narrativo dos temas.»

A experimentação é outros dos pilares centrais da sua abordagem, num processo que envolve escolha, partilha e aceitação. «Vejo o jazz como uma espécie de base comunicacional que serve a forma como me quero expressar musicalmente e que tem no seu código genético a experimentação como característica mais marcada. A partir daí as escolhas são ilimitadas. Tal como no jazz mais tradicional, os temas escritos são sugestões para um percurso feito, neste caso, por quatro pessoas, em que se experimenta, se sugere, se aceita o que os outros nos propõem e nos apropriamos disso como nosso. É, sem dúvida, uma excelente metáfora para um sistema democrático, mas, mais do que isso, é um processo em que há uma base que pode ser mais ou menos flexível», refere.

Não espanta, por isso, que entenda a improvisação como um diálogo: «Com os outros músicos, com o público, connosco próprios. E pode começar em qualquer destes três pontos, desde que passe por todos eles. A ideia de que estamos a compor em tempo real e que isso resulta de um coletivo é um dos fatores que me atraem mais em fazer música.»

E acrescenta que não deve haver regras muito rígidas: «Pode haver um ponto de partida e de chegada minimamente definido, mas não mais do que isso. O resto não se prevê.» Faz-se música porque se sente necessidade nisso. «Para mim, é um processo de autoconhecimento, uma forma de estar, de me sentir bem e, se possível, fazer os outros sentirem-se bem. Gosto de histórias. Tento contar algumas que acho que podem ser interessantes», reforça. 

Revolução na cultura do País 

Para Dias o jazz em Portugal está a atravessar uma época muito importante, com cada vez mais músicos, festivais, concertos, escolas e investigação académica nesta área. Mas revela preocupação quanto ao futuro: «Receio que esta revolução, que pode ser tão boa na cultura do País, possa não ser sustentada.»

Mas se isto é a noite, há o dia: «Por um lado, é bom, por exemplo, que os festivais de jazz em Portugal estejam a ser cada vez mais preenchidos com nomes nacionais. Parece-me que a mentalidade um pouco provinciana de dar muito pouco espaço aos músicos de jazz portugueses está, felizmente, a desaparecer.»

O músico foi diretor pedagógico da Escola JBJazz entre 2004 e 2012, embora ainda lá se mantenha como professor. José Dias encara a docência comouma excelente oportunidade para refletir sobre a atividade enquanto músico.«Ajuda-nos a ter uma disciplina, a estarmos permanentemente atualizados acerca de novos métodos de estudo, que são úteis também para nós, e a nunca esquecermos alguns aspectos de base na nossa própria evolução», diz.

Também neste capítulo há um lado que se pode tornar perverso: «Há o risco de a atividade docente se tornar, por diversos motivos, na atividade principal ou mesmo exclusiva de alguns músicos. Tenho muita pena quando isso acontece, porque, por vezes, é nos melhores anos de evolução e maturação de um músico que ele ou ela deixa praticamente de tocar.»

A sua postura perante os alunos passa por vincar a importância de se ver e ouvir jazz ao vivo: «O jazz é muito mimético, aprende-se muito por imitação e apropriação de características de outros músicos. Hoje em dia, há uma ideia que me parece generalizada e profundamente errada, junto dos alunos, de que as aulas e a escola são o momento e o local mais importante na formação. Eu tento combater o mais possível esta ideia absurda!»

E sublinha a importância da humildade ao longo de todo o processo de aprendizagem: «A ideia de que nos tornamos músicos pela teoria é idiota e muito pouco humilde, porque se parte do princípio que dependemos só de nós próprios. E a humildade é um dos valores mais importantes para quem é músico. Aprendemos com toda a gente que ouvimos e com quem tocamos.»

Numa altura em que surgem tantas escolas de jazz – aos vários níveis – discute-se muito o papel do ensino do jazz. Para José Dias, se a oferta for desmedida e desconcertada «pode ser contraproducente».«É muito bom que haja tantas escolas de jazz, mas, por um lado, não vejo uma cooperação efetiva entre elas, de que só poderiam beneficiar, e por outro, tenho muito medo que as escolas se transformem em falsos refúgios seguros para alguns músicos de jazz que eu gostaria muito de continuar a ver tocar», realça.

Os próximos tempos serão de grande atividade para José Dias: «Com o quarteto, há o próximo disco que deve ser gravado no início do verão, há uma peça que está a ser escrita para um coreógrafo, outra para uma performance conjunta com um artista plástico e alguns concertos dentro e fora do País. Julgo que o trabalho que aí vem tem uma componente visual forte e a música deverá refletir isso.»

Já em maio, no Salão Brazil, em Coimbra, ao quarteto de José Dias junta-se o pianista Luís Figueiredo, naquela que será a primeira vez que tocam em conjunto. Para breve está igualmente agendado o lançamento de um CD em trio, Magenta, em que o guitarrista participa, juntamente com Nuno Oliveira no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria.

 

Para saber mais

www.josediasmusic.com

 

Discografia

José Dias Quarteto: “360” (Sintoma Records, 2013)